A chapa formada para suceder Cláudio Castro (PL) no Governo do Rio traz perfis contrastantes. Bolsonarista, o pré-candidato Douglas Ruas chegou a subir no palanque no ato de Copacabana para pedir a liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro, buscando uma interlocução direta com o eleitor de extrema direita. Já o vice Rogério Lisboa (Progressistas) se define como um político de centro-direita.

O advogado de 58 anos diz ser avesso ao extremismo político e critica a polarização. “Sou do diálogo sem raiva, gritaria ou xingamentos”, diz Lisboa, em entrevista exclusiva com os vices ao Governo do Rio. Na primeira entrevista da série da Agenda do Poder, Jane Reis (MDB), irmã do cacique político Washington Reis, revelou que pretende apresentar pautas sociais e que não será “peça decorativa” na chapa encabeçada por Eduardo Paes (PSD).

Rogério Lisboa foi prefeito de Nova Iguaçu em duas gestões / Crédito: Divulgação

Apesar do posicionamento político mais moderado, Lisboa desconversa ao falar do bolsonarismo, evitando críticas ao perfil de Douglas Ruas. “Não o vejo como esse radical de direita. Mas, mesmo se for, acredito que tenho muito a contribuir com a minha visão mais equilibrada de centro, sem radicalismo”, diz.

“Eu não sei se o bolsonarismo é o extremo. Vou dizer uma coisa aqui, não sei se vou ser mal interpretado: os extremos entendem tudo errado e distorcido. O extremismo é engessado. E a política não pode ser assim, porque precisamos dar soluções para as coisas”.

Lisboa faz ataques à polarização política que tem atingido o país nos últimos anos. “Os debates entre os extremos são equivocados. Se sou de direita, defendo a família. Se sou de esquerda, defendo a diversidade. Mas não é só isso. O debate precisa ser mais amplo”, aponta.

Ele vê, inclusive, pontos de diálogo mesmo entre gestores com posicionamentos políticos divergentes. “A gente deve ouvir todas as opiniões, porque todo mundo pode contribuir de alguma forma. Não acho que só a direita tem razão em relação a todos os temas”.

Rogério Lisboa com o governador Cláudio Castro, quando era prefeito de Nova Iguaçu / Divulgação

Lisboa fala sobre sondagem para compor chapa de Paes: ‘boa relação’

Cientista político e colunista de Agenda do Poder, Paulo Baía diz ver diferenças entre os perfis da chapa formada pelo PL para suceder Cláudio Castro. “O Ruas está nesse campo político de extrema direita, com uma postura mais radical. Já o Lisboa tem um perfil mais moderno, sobretudo diante das lideranças da Baixada”, compara.

Baía cita, inclusive, um flerte que antecedeu a formação da chapa, quando o ex-prefeito de Nova Iguaçu chegou a ser cogitado para fazer uma aliança com o atual prefeito do Rio. “Essa cogitação teve inclusive apoio de partidos de esquerda, indicando um perfil mais ao centro de Lisboa. Mas o Eduardo Paes fez algo mais ambicioso, se aliando a Washington Reis e escolhendo Jane como vice”.

Rogério Lisboa reconhece que a aliança chegou a ser especulada. “Tenho boa relação com o Eduardo, e todo mundo conversa. O Eduardo, querendo um apoio, chegou a sugerir isso [o nome dele como vice]. Mas ficou só na conversa”.

Com um perfil mais moderado para a chapa, o político também traz consigo a forte influência que exerce em Nova Iguaçu, onde foi prefeito por dois mandatos, de 2017 a 2024. Com quase 620 mil eleitores, o município da Baixada Fluminense tem o quarto maior colégio eleitoral do Estado, atrás apenas do Rio, Duque de Caxias e São Gonçalo.

‘Pode decidir a eleição’, diz Lisboa sobre a Baixada

Rogério Lisboa diz ver a aliança como “um caminho natural”, já que a chapa precisaria ser encabeçada pelo PL, partido do governador Cláudio Castro e de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República.

Ele afirma ver uma lógica eleitoral, já que Douglas Ruas também tem uma base expressiva. O pré-candidato ao Governo do Rio indicado pelo PL é filho do Capitão Nelson, prefeito de São Gonçalo. O município tem o terceiro maior colégio eleitoral do Rio, com mais de 665 mil eleitores.

“O Douglas é qualificado e forte no seu reduto. E eu tinha o perfil adequado para compor a chapa. Fiz política na Baixada a vida inteira. Fui vereador, deputado federal, deputado estadual e prefeito. Isso ajuda a reunir uma experiência e um relacionamento eleitoral muito consolidado em uma cidade expressiva. Um complementa o outro”.

Lisboa também faz uma avaliação sobre uma semelhança na composição das chapas de Eduardo Paes e Douglas Ruas: ambos optaram por lideranças políticas na Baixada. “É uma região muito importante e que pode decidir a eleição”, salienta.

Rogério Lisboa faz elogios à postura de Flávio Bolsonaro: ‘Capacidade de ouvir e de dialogar / Crédito: Reprodução

‘Flávio é a versão melhorada do Bolsonaro’

Rogério Lisboa também faz elogios a Flávio Bolsonaro e diz o ver como “a versão melhorada do Bolsonaro”.

“O Flávio Bolsonaro defende os seus posicionamentos com dureza, mas tem a capacidade de ouvir e de dialogar”, diz, citando o período em que ambos eram deputados estaduais na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 2015.

Ele diz ainda ter proximidade com Cláudio Castro, com quem tem mantido conversas regulares por telefone para falar sobre as eleições de 2026. “Ele é um sujeito muito generoso e atencioso. Nossa relação transcende as instituições”, destaca, ao citar os diálogos com o Governo do Rio no período em que era prefeito de Nova Iguaçu.

Evangélico, questiona o que vê como uso indevido da fé para fins políticos nos últimos anos no país. “Tem muitos políticos que usam o nome de Deus para ganhar voto. Eu não misturo religião com política”.

Rogério Lisboa revela suas ideias para o Governo do Rio: ‘O bom líder não pode agradar todo mundo’ / Crédito: redes sociais

O que pensa Lisboa sobre desenvolvimento econômico e Saúde

“A essência do bom gestor é fazer o que é preciso para atender a população. Também é preciso dizer mais ‘não’ do que ‘sim’. O bom líder não pode agradar todo mundo”, afirma Lisboa.

Ele cita os setores da Economia, Saúde e Segurança Pública como os prioritários para o Governo do Rio. E diz entender que o desenvolvimento econômico só é possível com investimento em qualificação de mão de obra.

“O Rio precisa investir cada vez mais em educação profissionalizante. O que gera riqueza é a indústria. Então, precisamos nos esforçar para trazer desenvolvimento”.

Uma de suas propostas para buscar o desenvolvimento econômico aliado a melhorias no setor de Saúde é o de criar o que ele chama de “centro econômico industrial da Saúde”.

A ideia seria construir esse espaço em um dos municípios da Baixada Fluminense, seu reduto eleitoral. “Como o maior comprador de insumos nesse setor é o SUS, podemos criar um local para produção e venda desses insumos”, propõe.

Ele cita a iniciativa como um dos exemplos possíveis de instalações na região, para evitar uma concentração excessiva apenas na capital fluminense. Em fevereiro deste ano, o Governo do Rio inaugurou o Instituto Estadual de Oncologia da Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu.“Antes, as pessoas precisavam ir para o Rio. Mas esse problema agora foi resolvido”.

‘Se estiver portando fuzil, tem que ser abatido’

Em relação à Segurança Pública, diz apoiar a política imposta pelo Governo Cláudio Castro, simbolizada pela megaoperação no Complexo do Alemão e Penha, que deixou mais de 120 pessoas mortas no fim de outubro de 2025 naquela que é considerada a ação mais letal das polícias no país.

“É preciso demonstrar que o Estado é forte. E quem quiser enfrentar o Estado, meu amigo, tem que ser abatido. Entendeu? É a minha opinião e, acho, também é a opinião da maioria da população, que sofre diariamente com a violência urbana. Não consigo entender que um sujeito portando um fuzil siga vivo”.

Lisboa propõe ações duras, com o apoio de investimento em investigações, reforço no efetivo policial e parceria com o governo federal.

“É preciso organizar as finanças para contratar mais policiais com uma postura dura. O bandido tem que entender que ele não vai ter moleza”, finaliza.

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