* Paulo Baía
O Brasil vive uma polarização política, social e afetiva que não apenas se aprofunda, mas se estrutura como elemento funcional e desejado pelas forças hegemônicas da política contemporânea. Longe de ser um efeito colateral da radicalização ideológica ou das transformações políticas, a polarização se consolidou como uma ferramenta estratégica, utilizada deliberadamente pelos principais atores do jogo político para sustentar seu domínio e inviabilizar alternativas. O livro Biografia do Abismo, de Felipe Nunes e Thomas Traumann, retrata como essa divisão calcifica as relações sociais, intensificando a animosidade entre grupos e impedindo o debate público produtivo. O Brasil se tornou um país onde a lógica do “nós contra eles” não é um fenômeno transitório, mas uma engrenagem essencial para a manutenção das forças que disputam o poder.
A origem desse processo pode ser rastreada nas manifestações de junho de 2013, que marcaram um momento de ruptura no tecido político nacional. A insatisfação popular, que naquele momento não possuía um direcionamento ideológico fixo, foi rapidamente absorvida pelas estruturas partidárias dominantes, que souberam instrumentalizar o descontentamento para reforçar suas bases e demonizar o adversário. Esse processo se intensificou durante a crise econômica de 2014, quando o agravamento das condições sociais e o avanço das investigações sobre corrupção foram incorporados ao discurso da polarização, criando narrativas irreconciliáveis. Desde então, a política brasileira deixou de ser um espaço de negociação e convergência, tornando-se uma arena de antagonismo permanente.
As redes sociais desempenharam um papel fundamental nessa consolidação da polarização como estratégia política. Plataformas como Facebook, Twitter e WhatsApp se tornaram campos de batalha ideológica, nos quais a disseminação de desinformação e discursos inflamados fortaleceu a lógica binária da disputa política. O algoritmo dessas plataformas favorece a exposição repetida a conteúdos que reforçam crenças preexistentes, criando bolhas de informação que isolam os indivíduos de perspectivas alternativas. Esse fenômeno não apenas aprofunda a polarização, mas a torna emocionalmente intensa, levando a um processo de “desumanização” do adversário político, visto não como um oponente legítimo, mas como um inimigo a ser combatido e eliminado do debate público.
A funcionalidade da polarização para as forças políticas hegemônicas é evidente na forma como os principais grupos políticos do Brasil operam. A destruição simbólica do outro, mais do que um efeito da radicalização, é um objetivo deliberado. O cenário eleitoral recente tem demonstrado que a polarização não apenas mobiliza eleitores, mas também inibe o surgimento de alternativas políticas que possam desafiar a hegemonia dos grupos estabelecidos. A partir do momento em que a disputa se reduz a um embate existencial entre dois lados supostamente inconciliáveis, qualquer tentativa de construir uma terceira via ou promover um discurso conciliador é rapidamente desqualificada como ineficaz ou ingênua. O resultado é um sistema político paralisado, onde o debate programático dá lugar à guerra retórica e à manutenção do status quo.
As consequências desse processo são visíveis em diversas esferas da sociedade brasileira. Relações familiares e sociais foram profundamente afetadas pela radicalização do discurso político, e o ambiente de trabalho tornou-se um espaço de tensão constante, onde divergências ideológicas frequentemente resultam em conflitos interpessoais. No nível institucional, a polarização minou a confiança nas estruturas democráticas, criando um ambiente de constante suspeição e deslegitimação. Esse fenômeno não apenas compromete a governabilidade, mas também enfraquece a própria noção de cidadania, uma vez que o engajamento político se torna uma extensão do embate tribal, em vez de uma ferramenta para a construção coletiva do futuro do país.
Diante desse cenário, o desafio central para aqueles que acreditam na democracia e na cidadania é romper com a lógica da polarização como estrutura dominante do debate público. Esse rompimento, no entanto, enfrenta dificuldades concretas, uma vez que os principais atores políticos têm interesse direto na manutenção desse estado de coisas. A educação midiática se torna uma ferramenta fundamental para capacitar os cidadãos a identificar e questionar discursos manipuladores, reduzindo o impacto da desinformação e promovendo uma cultura política mais crítica. Além disso, é essencial fomentar espaços de diálogo genuíno, onde seja possível transcender as narrativas binárias e explorar soluções comuns para os desafios do país.
A superação da polarização, contudo, não depende apenas de esforços individuais ou da boa vontade de setores da sociedade civil. Trata-se de um processo que exige mudanças estruturais na forma como o sistema político brasileiro opera. Enquanto as forças hegemônicas continuarem a lucrar eleitoralmente com a manutenção do antagonismo, a tendência é que a polarização persista e se intensifique. É preciso, portanto, um esforço coletivo para pressionar por reformas que incentivem a construção de consensos e desincentivem a lógica do embate permanente.
O Brasil está preso em um ciclo vicioso de polarização que beneficia os mesmos atores políticos e prejudica a qualidade da democracia. A tarefa de reverter esse quadro não é simples, mas é essencial para garantir que a política volte a ser um espaço de construção coletiva, e não apenas um campo de batalha onde o objetivo é a eliminação do adversário. A esperança reside na capacidade da sociedade de reconhecer essa dinâmica e buscar caminhos alternativos que promovam a inclusão, o diálogo e a construção de um país mais coeso e democrático.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.




