Pré-candidatos ao Governo do Rio, Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL) fortaleceram as suas chapas com alianças que ajudam a expandir o território de influência e os seus posicionamentos ideológicos para as eleições deste ano. Cientistas políticos indicam estratégias semelhantes, com nomes de peso onde há a maior quantidade de eleitores e com a intenção de fisgar novos eleitores.

É a terceira da série de Agenda do Poder, que tem revelado as estratégias das chapas ao Governo do Rio. Na primeira reportagem, Jane Reis (MDB), irmã do cacique político Washington Reis, revelou que pretende apresentar pautas sociais e que não será “peça decorativa” na chapa encabeçada por Paes. Vice de Ruas, Rogério Lisboa (Progressistas) descarta o rótulo bolsonarista, critica a polarização e diz ser um político aberto ao diálogo.

Com Jane Reis, Paes agrega a influência política em um dos maiores caciques políticos do Rio. E ainda faz um aceno para o eleitorado de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, reduto político do clã e segundo maior colégio eleitoral do Rio, com quase 675 mil eleitores. Com Rogério Lisboa, Ruas amplia o foco, até então restrito ao núcleo bolsonarista. Político de centro-direita, Lisboa exerce forte influência em Nova Iguaçu, onde foi prefeito entre 2017 e 2024. O município é o quarto maior colégio eleitoral do Estado, com 617 mil eleitores.

Eduardo Paes forma chapa com Jane Reis em pré-candidatura ao Governo do Rio / Crédito: MDB

“Quem ganha mais é o Eduardo Paes, porque ele conquista a influência em uma área em que não tinha presença. Mas o Douglas Ruas também busca força para a sua chapa com Lisboa. Foi um arranjo político com cálculo eleitoral e demográfico”, avalia o cientista político Paulo Baía, colunista de Agenda do Poder.

Professora na UFRJ, a cientista política Mayra Goulart diz ver semelhanças nas escolhas das chapas. “Me parece que o movimento é o mesmo. São duas lideranças associadas a partidos importantes. O MDB de Jane exerce forte influência no Rio. Já o Progressistas de Lisboa é o partido que tem mais prefeituras e vereadores no país. É um movimento que indica a importância de trazer partidos fortes, mostrando que instituições importam”.

“A Jane é da família Reis, que tem controle territorial em Duque de Caxias. O Rogério Lisboa tem o controle de suas bases e ainda conta com muitos aliados políticos. Ambos são políticos que não são contaminados pelo discurso polarizado. São políticos mais associados a entregas e menos a ideologias. Essa maleabilidade ajuda a atrair eleitores com esse perfil”.

Mayra Goulart

Paulo Baía também cita a importância do apoio conservador e religioso com a escolha de Paes por Jane Reis. “Ela tem esse perfil evangélico, conservador e é uma mulher com trajetória ligada a direitos femininos e sociais. Ela ajuda na composição de base eleitoral que o Paes não tinha”.

Rogério Lisboa integra chapa de Douglas Ruas para suceder Cláudio Castro no Governo do Rio / Crédito: Divulgação

Força de Jane para Paes e Lisboa como ‘ponte’ para Ruas

Ele comenta, ainda, os primeiros posicionamentos dados pela vice de Paes em entrevista à Agenda do Poder. “Vou levar pautas e quero participar do programa de governo. Eu tenho voz e vou brigar por isso também. Não vou ser peça decorativa. Quando me proponho a fazer algo, vou até esgotar todas as possibilidades”. Segundo Baía, o posicionamento passa um recado de força da presença dela na chapa. “E a Jane não vai mesmo ser figura decorativa. Ela representa um grupo político importante e terá um papel relevante na campanha”.

Já em relação a Lisboa, diz ver acréscimo à campanha de Ruas por sua capacidade de interlocução. O cientista político também comentou o posicionamento do ex-prefeito de Nova Iguaçu em entrevista à reportagem. “Sou do diálogo sem raiva, gritaria ou xingamentos. Acredito que tenho muito a contribuir com a minha visão mais equilibrada de centro, sem radicalismo. Os extremos entendem tudo errado e distorcido. O extremismo é engessado. E a política não pode ser assim, porque precisamos dar soluções para as coisas”, disse, na ocasião.

Para Baía, não se trata apenas de discurso. Ele diz ver Lisboa como um vice com ferramentas para abrir caminhos para Ruas, que tem adotado um discurso mais alinhado com o bolsonarismo.

“Ele tem o perfil de político que dialoga com todos os segmentos políticos. Com isso, oferece uma ponte para a chapa de Ruas, que transita do centro até a extrema direita. E que ainda é absolutamente fiel à campanha de Flávio Bolsonaro para a Presidência”.

Prefeito Eduardo Paes. — Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Paes com caciques políticos, Ruas com ‘bolsonarismo raiz’

Paulo Baía diz que a manobra de Paes por articulações com os chamados caciques políticos é uma tentativa de fisgar o voto bolsonarista sem abrir mão do apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais. “Será curioso dentro da mesma chapa, com o Paes pedindo voto para o Lula e a Jane Reis apoiando o Flávio Bolsonaro”, diz Baía.

Por outro lado, Mayra Goulart diz ver um problema para Paes em relação ao seu discurso, já que a vice Jane Reis apoia o bolsonarismo. “Ele tem feito o movimento pragmático de atrair lideranças territoriais do interior e da Baixada, mas tem limitações no discurso, que tende a escassear em termos de políticas públicas”, projeta a cientista política, que coordena o Laboratório de Partidos, de Eleições e Política Comparada nas seis regiões do Estado do Rio.

“A tentativa do Paes de atirar para os dois lados pode ser um problema, porque ele não vai explorar o nome do Lula e ainda vai perder votos para o bolsonarismo. É uma campanha limitada, porque ele não vai poder se posicionar como esquerda ou direita em um mundo ideologizado com símbolos de radicalização”, complementar Mayra.

Douglas Ruas faz parte do Governo Cláudio Castro / Crédito: Reprodução

Ainda que a presença de Lisboa indique uma postura mais moderada, a estratégia de Ruas ainda será a aposta no chamado “bolsonarismo raiz”, ligado aos valores da extrema direita. “O PL precisa firmar posições definidas do bolsonarismo. Se começar a despontar nas pesquisas, ele pode surpreender, já que tem uma base forte em São Gonçalo e conta com capilaridade grande no interior”, analisa o cientista político Paulo Baía.

Ele também projeta um contraste entre Paes e Ruas nas eleições. “Ruas vai focar no discurso moral e vai explorar a política de Segurança Pública de Castro no Governo do Rio. Já o Paes vai relativizar o debate sobre esses temas”, projeta.

Mayra Goulart diz ainda ver potencial de crescimento durante a pré-candidatura de Ruas pelo fato de ele ser um representante de uma família com controle territorial político em São Gonçalo. “Ele é muito bem articulado e enraizado no sistema político, com trânsito entre as elites políticas”.

Para o cientista político Ricardo Ismael, os primeiros movimentos da campanha de Paes indicam uma tentativa de fortalecer a sua imagem em municípios da Baixada e do interior. “Ele é muito influente na capital. A tarefa agora é conseguir uma votação expressiva em outros municípios”, diz o professor da PUC Rio.

Ismael diz ver vantagens para Paes na disputa com Douglas Ruas pela maior experiência administrativa e pelo leque de alianças mais amplo. Por outro lado, entende que Ruas surge como um nome novo para o eleitor bolsonarista. “É um político que deve assumir o discurso das políticas de Segurança Pública implementadas por Castro. Menos conhecido, ele ainda vai precisar provar que tem as credenciais necessárias para o cargo”.

Como está a agenda dos vices de Paes e Ruas

Jane Reis e Rogério Lisboa têm compartilhado as suas agendas políticas em seus perfis nas redes sociais nos últimos dias.

Com uma presença mais efetiva em seu perfil no Instagram, Jane tem registrado filiações no MDB e encontros com políticos de olho em futuras candidaturas para as eleições de 2026.

Nos registros, costuma acompanhar o irmão Washington Reis. Em um deles, com destaque para a presença feminina na política, uma das bandeiras de Jane. Evangélica, ela também tem postou uma foto com o irmão na Igreja Assembleia de Deus, em Duque de Caxias.

Já Lisboa fez uma postagem de um encontro com lideranças políticas e autoridades no último fim de semana durante o evento Expo Rio Turismo em Ipiabas, distrito de Barra do Piraí, no Vale do Café. O governador Cláudio Castro e o pré-candidato Douglas Ruas também estiveram no local.

Na ocasião, o ex-prefeito de Nova Iguaçu deu uma entrevista a um veículo local falando sobre a importância do fortalecimento do turismo regional para impulsionar o desenvolvimento econômico no interior do Rio.

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