Prisão de Salvino Oliveira provoca reação na Câmara do Rio

Parlamentares subiram à tribuna para criticar a forma como a ação foi conduzida e questionar os indícios que levaram à detenção do colega

A prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD) durante operação da Polícia Civil contra lavagem de dinheiro do Comando Vermelho repercutiu na sessão desta quinta-feira (12) na Câmara do Rio. Parlamentares subiram à tribuna para criticar a forma como a ação foi conduzida e questionar os indícios que levaram à detenção do colega.

Líder do governo na Casa, Márcio Ribeiro (PSD) classificou a prisão como “uma vergonha para a política” e disse não enxergar elementos no processo que justificassem a medida. 

“Você ter um vereador preso nas condições que o vereador Salvino foi preso ontem é uma vergonha para a política. A gente tenta ler nas matérias e ver no processo algum indício que corrobore para aquela ação, e não consigo ver uma linha que dê motivo para aquela ação fosse feita da forma como foi”, afirmou.

Durante o discurso, Ribeiro também sugeriu indiretamente que a prisão é uma forma de calar parlamentares contrários ao governador Cláudio Castro (PL), que chegou a acusar Salvino de ser “braço direito do Comando Vermelho”. 

“Todos nós vamos ter medo de subir nesta tribuna a partir de hoje e falar algo que vá em desacordo com aquilo que eles acreditam. Dependendo da nossa fala, pode ser que nossa casa seja invadida antes do amanhecer. Todos vimos os vídeos e tivemos acesso a muitas páginas do processo e nenhuma aponta ainda o motivo da prisão”, declarou, criticando a condução da operação policial e dizendo que a prisão teria ocorrido sem provas suficientes. 

Vereador do PL criticou posicionamentos recentes de Salvino na Câmara

O líder da bancada do PL, Rogério Amorim, também aproveitou para voltar a comentar o episódio após alfinetar o grupo de Paes na sessão de ontem (11). Ele criticou discursos recentes de Salvino contra as políticas de segurança pública de Castro e lembrou ainda que nesta semana o ele e o alcaide haviam acusado o governo e parlamentares da base de ter ligação com o tráfico de drogas.

“O que esse jovem faz há um mês vindo na tribuna apontar e acusar diretamente aos vereadores do PL de traficante é um absurdo, e não vi um movimento contrário desta Casa sobre o que esse garoto faz. Diversas vezes ele acusou aos vereadores de tchutchuca de traficante, com ar soberbo, com pompa, colocando o dedo na cara”, disse Amorim, que chegou a comparar a situação à prisão de Jair Bolsonaro.

Presidente pede equilíbrio e diz que a Casa acompanha o caso

Até o presidente da Casa, Carlo Caiado (PSD), que não costuma ir à tribuna para comentar as discussões, se posicionou. Ele afirmou que a prisão é um momento “difícil” para o legislativo, mas defendeu cautela enquanto o caso é analisado pela Justiça.

Durante o discurso, Caiado fez críticas à condução da prisão. “No inquérito diz que um dos indícios – e não estou defendendo o vereador, porque ele tem a defesa dele – para o problema que Salvino teve é que ele mora na favela da Cidade de Deus. Outro argumento mais absurdo ainda é que ele é relator da comissão que trata das políticas voltadas às favelas. Você levar benfeitoria para comunidade não quer dizer que você faz parte ou busca ser parceiro de alguma facção”.

Segundo ele, a Casa tem histórico de acompanhar questões judiciais envolvendo vereadores com a devida imparcialidade institucional. Também defendeu que o plenário siga funcionando normalmente.

“É um momento muito difícil para esta Casa e nossa cidade consternada pela prisão de um parlamentar, por qualquer que seja ele, ainda mais pela forma como foi. Em todas essas situações difíceis neste parlamento, a Mesa Diretora manteve imparcialidade, firmeza, mediação e diálogo. Em todos os momentos [que ocorreram casos de prisão] a Mesa Diretora buscou estar junto, apoiar e acompanhar todas as instâncias. E isso não deixou de ocorrer ontem”, declarou.

Caiado afirmou que a diretoria de segurança legislativa e a procuradoria da Casa têm acompanhado o caso junto à família e à defesa de Salvino. “Peço a todos os parlamentares para termos equilíbrio, a justiça espero que seja feita, o vereador está fazendo sua defesa, o tempo é o senhor da verdade”.

Operação investiga ligação com o Comando Vermelho

Salvino Oliveira foi preso na quarta-feira (11) durante a operação Contenção Red Legacy, conduzida pela Polícia Civil, que busca desarticular a estrutura nacional do Comando Vermelho. Além do parlamentar, seis policiais militares também foram presos.

Segundo os investigadores, o vereador teria sido preso por conta de uma “série de indícios” de ligação com a facção. A investigação aponta que ele teria buscado autorização do traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como liderança do Comando Vermelho, para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul durante as eleições de 2024.

Em troca, de acordo com a polícia, o parlamentar teria atuado para viabilizar vantagens ao grupo criminoso, incluindo a instalação de quiosques na região.

Ao chegar à delegacia, Salvino negou qualquer ligação com a facção.“Eu entrei na política para mudar a vida das pessoas e estou sendo vítima de uma briga política que não é minha”, afirmou.

Em vídeo publicado ontem nas redes sociais, o prefeito Eduardo Paes chegou a reagir à prisão do vereador e acusou o governo estadual de utilizar politicamente as forças de segurança. Ele também citou a prisão de aliados de Castro e afirmou não ser “conivente com nenhum tipo de ilegalidade”.

A Câmara chegou a publicar uma nota à imprensa em que afirma considerar haver uma tentativa de associar o debate sobre as políticas voltadas às favelas com a criminalidade.

Leia na íntegra:

Em função de a Comissão Especial de Políticas Públicas para as Favelas ter sido citada no inquérito que levou à prisão do vereador Salvino Oliveira como meio facilitador para relações criminosas, a Câmara Municipal do Rio esclarece:

É inaceitável qualquer tentativa de associar o debate sobre políticas voltadas às comunidades a indícios de atividade criminosa. Nascer ou morar em favela não pode ser tratado como sinal de irregularidade e, muito menos, crime.

Da mesma forma, participar de uma comissão parlamentar dedicada a discutir os desafios das comunidades é parte legítima do exercício do mandato e da representação de milhões de cariocas que vivem nesses territórios.

Em função de a Comissão Especial de Políticas Públicas para as Favelas ter sido citada no inquérito que levou à prisão do vereador Salvino Oliveira como meio facilitador para relações criminosas, a Câmara Municipal do Rio esclarece:

É inaceitável qualquer tentativa de associar o debate sobre políticas voltadas às comunidades a indícios de atividade criminosa. Nascer ou morar em favela não pode ser tratado como sinal de irregularidade e, muito menos, crime.

Da mesma forma, participar de uma comissão parlamentar dedicada a discutir os desafios das comunidades é parte legítima do exercício do mandato e da representação de milhões de cariocas que vivem nesses territórios“.

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