A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas continua provocando reações entre autoridades, especialistas e integrantes do sistema de Justiça. Um dos críticos da medida é o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que atua há duas décadas no enfrentamento às facções criminosas.
Em entrevista ao podcast O Assunto, apresentado pela jornalista Natuza Nery, Gakiya afirmou que a decisão do governo dos EUA é motivo de preocupação e pode gerar uma série de consequências negativas para o Brasil.
Segundo o promotor, a classificação não traz benefícios concretos para o combate às organizações criminosas e pode abrir espaço para problemas diplomáticos, financeiros e operacionais.
“Eu não tenho dúvida, vai causar problemas de toda ordem no Brasil e não vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e como fez também na Venezuela”, afirmou Gakiya.
A medida anunciada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos transforma as duas maiores facções criminosas brasileiras em alvos das políticas antiterrorismo da administração do presidente Donald Trump. A nova classificação passa a valer oficialmente a partir do dia 5 de junho.
Mudança pode afetar cooperação internacional
Na avaliação de Lincoln Gakiya, uma das consequências mais imediatas da decisão poderá ser o enfraquecimento da cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Atualmente, o intercâmbio de informações envolvendo PCC e Comando Vermelho ocorre principalmente por meio de órgãos policiais, como o FBI e a DEA, agência estadunidense responsável pelo combate ao narcotráfico.
Com a mudança de classificação, o tratamento das informações passaria a envolver órgãos de inteligência e estruturas militares dos Estados Unidos, alterando a dinâmica da cooperação.
“Quando passa a ser classificado e tratado pela CIA e pelos militares, há o sigilo dessas informações, que passam a ser classificados como secretos e ultra secretos ou confidenciais. Então, provavelmente nós vamos ter um decréscimo, uma prejuízo na troca de informações”, afirmou.
Para o promotor, a perda de fluidez no compartilhamento de dados pode comprometer investigações e operações conjuntas desenvolvidas ao longo dos últimos anos entre autoridades brasileiras e estadunidenses.
Sistema financeiro também pode ser afetado
Outro ponto levantado por Gakiya envolve possíveis reflexos sobre o sistema financeiro brasileiro.
Segundo ele, a interpretação rígida das normas antiterrorismo dos EUA pode gerar questionamentos e até sanções envolvendo instituições que, mesmo sem ligação direta com facções criminosas, tenham recebido recursos que passaram por esquemas de lavagem de dinheiro em algum momento da cadeia financeira.
O alerta tem como base investigações recentes conduzidas pelas autoridades brasileiras, entre elas a Operação Carbono Oculto, que revelou mecanismos utilizados pelo PCC para movimentar recursos por meio de postos de combustíveis, fintechs e outras empresas.
“Se a gente for levar ao pé da letra essa classificação de terrorismo, você poderia sancionar bancos que não tiveram diretamente nenhum contato com nenhum integrante do PCC ou mesmo nem participaram desse esquema, mas que indiretamente receberam recursos nessa cadeia que começou lá atrás”, afirmou.
Na avaliação de especialistas, a preocupação decorre da capacidade das organizações criminosas de infiltrar recursos ilícitos em atividades econômicas formais, dificultando a identificação da origem do dinheiro.
Estratégia dos EUA amplia foco sobre a América Latina
A decisão ocorre em meio à ampliação da política de segurança adotada pelos Estados Unidos para a América Latina durante o segundo mandato de Donald Trump.
Desde 2025, a Casa Branca vem reforçando o combate ao chamado narcoterrorismo e ampliando medidas contra organizações criminosas consideradas transnacionais.
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas já vinha sendo discutida por autoridades dos EUA desde o ano passado, dentro de uma estratégia mais ampla voltada ao enfrentamento de cartéis e organizações criminosas atuantes no continente.
O Departamento de Estado anunciou que as duas facções foram enquadradas como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e também passarão a integrar a lista de “Organizações Terroristas Estrangeiras”.
Em comunicado oficial, o governo dos EUA afirmou que PCC e Comando Vermelho estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e destacou que os grupos são responsáveis por ataques contra autoridades, policiais e civis.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também afirmou que as atividades das facções ultrapassam as fronteiras brasileiras.
“O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas”, escreveu.
Documentos preveem atuação mais agressiva
A decisão está alinhada a documentos estratégicos divulgados recentemente pela administração Trump.
Ainda no início do ano, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos apresentou uma nova Estratégia Nacional de Defesa com foco na ampliação da influência estadunidense no Hemisfério Ocidental e no combate ao narcotráfico.
O documento estabelece como prioridade assegurar a dominância militar e comercial dos EUA “do Ártico à América do Sul” e prevê ações mais robustas contra organizações classificadas como narcoterroristas.
Segundo a estratégia, os Estados Unidos pretendem ampliar a presença da Guarda Costeira e da Marinha em rotas estratégicas, reforçar ações de combate aos cartéis de drogas e ampliar o acesso a locais considerados estratégicos na região.
O texto também reafirma a chamada Doutrina Monroe, política histórica dos Estados Unidos que defende a predominância estadunidense no continente.
“Negaremos a competidores de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos de importância estratégica em nosso Hemisfério”, afirma o documento.
Além do combate ao narcotráfico, a estratégia também estabelece como prioridades a contenção da influência chinesa na América Latina e o enfrentamento da imigração ilegal.
Governo brasileiro tentou evitar medida
Nos bastidores, integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva atuaram para tentar impedir que PCC e Comando Vermelho fossem enquadrados como organizações terroristas.
A preocupação do Palácio do Planalto era justamente a possibilidade de a nova classificação abrir margem para ações mais agressivas dos Estados Unidos contra organizações criminosas em território brasileiro.
Segundo fontes do governo, o Brasil não foi comunicado previamente sobre a decisão.
A avaliação de setores do Executivo é que a legislação brasileira já dispõe de mecanismos suficientemente rigorosos para combater facções criminosas, inclusive com penas consideradas mais severas do que aquelas previstas na legislação antiterrorismo nacional.
Especialistas em segurança pública também argumentam que o enquadramento como organização terrorista não necessariamente aumenta a capacidade de repressão ao crime organizado no Brasil e pode gerar efeitos colaterais nas áreas diplomática, econômica e institucional.
Debate deve continuar
Com a entrada em vigor da medida prevista para o dia 5 de junho, a expectativa é de que o debate continue mobilizando autoridades brasileiras, especialistas em segurança pública e representantes do setor financeiro.
Enquanto o governo dos EUA sustenta que a classificação fortalece o combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional, críticos da medida alertam para riscos relacionados à soberania nacional, à cooperação internacional e à estabilidade das relações entre Brasil e Estados Unidos.






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