* Paulo Baía
Existe um desencaixe que não pede licença. Ele atravessa o cotidiano, infiltra-se nas conversas banais, escorre pelas redes sociais e se instala na intimidade das decisões políticas. Não é um fenômeno visível à primeira vista. Não aparece imediatamente nos indicadores, nem se deixa capturar com facilidade pelas metodologias tradicionais. Mas está ali, operando com força silenciosa. É o descompasso entre o que se vive e o que se sente. E é nesse intervalo, nesse espaço aparentemente invisível, que o Brasil contemporâneo se revela com mais nitidez.
Eu venho insistindo nisso há muito tempo. Em artigos publicados nos sites Agenda do Poder e Utopias Pós Capitalistas, como em “A política como experiência sensível”, sustentei que o Brasil já não pode mais ser compreendido apenas pela análise estrutural dos dados. É preciso escutar o que não está nos números. É preciso compreender o que pulsa no imaginário, no cotidiano, na subjetividade coletiva.
E agora, mais uma vez, esse diagnóstico encontra respaldo robusto no trabalho do sociólogo, cientista político e professor universitário Felipe Nunes. Sua formulação é simples, direta, quase desconcertante. Os dados econômicos evoluem. A percepção da população não acompanha.
Essa frase contém um país inteiro.
Utilizei, para sustentar esta reflexão, um amplo conjunto de evidências empíricas. As pesquisas de 2026 do Meio/Ideia, da Genial/Quaest, da AtlasIntel e do Datafolha. As apresentações da série “O que pensa os brasileiros”, do Canal Meio. Os dados atualizados do IBGE e do IPEA. Os livros “O Brasil no Espelho”, de Felipe Nunes, e “O País Dividido”, de Jairo Nicolau. Trata-se de uma análise situada, ancorada no final de abril e início de maio de 2026. Não é uma abstração. É um retrato em movimento.
E o retrato é inquietante.
Quarenta e três por cento dos brasileiros dizem que a economia piorou. Sessenta e um por cento percebem perda de poder de compra. A renda, em muitos casos, até aumentou. Mas o custo de vida aumentou mais. Essa diferença, aparentemente técnica, é, na verdade, existencial.
Porque viver ficou mais caro do que ganhar.
E quando isso acontece, não há indicador que resolva. Não há gráfico que convença. Não há discurso que compense.
Felipe Nunes formula isso com precisão ao destacar que o conceito-chave é o de affordability. A relação entre renda e custo de vida. Quando essa relação se deteriora, o bem-estar não se produz. E sem sensação de melhora, não há ganho político.
Essa talvez seja a frase mais importante do Brasil contemporâneo.
Sem sensação de melhora, não há ganho político.
A política, portanto, deslocou seu eixo. Não se trata mais de convencer pela razão. Trata-se de afetar pela sensação. O voto deixou de ser um ato predominantemente racional para se tornar uma resposta sensorial. Um gesto que emerge do corpo, atravessa a emoção e só depois, se for o caso, encontra justificativa na linguagem.
Nesse ponto, é inevitável recorrer ao trabalho do neurocientista português António Damásio, professor da University of Southern California, um dos mais importantes pensadores da relação entre cérebro, emoção e decisão. Em “O Erro de Descartes”, Damásio desmonta a ideia clássica de separação entre razão e emoção. Ele demonstra, com base em evidências clínicas, que indivíduos incapazes de sentir emoções também perdem a capacidade de decidir.
A emoção não é um ruído da razão. Ela é condição da razão.
Damásio desenvolve o conceito de marcadores somáticos. São sinais corporais que orientam nossas escolhas. O corpo antecipa, sinaliza, reage. A decisão não nasce apenas no pensamento. Ela nasce na experiência.
O que estamos vendo no Brasil de 2026 é a radicalização dessa tese.
A emoção não apenas participa da decisão. Ela a domina.
E isso altera tudo.
O jornalista e analista social e político Pedro Dória tem insistido, em suas análises, que vivemos uma transformação na arquitetura da esfera pública. As mediações tradicionais perderam força. A informação circula de forma fragmentada. A experiência individual ganha centralidade. A verdade deixa de ser um dado compartilhado e passa a ser uma construção subjetiva.
Nesse ambiente, a percepção não apenas importa mais que a realidade. Ela substitui a realidade como critério de julgamento.
Se as pessoas não sentem que estão bem, então elas não estão bem.
Simples assim.
E devastador assim.
Há, ainda, uma mutação silenciosa no campo simbólico da política. Durante décadas, a esquerda estruturou sua narrativa a partir da ideia de conquista. Direitos eram apresentados como vitórias da luta social. Havia um vínculo direto entre mobilização, conquista e reconhecimento.
Esse vínculo se rompeu.
Quando algo se torna direito, ele deixa de gerar gratidão automática. Ele se naturaliza. Ele se torna invisível. Ele passa a ser percebido como obrigação do Estado, e não como resultado de um processo político.
Isso muda completamente a equação.
Não basta entregar políticas públicas. É preciso produzir percepção de melhoria. É preciso traduzir direitos em experiência sensível.
Caso contrário, o direito existe, mas não mobiliza.
E o que não mobiliza não gera adesão.
Essa transformação também impacta a própria noção de ideologia. A palavra ideologia passou a carregar um peso negativo. É vista como manipulação, como distorção, como algo distante da vida concreta. As pessoas rejeitam a ideia de serem ideológicas.
Mas afirmam, com força, seus valores.
Os valores se tornaram a nova linguagem da política.
Eles são vividos como autênticos, pessoais, inquestionáveis. Diferentemente da ideologia, que pode ser debatida, os valores são sentidos. E o que é sentido não se discute. Se defende.
Essa substituição não elimina a ideologia. Apenas a torna invisível para quem a vive.
E isso torna o debate público ainda mais difícil.
Porque não se trata mais de disputar argumentos. Trata-se de disputar percepções, afetos, identidades.
Nesse contexto, a polarização deixa de ser apenas política. Ela se torna emocional, existencial, quase ontológica. Não se trata apenas de discordar. Trata-se de rejeitar o outro como forma de vida.
Jairo Nicolau, em “O País Dividido”, já apontava as bases estruturais dessa fragmentação. Mas o que vemos agora é sua intensificação sensorial. A divisão não está apenas nas preferências eleitorais. Está na forma como as pessoas sentem o mundo.
E isso tem consequências profundas.
Inclusive para atores que, em tese, deveriam operar com base em racionalidade instrumental, como o empresariado, os professores universitários, os profissionais liberais, as lideranças sindicais, as lideranças de ONGs e Organizações da Sociedade Civil, as lideranças partidárias, os parlamentares, as lideranças religiosas de todas as crenças e fé. A polarização emocional atravessa também esse campo. Decisões passam a ser influenciadas por percepções, preconceitos, impressões. A informação perde espaço para a narrativa. O dado perde espaço para a crença.
Isso é grave.
Porque compromete a capacidade de decisão em um nível estrutural.
O Brasil, portanto, vive uma dissociação. De um lado, o país dos números. De outro, o país das sensações. Entre eles, um abismo crescente.
O IBGE pode indicar melhora em determinados indicadores. O IPEA pode apontar avanços em políticas públicas. As pesquisas podem mostrar tendências objetivas. Mas, se o cotidiano não traduz isso em sensação de bem-estar, o efeito político é nulo.
Ou pior.
Pode gerar reação negativa.
Porque a discrepância entre discurso e experiência produz desconfiança.
E a desconfiança é o combustível mais potente da política contemporânea.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a economia. Nem apenas a política. É a forma como a realidade é percebida, sentida, vivida.
É nesse terreno que se decide o presente.
E é nesse terreno que se desenha o futuro.
A política que não compreender isso continuará falando para si mesma. Continuará explicando o país a partir de planilhas enquanto o país se move por sensações. Continuará defendendo conceitos enquanto a vida exige experiências.
E, nesse desencontro, outros discursos, mais simples, mais diretos, mais emocionais, ocuparão o espaço.
Não porque sejam mais verdadeiros.
Mas porque são mais sentidos.
No fim, tudo converge para uma constatação que, ao mesmo tempo, ilumina e assombra.
A realidade importa.
Mas é a percepção da realidade que decide.
E, no Brasil de agora, sentir tornou-se mais decisivo do que saber.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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