O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou em depoimento à Polícia Federal que conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo local. A informação foi antecipada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo Globo.
Como mostrou O Globo em novembro do ano passado, Vorcaro manteve contato com Ibaneis durante o período de negociação e se valia de uma rede de relações políticas em Brasília. A pessoas próximas, dizia ter feito “fortes amigos” na capital federal, afirmando que “no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção” e que, sem o apoio de figuras influentes, não estaria onde chegou.
A tentativa de venda do Master ao BRB acabou sendo negada pelo Banco Central do Brasil. Diante de suspeitas de fraudes financeiras, o BC determinou a liquidação do banco. Paralelamente, um inquérito em andamento no Supremo Tribunal Federal apura as supostas irregularidades envolvendo a instituição.
Relatos à Polícia Federal
Em depoimento prestado à Polícia Federal, Vorcaro não detalhou o conteúdo das conversas com Ibaneis, mas afirmou que o governador chegou a ir à sua casa. Em conversas reservadas, o banqueiro relatava que, durante as tratativas com o BRB, Ibaneis teria confidenciado que ligou para um aliado político em busca de informações sobre seu histórico e que recebeu “ótimas referências”.
Segundo investigadores, essa credencial política teria ajudado a destravar um negócio estimado em R$ 12,2 bilhões entre o banco público do DF e o Master, operação considerada essencial para a sobrevivência da instituição privada. A Polícia Federal sustenta que a transação foi feita por “pura camaradagem” e com o objetivo de “abafar a fiscalização” do Banco Central.
Ibaneis já havia reconhecido encontros com Vorcaro, afirmando que ocorreram “uma ou duas vezes em eventos sociais, mas nunca para tratar de banco”, por não entender de sistema financeiro. Segundo ele, o diálogo descrito pelo banqueiro jamais ocorreu.
Procurado novamente nesta sexta-feira, o governador não respondeu. Em declaração ao portal g1, reiterou que se encontrou com Vorcaro, mas negou qualquer conversa relacionada ao Banco Master. Acrescentou ainda que o “único erro foi ter confiado demais no Paulo Henrique”, em referência ao ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa.
Depoimento e defesa do banqueiro
No mesmo depoimento, realizado em 30 de dezembro, Vorcaro afirmou que a instituição que comandava sempre foi “solvente” e disse ter sido surpreendido pela decisão do Banco Central de decretar a liquidação. Durante cerca de duas horas e meia de interrogatório, negou ter vendido carteiras de crédito falsas, suspeita que motivou a investigação, e fez críticas à atuação do BC no caso.
O banqueiro sustenta que as medidas adotadas pela autoridade monetária foram desproporcionais e nega irregularidades na condução dos negócios do Master.
Relações políticas e atuação em Brasília
Para ampliar sua proximidade com o meio político, Vorcaro adquiriu no ano passado uma mansão em Brasília por R$ 36 milhões. O imóvel, localizado em um condomínio fechado de bairro nobre da capital federal, tem cerca de 1.700 metros quadrados e vista para o lago Paranoá.
O endereço passou a ser frequentado por interlocutores influentes, o que, segundo relatos, moldou a percepção do banqueiro sobre a política. Em entrevista à revista Piauí, ele reconheceu que sua visão do ambiente político se tornou “menos preconceituosa”.
Entre os principais avalistas políticos de Vorcaro estava o senador Ciro Nogueira (PP-PI), com quem mantinha uma relação descrita como de “grande amizade”.
Ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira apresentou em agosto de 2024 um projeto no Congresso para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor da indenização paga pelo Fundo Garantidor de Créditos a clientes com aplicações financeiras em bancos em crise. A proposta, que acabou engavetada após pressão do mercado, beneficiaria diretamente o Master ao ampliar seu limite de captação.
Pressões contra o Banco Central
Posteriormente, o PP também atuou em defesa do Master em um embate com o Banco Central. Durante as negociações para a venda do banco ao BRB, a autoridade monetária sinalizou que poderia rejeitar a operação.
Diante do impasse, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), aliado de Ciro Nogueira, articulou um requerimento para acelerar a tramitação de um projeto que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do Banco Central. A iniciativa contou com apoio de parlamentares de diferentes siglas, mas não avançou após nova pressão do mercado financeiro.
Além da relação com Ciro Nogueira, Vorcaro também mantinha proximidade com o presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Os dois se aproximaram em eventos sociais em Nova York e passaram a se encontrar com frequência em Brasília e no Rio de Janeiro.
Enquanto cultivava essas alianças, o Banco Master recebeu investimentos que somaram R$ 2,6 bilhões do Rioprevidência, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores do Estado do Rio de Janeiro. O fundo foi alvo, nesta sexta-feira, de uma operação da Polícia Federal.






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