Desde 2016, o Brasil mergulhou em um processo contínuo de polarização política que, ao contrário de se dissipar com o tempo, apenas se intensificou e se cristalizou como a principal forma de organização das percepções sociais. A eleição presidencial de 2018 serviu como marco simbólico desse processo, institucionalizando uma lógica de confronto que se alimenta da própria rejeição ao outro.
Em julho de 2025, essa dinâmica atingiu um novo patamar quando os dois polos ideológicos celebraram, simultaneamente, vitórias parciais sobre seus adversários. Essas conquistas, no entanto, não foram entendidas como avanços democráticos ou resultados positivos para a coletividade. Elas representaram tão somente a satisfação moral de derrotar o outro, como se a humilhação do adversário fosse, por si, um projeto de governo ou uma estratégia de resistência.
A política deixou de ser uma prática de negociação de interesses divergentes para se transformar em guerra simbólica, alimentada por ressentimentos profundos e por uma lógica de antagonismo total. Já não se debate por princípios, mas por sobrevivência emocional. Cada vitória é menos uma realização programática e mais uma reafirmação de identidades construídas sobre o repúdio.
Nesse novo cenário, a polarização não é mais um fenômeno ideológico, mas uma estrutura de pertencimento. Define-se politicamente não pelo que se defende, mas pelo que se abomina. É a negação do outro que confere sentido à própria posição. E, assim, não se vota apenas em um candidato, mas contra um inimigo. Não se debate ideias, mas se denuncia intenções. Não se propõe, apenas se acusa. Não se projeta o futuro, apenas se combate o passado encarnado no adversário.
Essa engrenagem de conflito perpétuo aprofundou os impasses institucionais, deteriorou os mecanismos de mediação democrática e dissolveu os fundamentos da convivência civilizada. O país caminha sobre uma trilha de desconfianças generalizadas, alimentada por narrativas infladas e por interpretações paranoicas da realidade. Não se acredita mais em boas intenções nem em projetos comuns.
O outro lado é sempre uma ameaça, um risco existencial à própria identidade. O que resta não é apenas o cansaço, mas a desesperança. A constatação concreta de que os canais de diálogo e os dispositivos de compromisso foram soterrados pela lógica do embate constante.
O pessimismo não é, pois, uma postura subjetiva diante das dificuldades, mas um diagnóstico rigoroso da falência do espaço público como território de entendimento. A política brasileira tornou-se um campo minado por ressentimentos intransponíveis.
Esse quadro de tensão não está restrito aos espaços institucionais ou aos fóruns políticos tradicionais. Ele se entranhou no cotidiano, contaminando relações familiares, laços comunitários e ambientes de trabalho. O país se dividiu em trincheiras emocionais que atravessam bairros, cidades e classes sociais.
O antagonismo ganhou corporeidade em conversas de bar, em jantares de família, em reuniões de condomínio. A polarização não é mais uma exceção ao convívio social. É a regra. Um modo de viver. O tecido social está puído por fraturas afetivas, pelo medo do outro e pela imposição de silêncios estratégicos para evitar confrontos que se tornaram inevitáveis. A convivência se transformou em campo tático, e não mais em espaço de acolhimento ou partilha.
A adesão ao bolsonarismo em cidades como Cabo Frio, na Baixada Fluminense, em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e São Paulo não pode ser lida apenas como fenômeno eleitoral. Trata-se de uma cultura política que ressignificou o modo como parcelas da população compreendem a nação, a autoridade, o papel do Estado e os inimigos internos. Não se trata apenas de antipetismo. É um sistema simbólico de pertencimento e rejeição.
Nessa perspectiva, o olhar sociológico não se limita aos dados quantitativos. É preciso compreender as camadas subjetivas que alimentam essas escolhas: as experiências de fé, a insegurança social, a memória afetiva e os traumas políticos mal resolvidos. Cada sujeito carrega uma convicção ideológica moldada pela sua trajetória singular, mas amplificada por um contexto coletivo de polarização.
Nas universidades públicas, essa cisão é igualmente visível. Docentes das áreas biomédicas, jurídicas, médicas e tecnológicas tendem a expressar maior alinhamento com pautas conservadoras. Já os professores das humanidades mantêm posições historicamente progressistas, agora ameaçadas por uma nova maioria moral que avança não apenas pelas urnas institucionais, mas também pelo corpo técnico-administrativo, hoje fortemente influenciado por segmentos evangélicos neopentecostais.
A universidade, espaço que deveria ser de pensamento crítico e plural, tornou-se espelho das contradições do país, com seus muros ideológicos internos e seus conflitos identitários latentes. O dissenso, que deveria ser produtivo, tornou-se campo de batalha. A diversidade de pensamento foi substituída por silêncios cúmplices e por hostilidades contidas.
Nas regiões suburbanas do Rio de Janeiro, como Bento Ribeiro e Marechal Hermes, a radicalização ideológica se manifesta em dimensões afetivas. A política invadiu os vínculos pessoais e impôs divisões intransponíveis entre antigos amigos, familiares e vizinhos. As refeições compartilhadas carregam, agora, o peso de discordâncias ideológicas que parecem insolúveis.
A vida cotidiana passou a ser mediada por convicções políticas impermeáveis. O pertencimento comunitário foi corroído por uma tensão constante, que não se desfaz nem nos momentos de festa. A política tornou-se um vírus silencioso que habita os corpos e os afetos, contaminando a própria experiência do convívio.
Diante desse cenário, o pessimismo não é apenas uma confissão pessoal. É uma constatação coletiva. Uma angústia socialmente partilhada. Não há motivo para otimismo quando os instrumentos de reconstrução do pacto democrático estão corroídos. Não se pode esperar soluções mágicas quando o problema é estrutural, afetivo e simbólico. A polarização brasileira não é mais apenas um conflito entre ideias. É um abismo entre mundos.
E talvez o mais grave não seja o abismo em si, mas a naturalização dele. Como se fosse normal viver entre trincheiras. Como se a guerra simbólica fosse um estado permanente da democracia. Como se o outro tivesse deixado de ser um interlocutor para se tornar um inimigo a ser eliminado.
O Brasil vive uma crise de linguagem, de escuta e de reconhecimento mútuo. Uma crise que não se resolve com vitórias eleitorais, mas com a reconstrução, lenta e profunda, dos sentidos do comum. Enquanto isso não acontece, o pessimismo não é um erro. É um imperativo ético.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor da UFRJ






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