O desgaste do Supremo Tribunal Federal (STF) em meio às revelações do caso Master passou a ocupar o centro da disputa política nacional e já influencia diretamente o discurso de pré-candidatos à Presidência da República. Em diferentes campos ideológicos, propostas de mudanças na Corte ganharam espaço, variando de reformas institucionais a críticas mais duras contra ministros.
O tema se tornou uma das principais frentes de debate, tanto como estratégia de blindagem diante da crise quanto como ferramenta eleitoral para mobilizar eleitores insatisfeitos com o Judiciário.
Avanço do tema na corrida eleitoral
A discussão sobre o papel do STF deixou de ser restrita ao meio jurídico e passou a integrar a agenda política dos presidenciáveis. Segundo o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), esse movimento reflete uma mudança no papel da Corte nos últimos anos.
“Em escala inédita, o STF deixou de ser árbitro institucional e passou a ocupar o centro do debate eleitoral, porque nos últimos anos, decisões centrais da vida nacional foram parar no Judiciário. A Corte deixou de ser percebida como guardiã da Constituição e passou a ser vista como ator político central”, afirmou.
A percepção negativa também aparece em pesquisas de opinião. Levantamento Genial/Quaest indica que 53% dos brasileiros não confiam na Corte, enquanto 41% dizem confiar — a primeira vez, desde 2022, que a desconfiança supera a confiança.
Direita intensifica críticas e propostas duras
No campo da direita, o embate ganhou força após o ministro Gilmar Mendes solicitar a inclusão do ex-governador Romeu Zema (Novo) no inquérito das fake news. A medida foi motivada por vídeos publicados pelo pré-candidato com críticas a decisões do STF, incluindo a anulação de uma quebra de sigilo bancário relacionada a empresa ligada à família do ministro Dias Toffoli.
Zema transformou o tema em eixo central de sua comunicação. Em uma série de vídeos intitulada “Os intocáveis”, ele critica diretamente ministros da Corte. O episódio impulsionou sua presença digital: segundo levantamento da consultoria Bites, entre os dias 20 e 23 deste mês, o pré-candidato registrou crescimento de seguidores dez vezes superior à média do ano.
Outro nome que adota linha dura é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que tem defendido o impeachment de ministros do STF como bandeira política. Suas críticas estão ligadas à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o tom foi amenizado após o ex-presidente passar a cumprir prisão domiciliar.
Governo e PT apostam em reforma mais moderada
Do lado governista, a estratégia tem sido mais cautelosa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem evitado confrontos diretos, embora reconheça impactos do caso Master sobre a imagem do STF. Em entrevista recente, afirmou que o escândalo “prejudica a imagem do Supremo”.
Lula também relatou ter aconselhado Alexandre de Moraes a preservar sua trajetória diante das acusações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo o presidente, disse ao ministro para não deixar que sua biografia fosse comprometida.
O Partido dos Trabalhadores deve incorporar ao seu programa diretrizes para uma reforma do Judiciário. Entre as propostas está a criação de normas de conduta para cortes superiores, com foco em transparência e responsabilidade institucional. A medida segue linha defendida pelo presidente do STF, Edson Fachin, embora enfrente resistência dentro da própria Corte.
Especialistas avaliam estratégia política
Para analistas, a postura do governo reflete um cálculo político. A pesquisadora Juliana Fratini, doutora em Ciência Política pela PUC-SP, avalia que o distanciamento do tema é intencional.
“É um cálculo político de Lula se afastar dessa temática no momento, ainda que por meio de críticas e abandono do apoio a alguns ministros. A reforma proposta pelo PT, no entanto, é mais tênue do que o pedido da direita por impeachment de ministros. Sob essa estratégia, é possível ficar bem com todas as partes interessadas”, afirmou.
O temor entre aliados do governo é que a oposição explore episódios envolvendo ministros indicados por gestões petistas, como Dias Toffoli, para desgastar uma eventual campanha de reeleição.
Propostas alternativas ganham espaço
Outros pré-candidatos também apresentaram propostas de mudança no STF. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), defende mandato de 10 anos para ministros, idade mínima de 60 anos e adoção de lista tríplice para escolha de novos integrantes.
Já o escritor Augusto Cury (Avante) propõe mandato de oito anos, indicação por entidades da magistratura ou Ministério Público e o fim das transmissões ao vivo das sessões, com o objetivo de evitar a “espetacularização” dos julgamentos.
O ativista Renan Santos (Missão) critica decisões monocráticas e a relação entre escritórios de advocacia e ministros, citando o caso envolvendo a banca da esposa de Alexandre de Moraes.
Posição dos principais pré-candidatos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Defende a criação de normas de conduta para cortes superiores e busca manter distância da crise. Afirmou ter orientado Alexandre de Moraes a preservar sua biografia diante das acusações.
Flávio Bolsonaro (PL)
Adota discurso crítico ao STF e defende o impeachment de ministros. Reduziu a intensidade dos ataques após a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.
Ronaldo Caiado (PSD)
Propõe mandato de 10 anos para ministros, idade mínima de 60 anos e lista tríplice para indicação ao Supremo.
Romeu Zema (Novo)
Intensificou críticas à Corte em vídeos nas redes sociais e defende punições a magistrados envolvidos em irregularidades.
Augusto Cury (Avante)
Sugere mandato de oito anos, novas formas de indicação e o fim das transmissões ao vivo das sessões do STF.
Renan Santos (Missão)
Critica decisões individuais de ministros e questiona vínculos entre magistrados e escritórios de advocacia.
O STF como eixo da eleição
Com a crise institucional ampliando o desgaste da Corte, o STF se consolida como um dos principais temas da eleição presidencial. A disputa sobre seu papel e possíveis mudanças deve seguir como um dos eixos centrais do debate político nos próximos meses, refletindo tanto divergências ideológicas quanto estratégias eleitorais dos candidatos.





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