As câmeras corporais dos policiais militares envolvidos na operação que terminou com a morte de Daniel da Costa Ferraz, de 19 anos, no Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, não registraram a ação. Segundo relatório da Defensoria Pública, os equipamentos obrigatórios foram deixados propositalmente dentro do batalão da PM em Irajá antes da ocorrência.
Imagens obtidas pela GloboNews mostram os policiais recolocando as câmeras apenas depois da operação, já a caminho da delegacia. O material também registra conversas entre os agentes sobre a versão que seria apresentada às autoridades.
A família de Daniel afirma que o jovem era estudante, dava aulas de capoeira e não possuía qualquer ligação com o tráfico de drogas. Segundo parentes, ele seguia para a escola quando foi atingido durante a ação policial.
PMs relataram troca de tiros na delegacia
No registro da ocorrência, os policiais Felipe Cunha Campos Silva e Jeremias Santana Amaral afirmaram que foram atacados a tiros por suspeitos na Rua Tomas Edson, por volta das 8h30 da manhã do dia 23 de maio de 2024.
De acordo com o relato, os agentes reagiram e atingiram Daniel e um adolescente de 17 anos. Ambos foram socorridos, mas morreram posteriormente no hospital.
Os PMs também declararam ter apreendido um revólver calibre 38, uma granada e uma mochila com drogas. O caso foi registrado inicialmente como tráfico de drogas e resistência qualificada.
Defensoria aponta combinação de versões
A análise da Defensoria Pública revelou que, às 5h30 da manhã, os policiais armazenaram as câmeras corporais em uma prateleira dentro do batalhão. Os equipamentos só voltaram a ser utilizados às 9h37, depois do socorro às vítimas.
Segundo o relatório, durante o trajeto até a delegacia, os policiais foram gravados discutindo qual deles assumiria os disparos efetuados na ação. A conversa teria como objetivo evitar que dois fuzis fossem apreendidos para perícia.
Em um dos trechos captados pelas câmeras, um dos PMs afirma que não poderiam dizer que ambos atiraram, pois isso resultaria na apreensão das duas armas utilizadas na operação.
Horário do hospital levanta dúvidas
Outro ponto destacado pela Defensoria Pública envolve o horário de entrada das vítimas no hospital. O boletim médico aponta que Daniel deu entrada às 8h22, oito minutos antes do horário em que os policiais afirmam ter iniciado a troca de tiros.
Para a Defensoria, a divergência reforça suspeitas de inconsistências na versão apresentada pelos agentes. O órgão sustenta que Daniel não participou de confronto armado e foi vítima de letalidade policial.
Quase dois anos após o caso, o inquérito policial ainda não foi concluído. O Ministério Público do Rio de Janeiro afirma que solicitou diligências à Polícia Civil desde 2024, mas parte das medidas ainda não foi cumprida.
Defensoria pede indenização milionária
Com base nas imagens e nos documentos analisados, a Defensoria Pública ingressou com uma ação de indenização contra o Estado do Rio de Janeiro.
O pedido inclui reparação equivalente a 800 salários mínimos, valor estimado em cerca de R$ 1,3 milhão, além de pensão vitalícia para a mãe de Daniel e um pedido formal de desculpas públicas do Estado.
O defensor público André Castro afirmou que todas as provas reunidas até agora indicam que Daniel estava apenas indo para a escola quando foi morto durante a operação policial.
Família cobra responsabilização dos envolvidos
Familiares relatam que, além da dor da perda, convivem com a sensação de impunidade diante da demora nas investigações.
A cunhada de Daniel, Ana Carolina Ferraz, afirmou que a paralisação da investigação criminal aumenta a angústia da família, que ainda espera punição para os responsáveis.
A mãe do jovem, Rosângela Ferraz, declarou esperar que o processo avance para impedir que novos casos semelhantes aconteçam.
O que dizem os órgãos citados
Em nota, a Polícia Militar informou que instaurou um Inquérito Policial Militar para apurar o caso e confirmou que houve uso inadequado das câmeras corporais, classificando a conduta como transgressão grave.
A corporação declarou ainda que os dois policiais estão afastados por licença médica e que o caso foi encaminhado à Auditoria da Justiça Militar do Estado do Rio de Janeiro.
O Ministério Público do Rio informou que acompanha as investigações por meio de Procedimento Investigatório Criminal e destacou que atua no controle externo da atividade policial. Já a Polícia Civil não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem.





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