Quem foi Luz del Fuego? A mulher que dançava nua com cobras e deu nome à ilha de São Gonçalo
Reportagem Especial

Quem foi Luz del Fuego? A mulher que dançava nua com cobras e deu nome à ilha de São Gonçalo

Figura polêmica e libertária dos anos 1950, ela fundou o primeiro clube naturista do Brasil e virou símbolo de ousadia à beira da Baía de Guanabara

Olhos amendoados e horizontais, cabelos esvoaçantes em ondas, típicos da década de 50, e lábios delineados por um batom vermelho sangue. Essas eram as marcas de Luz del Fuego, dona da Ilha do Sol na Baía de Guanabara, em São Gonçalo, onde fundou a primeira comunidade de naturismo do Brasil. Uma personalidade subversiva e magnética da vida carioca que fez questão de incendiar os costumes da época. Seu rosto marcante, no entanto, foi roubado por um pretendente possessivo, que a matou covardemente no auge de seus 50 anos. 

Luz del Fuego era um escândalo. Filha de Antônio Vivacqua e Etelvina, nasceu em 1917, no município de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Seu nome de batismo era Dora Vivacqua e, ainda jovem, trocou o conservadorismo da família por uma vida de espetáculo, fugindo com um trapezista de circo para o Rio de Janeiro.

A personagem “Luz” surgiu no teatro de revista, mas transcendeu os palcos. Dora era engajada na política e fundou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB), em 1949, em pleno Estado do Novo do governo de Getúlio Vargas. 

Além de dançarina, Luz gostava de escrever I Crédito: Reprodução

Um parênteses: o naturismo é tido como um estilo de vida e filosofia que promove a harmonia com a natureza, a autoaceitação e o respeito aos outros, praticado através do nudismo em ambientes naturais. “Ela escreve os livros ‘Trágico Black-out’, onde começa a apresentar as ideias do vegetarianismo e do nudismo, e, anos depois, ‘A verdade nua’ onde lança a filosofia naturalista”, explica o professor e historiador Luciano Tardock. 

Ilhas e cobras 

Em 1944, Dora se tornou a atração principal do picadeiro do Circo Pavilhão Azul. Sob o nome de Luz Divina, era anunciada como “a única, a exótica, a mais sexy e corajosa bailarina das Américas“. O espetáculo era feito com a companhia de duas jiboias: Cornélio e Castorina. As serpentes se enrolavam em seu corpo nu, que dançava diante de uma plateia hipnotizada — alguns assustados com tamanha imoralidade e outros fascinados pela liberdade corporal da capixaba.

Essa mesma recusa por convenções lhe custou caro, recupera Tardock: “De acordo com seus biógrafos, ela odiava usar sutiã, desfilava desde jovem apenas com roupas íntimas pelas praias que frequentava. Por conta desse comportamento, chegou a ser internada em hospitais psiquiátricos em duas ocasiões”. 

Foi também nesse período que a figura mítica de Luz encontrou abrigo físico. Através de um relacionamento com uma autoridade da Marinha, recebeu o controle informal da Ilha de Tapuama de Dentro, na Baía de Guanabara, localizada a cerca de 1,7 km da costa de São Gonçalo. Lá, fundou a primeira colônia naturista do Brasil e rebatizou o local como Ilha do Sol.

Naquele pequeno território, criou um mundo à parte com regras ditadas à moda Luz del Fuego: todos os visitantes tinham que se despir ao chegar. Era um ambiente sem roupas, mas com regras:

1 – Não era permitido a entrada de bebidas alcoólicas

2 – Não era permitido proferir palavras de baixo calão nem relações sexuais na colônia; contrariando aqueles que acreditavam que o viam como um refúgio de sexo

3 – Também não era permitida a entrada de menores de idade na ilhota e, caso uma pessoa fosse comprometida, o parceiro tinha de estar ciente de sua visita

4 – Era estritamente proibida a entrada de pessoas com roupas

Durante os anos 1950, a ilha virou atração turística, frequentada por intelectuais, artistas e curiosos e recebeu nomes internacionais como Brigitte Bardot, Glenn Ford e Errol Flynn.

Ela também se inspirou num batom famoso da época chamado de Luz del Fuego I Crédito: Reprodução

Aparições gonçalenses 

Luz mantinha relação próxima com o continente, saindo com frequência para contratar serviços em São Gonçalo como pedreiros e mantimentos. Descia no cais de Neves, causava alvoroço nas ruas e voltava de lancha, sempre acompanhada de um segurança.

“Ela tinha uma relação com o continente porque ela saía da ilha e vinha até São Gonçalo para contratação de serviços diversos, do dia a dia, como compra de alimentação, de utensílios”, explica o historiador e professor da Faculdade de Formação de Professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (FFP-Uerj), Rui Aniceto.

A memória dessas cenas ainda reverbera entre os moradores antigos. Na lembrança da infância, ficou o burburinho: a mulher das cobras, que dançava com serpentes enroladas ao corpo e que parecia pertencer a outro tempo ou a época nenhuma. 

“Ela era uma mulher diferente das outras. Andava pelada, né? Isso era um escândalo naquela época. Eu era menina, devia ter uns 10, 12 anos. Diziam que ela botava um pano fino no corpo e ia comprar as coisas, mas sempre com segurança. Porque mulher nua andando por aí era coisa nunca vista”, lembra a gonçalense Gilcineia da Silva, hoje com 76 anos, moradora do Pita.

Em uma dessas idas até a tradicional Feira de Neves que o aposentado Joel da SIlva conheceu a figura, aos 25 anos. Na época, segundo o aposentado, era comum que ela vendesse fotos em miniatura de si mesma: “Comprei uma foto que ela mesma vendia, nua, com as cobras enroladas no corpo, custou uns 10 cruzeiros. Ela vinha na Feira de Neves fazer compras, lá de fora, com o segurança dela. Era muito bonita, simpática. Falava com todo mundo”, lembra o aposentado, hoje com 81 anos.

Luz del Fuego fazia aparições sempre cheia de curiosos em São Gonçalo I Crédito: Reprodução

Com o passar dos anos, no entanto, a estrela foi se apagando. Nos anos 60, as finanças entraram em colapso e os amantes influentes já não estavam por perto. A colônia naturista começou a ruir. Foi nesse cenário que Luz conheceu os irmãos Alfredo e Mozart “Gaguinho” Dias, com quem teve um breve relacionamento.

“Ela teve um caso com Gaguinho, terminou com ele e o denunciou à polícia por envolvimento em crimes. Ele não aceitou”, conta Aniceto. No fim de julho de 1967, Luz desapareceu. Seu corpo foi encontrado semanas depois na Baía de Guanabara.

A morte de Luz Del Fuego: um crime passional 

Na noite de 19 de julho de 1967, Alfredo convenceu o irmão a acompanhá-lo até a Ilha do Sol, disfarçando a intenção criminosa dizendo que queria apenas uma conversa. Quando chegaram, Luz foi atraída sob o pretexto de que sua embarcação havia sido furtada. Já em alto-mar, Alfredo golpeou a artista na cabeça e, depois, a esviscerou com uma faca, colocando pedras dentro do corpo para que afundasse na Baía de Guanabara.

“Ele só abre a barriga e coloca umas pedras pra que ela pudesse afundar na Baía de Guanabara. Mas parece que a coisa não dá muito certo. E aí o corpo retorna, é descoberto e tem todo o processo judicial que consegue localizar o assassino”, detalha Aniceto.

O caseiro da ilha, Edigar Lira, também foi assassinado. Após os crimes, os irmãos saquearam o local e fugiram. Os corpos só foram encontrados no início de agosto.

Ainda assim, demorou um tempo para que o responsável fosse capturado, acrescenta Tardock: “Os irmãos a mataram e seu corpo foi encontrado quase que duas semanas depois. O corpo foi resgatado em 1° de agosto e Gaguinho ainda demorou 15 dias para ser preso pela polícia”, conta.

O pós-morte 

Após sua morte, a ilha permaneceu sem uso e ficou abandonada, segundo Aniceto. Embora esteja sob responsabilidade do município de São Gonçalo e faça parte da União, não há registros de iniciativas e construções recentes. Ainda assim, uma gama de aventureiros exploram as mudanças feitas pelo tempo e a memória de Luz Del Fuego em visitas guiadas na região.

Já a figura de Luz, no entanto, não desapareceu completamente do imaginário social. Nas décadas seguintes, passou a ser tema de livros, pesquisas, músicas e filmes. Em 1982, sua trajetória foi adaptada para o cinema com o lançamento do longa Luz del Fuego, dirigido por David Neves e protagonizado pela atriz Lucélia Santos. A produção teve apoio do então recém-criado Ministério da Cultura.

Sua história também foi eternizada na biografia escrita por Javier Montes, em que a  vedete Rita Cadillac assina o texto de orelha. Em uma das passagens, afirma: “Que toda mulher possa ter um pouquinho da alma de Luz del Fuego, que lutou com determinação e garra por aquilo que acreditava, que nunca se dobrou a qualquer mando masculino”.

Além de filmes e biografias, Luz Del Fuego também virou letra de música, citada por Rita Lee que em um de seus versos escreveu: ”Eu hoje represento o segredo/ Enrolado no papel/ Como Luz del Fuego/ Não tinha medo/ Ela também foi pro céu, cedo!“

Em todas as homenagens, a mulher é retratada de diferentes formas, mas sempre com um detalhe comum: era diferente, revolucionária. “Luz del Fuego é considerada até hoje uma mulher muito à frente de seu tempo, sendo um símbolo da luta feminina pelos seus direitos e sua liberdade”, finaliza o historiador Luciano Tardock.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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