Os Correios enfrentaram um período de forte restrição financeira após bancos credores acionarem uma cláusula contratual que permitiu o bloqueio de receitas da estatal, informa o portal g1. A medida foi aplicada no segundo trimestre de 2025, em meio ao contrato de empréstimo de R$ 1,8 bilhão firmado no ano anterior.
A informação consta em um relatório interno elaborado pelo Departamento de Controladoria da Diretoria Econômico-Financeira da empresa, que analisou a situação até setembro de 2025. O documento descreve o cenário como crítico, destacando impactos diretos sobre a operação e a capacidade de pagamento da estatal.
“O bloqueio de faturamento imposto pelos credores caracteriza cenário de alta criticidade, com impactos financeiros, operacionais e institucionais de grande magnitude”, afirmou o documento.
Cláusula foi acionada após aumento de precatórios
O bloqueio ocorreu após o descumprimento de uma das condições previstas no contrato assinado durante a gestão do então presidente Fabiano Silva dos Santos. A cláusula previa estabilidade no volume de precatórios — dívidas judiciais que a empresa deve quitar por determinação da Justiça.
Com o reconhecimento de novas perdas judiciais ao longo de 2025, o estoque dessas obrigações aumentou, o que levou os bancos a acionarem garantias contratuais.
Entre os direitos previstos aos credores estavam a retenção integral dos valores depositados em contas vinculadas, a execução imediata de garantias fiduciárias e a possibilidade de exigir o pagamento antecipado da dívida.
Falta de liquidez afetou serviços e fornecedores
A retenção das receitas provocou um aperto no caixa da estatal, afetando o pagamento de fornecedores e a continuidade de serviços. O relatório aponta que a situação comprometeu a operação em diferentes níveis.
“Além de agravar a restrição de caixa essa condição ameaça a continuidade de serviços essenciais, compromete a cadeia de fornecedores estratégicos e fragiliza a capacidade de cumprimento das obrigações trabalhistas e tributárias”, apontou o relatório.
O presidente da empresa, Emmanoel Schmidt Rondon, destacou que o principal problema enfrentado foi a falta de liquidez.
“A questão mais aguda de verdade era a liquidez, porque a liquidez que estava afetando a operação E afetava a nossa capacidade de recuperação”, afirmou.
Renegociação elevou custos do empréstimo
Para retomar o acesso ao faturamento, os Correios iniciaram uma renegociação com o sindicato de bancos formado por Citibank, BTG Pactual e Banco ABC do Brasil.
O novo acordo estabeleceu um limite de R$ 2,5 bilhões para o estoque de precatórios reconhecidos e suspendeu temporariamente a contabilização de novas perdas judiciais entre setembro e dezembro de 2025.
Como contrapartida, a estatal pagou uma taxa de R$ 44,8 milhões pela chamada “dispensa de obrigação contratual”, quitada em duas parcelas no fim do ano.
Além disso, houve alteração nas condições financeiras do empréstimo. A taxa de juros, inicialmente fixada em 3% ao ano mais DI, subiu para 4% ao ano mais DI em um primeiro momento e, posteriormente, para 5% ao ano mais DI.
Com isso, o custo efetivo da operação passou de 21,99% ao ano para 25,67%.
Busca por capitalização e novos prazos
O contrato renegociado também prevê a possibilidade de retorno às condições originais caso a empresa consiga um aporte de capital superior a R$ 5 bilhões.
Outra mudança relevante foi no cronograma de pagamento da dívida. As parcelas, inicialmente previstas para começar em maio de 2026, foram antecipadas para janeiro e passaram a ser cobradas mensalmente.
Diante do cenário, a captação de um novo empréstimo de maior valor passou a ser tratada como prioridade estratégica pela estatal. A operação, estimada em R$ 12 bilhões, tem como objetivo recompor o caixa e quitar a dívida anterior.
“Em 2025, no final do ano, a gente tinha já mais umas 5 bi de compromissos a pagar, que a gente não estava cumprindo por conta da falta de liquidez”, finalizou Rondón.






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