* Paulo Baía
“Não peça coerência ao mistério nem peça lógica ao absurdo.” A advertência de Lygia Fagundes Telles ressoa com profundidade em um Brasil marcado pela polarização política e social que se intensificou após 2016. O impeachment da presidente Dilma Rousseff desencadeou uma série de eventos que fragmentaram ainda mais o tecido social brasileiro, resultando em relações comunitárias e afetivas tensionadas. Nesse cenário, a busca incessante por coerência e lógica em meio ao caos político e social revela-se uma tarefa tão infrutífera quanto tentar decifrar o mistério ou racionalizar o absurdo.
A ascensão de movimentos antagônicos, como o “Ele Não” e o “Ele Sim” durante as eleições de 2018, evidenciou a profundidade das divisões ideológicas no país. Mulheres lideraram manifestações massivas contra a candidatura de Jair Bolsonaro, enquanto apoiadores do então candidato organizaram contraprotestos em sua defesa. Esses eventos não apenas destacaram a polarização política, mas também afetaram profundamente as relações interpessoais, com famílias e amigos divididos por diferenças ideológicas aparentemente irreconciliáveis.
As redes sociais desempenharam um papel crucial na amplificação dessas divisões. Plataformas digitais tornaram-se arenas onde discursos inflamados e notícias falsas proliferaram, reforçando vieses cognitivos e limitando o contraditório. A obra A Máquina do Ódio, da jornalista Patrícia Campos Mello, investiga como campanhas de desinformação e linchamentos virtuais foram utilizados para manipular a opinião pública e silenciar vozes dissidentes. Esse ambiente virtual hostil transbordou para o cotidiano, exacerbando a intolerância política e corroendo os alicerces do convívio social.
A intolerância política, caracterizada pela falta de compreensão e agressividade em relação a posições divergentes, tornou-se uma marca registrada do Brasil contemporâneo. O fenômeno do bolsonarismo, por exemplo, trouxe à tona elementos autoritários e antidemocráticos, desafiando os princípios de diálogo e respeito mútuo. A construção do “inimigo interno” e a retórica de “nós contra eles” minaram a coesão social, transformando o debate público em um campo de batalha ideológico.
Nesse contexto, a advertência de Lygia Fagundes Telles adquire uma relevância ainda maior. Buscar coerência no mistério ou lógica no absurdo é uma empreitada fútil em tempos onde a realidade se apresenta fragmentada e paradoxal. Ao invés de tentar encaixar os eventos em narrativas lineares e racionais, talvez seja mais sábio aceitar a complexidade e a ambiguidade inerentes à condição humana. Reconhecer que nem tudo pode ser explicado ou categorizado permite uma abertura para o diálogo genuíno e para a construção de pontes em meio às divisões.
Portanto, em um Brasil onde as relações sociais, afetivas e comunitárias estão marcadas por fissuras profundas, é imperativo cultivar a empatia e a compreensão mútua. Aceitar o mistério e conviver com o absurdo não implica em resignação, mas em reconhecer os limites da razão e valorizar outras formas de entendimento. Somente assim será possível reconstruir os laços que nos unem enquanto sociedade, navegando com sensibilidade e sabedoria pelas águas turbulentas da contemporaneidade.
A literatura, nesse cenário, cumpre papel fundamental ao reabrir espaços de escuta, imaginação e abertura ao outro. Quando Lygia escreve contos em que o inexplicável e o insólito se mesclam à vida cotidiana, ela ensina que a verdade não está necessariamente na lógica aparente, mas nos sentidos subterrâneos da experiência humana. Essa lição é urgente: precisamos menos de certezas absolutas e mais da coragem de escutar o que parece contraditório ou ambíguo, pois é ali que pulsa a vida em sua inteireza.
Por fim, há uma dimensão espiritual e existencial nesse mergulho naquilo que escapa às fórmulas. A convivência com o mistério e o absurdo pode nos tornar mais humanos, menos arrogantes, mais sensíveis ao sofrimento alheio, mais abertos à alteridade. Em tempos de discursos autoritários e simplificações grosseiras, lembrar — como nos lembra Lygia — que nem tudo precisa fazer sentido para ser verdadeiro, é também uma forma de resistência e esperança.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ





