No dia em que completava 55 anos, Gilvado Borges Junior segurava com firmeza, dentro de um saco plástico, o que considerava seu passaporte para recomeçar a vida: documentos recém-obtidos e uma carta de encaminhamento para entrevista de emprego como servente de obras.
A cena aconteceu no Cipop-Rua/RJ, centro de atendimento a pessoas em situação de rua localizado no prédio do antigo restaurante popular da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
“Eu sei que é só uma entrevista, mas isso aqui para mim é uma guinada de mil graus. Com esse papel, eu volto a ser cidadão”, disse à Folha de São Paulo. Poucos dias depois, ele retornaria o contato com a reportagem para anunciar: foi contratado por uma empresa da zona sul da cidade.
Gilvado viveu três décadas em situação de rua, após o envolvimento com drogas desde a adolescência. Sem documentos, afastado da família e tomado pela baixa autoestima, relatou ter chegado ao fundo do poço. “Quando a pessoa está desorientada, só pensa em preencher o vazio com droga, álcool, prostituição. Não quer saber nem de família, quanto mais de documento.”
A virada começou quando ele soube da existência do Cipop em um abrigo. No local, conseguiu tirar nova identidade, regularizar o título de eleitor e a situação militar, inscreveu-se no Bolsa Família e ainda recebeu uma calça do setor de doações para ir à entrevista.
O centro é resultado de uma parceria entre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), e em seu primeiro ano de funcionamento já soma cerca de 29 mil atendimentos. A proposta é oferecer, em um só espaço, serviços essenciais que contribuam para o resgate da cidadania de pessoas em vulnerabilidade social.
A coordenadora do projeto, Teresa Guimarães, explica que os serviços mais procurados são emissão de identidade, inscrição no CadÚnico e encaminhamento ao Sine. “A documentação é a porta de entrada para tudo. Sem ela, a pessoa em situação de rua fica travada, invisível para o Estado.”
Cerca de 30 profissionais atuam na unidade, representando órgãos como Detran-RJ, Junta Militar, Defensoria Pública, OAB, Ministério do Trabalho, TRT, INSS, Sine e Assistência Social. A estrutura oferece um atendimento integrado e humanizado, que começa, muitas vezes, com um gesto simples: a oferta de roupas limpas.
Nesse ponto, destaca-se o trabalho de Elizabeth Menezes, a Beth Fashion, responsável por organizar as doações. “Quando eles chegam, eu já olho e sei o estilo, o tamanho. Ajudo na autoestima deles. Eu arrumo eles e tenho orgulho disso”, conta.
O perfil majoritário dos atendidos é de homens negros entre 20 e 45 anos, com baixa escolaridade, mas o centro também atende moradores de ocupações, pessoas com deficiência e idosos em situação de vulnerabilidade. É o caso de Roberto Carlos da Silva, 58 anos, que buscou o Cipop para refazer seus documentos e dar entrada no Loas (Benefício de Prestação Continuada). “Quero sair dessa situação. Alugar uma casa”, afirmou, guardando cuidadosamente os papéis nas calças para não perdê-los.
Apesar do impacto positivo, a coordenadora reconhece limitações. “Muitos voltam aqui para avisar que estão trabalhando, mas ainda não temos dados sistematizados sobre quantos mantêm o emprego. Estamos tentando corrigir isso”, diz Teresa.
Para Cláudio Santos, coordenador do Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua, o projeto é importante, mas insuficiente para lidar com a raiz da questão. “O Cipop atende os efeitos, mas não as causas. Ele não discute, por exemplo, a violência da Guarda Municipal contra essa população nem a falta de políticas habitacionais”, critica.
O Cipop-Rua/RJ funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na rua Senador Pompeu, s/nº, no prédio do antigo restaurante popular da Central do Brasil.





