O miliciano Leandro Xavier da Silva, o Playboy da Curicica, da Curicica, morto na manhã desta quinta-feira em confronto com a Polícia Civil durante uma operação, havia fechado uma aliança com a segunda maior facção criminosa do estado do Rio poucos meses atrás. Escondido na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, Zona Norte da capital, onde foi baleado, Playboy contava com o apoio do traficante Thiago da Silva Folly, o TH da Maré, chefe da região.
A relação de Playboy da Curicica com o tráfico começou há cerca de sete meses, devido ao enfraquecimento de sua milícia. O objetivo era juntar forças contra as investidas da maior facção do tráfico do estado, assim como do grupo paramilitar rival dele, dominado por Luis Antônio da Silva Braga, o Zinho. O miliciano morto atuava nas áreas da Curicica — daí seu apelido com o nome do bairro —, do Terreirão, de Vargem Pequena, de Vargem Grande, de Rio das Pedras e da Muzema, todos na Zona Oeste do Rio. Playboy da Curicica contava ainda com o apoio de André Costa Barros, conhecido como André Boto, preso em março do ano passado, e transferido na terça-feira para o presídio federal em Mato Grosso do Sul.
Segundo informações da inteligência da Polícia Civil, Playboy da Curicica buscou refúgio na Vila dos Pinheiros após receber uma ordem de Boto. No início deste mês, Playboy também teria mandado que seus comparsas roubassem cargas de remédios, assim como liberassem o tráfico de drogas na região de Curicica. Em uma das investidas do grupo, R$ 900 mil foram roubados em remédios, levados para a comunidade da Maré, posteriormente, distribuído para outras regiões.
A ação desta manhã, que tinha como objetivo a prisão preventiva de Playboy Curicica pelo crime de homicídio, foi realizada pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). A operação se deu após dois meses de monitoramento e trabalho de inteligência.
Com a aproximação dos agentes, houve confronto. Além de Playboy da Curicica, um cúmplice dele também ficou ferido e morreu momentos depois: Ivert Leone Ramos Ferreira é apontado pela polícia como segurança pessoal de Leandro. Os dois chegaram a ser levados para o Hospital municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador, segundo os agentes, mas não resistiram. Por meio de redes sociais, moradores relataram um intenso tiroteio na região. Segundo eles, um helicóptero da Polícia Civil sobrevoou a comunidade durante parte da manhã. Pelo menos dois blindados da corporação também circularam pelas ruas da Maré. Devido à operação, a clínica da família Adib Jatene e o Centro Municipal de Saúde Vila do João suspenderam o atendimento.
Ex-aliado de Zinho, Playboy da Curicica era investigado pelos crimes de homicídio qualificado, roubo, extorsão, tortura, receptação, formação de milícia e organização criminosa. A quadrilha que chefiava atua na região de Curicica e faz cobranças de taxas ilegais de segurança, exploração do comércio ilegal de gás, de serviços de internet e de TV a cabo clandestinos e transporte irregular de passageiros, além de grilagem de terrenos e venda ilegal de imóveis.
Em 31 de agosto do ano passado, Playboy da Curicica foi localizado por policiais civis na Rua Coronel Pedro Correia, em Curicica. Na ocasião, ele dirigia uma caminhonete Amarok. Com ele foram apreendidos mais de mil reais, dois celulares, um pendrive e um notebook.
Em maio do ano passado, ele quase foi preso pela Draco em uma boate na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, mas conseguiu escapar. Na ocasião, um policial militar acabou preso. De acordo com os investigadores, o agente fez disparos para auxiliar na fuga de Playboy da Curicica. Os bandidos atiraram ainda três granadas, que não explodiram, contra os agentes.
Em junho, quando a Draco tentou novamente prender o criminoso, cúmplices dele atiraram contra os agentes, e um disparo — que não se sabe de onde partiu — atingiu a cabeça da pequena Alice Rocha, de 4 anos, quando ela e a mãe compravam pipoca, em Curicica.
A menina ficou internada durante 40 dias em estado gravíssimo no Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, na Zona Sul do Rio. Ela passou por duas cirurgias na cabeça, uma delas com duração de dez horas, além de ter acompanhamento de diferentes áreas como fisioterapia, pediatria, neurologia e psicologia. Em julho, Alice recebeu alta e se recupera em casa.
Leandro Xavier da Silva e outras seis pessoas foram citadas em um processo judicial sobre o crime de tortura contra um homem em 25 de maio do ano passado. O grupo teria invadido um imóvel na Gardênia Azul, também na Zona Oeste do Rio, e levou o morador até a rua, onde foi brutalmente torturado, segundo investigação relatada na ação judicial.
Ainda de acordo com o documento, a sessão de tortura durou 40 minutos, e Playboy desferiu golpes no rosto da vítima, prometendo matar o irmão dela e esquartejar o corpo. Há relatos do uso de armas como barras de ferro e concreto nas agressões. Apesar da denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ), um mandado de prisão contra Playboy da Curicica foi revogado pela Justiça. O processo continua em curso.
Com informações de O Globo.





