Há pouco mais de um mês, em meio ao enfraquecimento da principal milícia do estado, traficantes iniciaram uma ampla ofensiva contra os grupos paramilitares, fazendo recrudescer uma guerra que vem deixando um rastro de sangue na cidade do Rio. Em apenas 40 dias, os confrontos em série, que incluem ainda disputas entre facções, deixaram ao menos 29 mortos e 11 feridos, entre jovens inocentes e envolvidos diretamente com o crime — numa média de uma vítima diária como consequência dessa violência carioca cotidiana.
Os casos levantados pelo GLOBO abrangem 29 comunidades, espalhadas por 23 bairros da capital, 15 deles na Zona Oeste — região que é considerada o berço das milícias, e onde ainda hoje elas permanecem robustas. Santa Cruz é o bairro que concentra o maior número de mortes, com nove, seguido de Vargem Grande, com quatro assassinatos no período, e Praça Seca e Curicica, com três cada (todos na Zona Oeste).
Especialistas e fontes ouvidos pelo GLOBO apontam como principal causa das disputas por território — que se intensificaram desde o ano passado e cresceram ainda mais nas últimas semanas — a contração e fragmentação da mais antiga milícia do estado. Com o vácuo, a maior facção criminosa do Rio avançou em busca de ampliar domínios e retomar áreas antes invadidas pelos paramilitares ou por outras quadrilhas rivais. O cenário impulsionou novas frentes de batalha e até mesmo diferentes alianças entre milicianos e traficantes. Diante do fogo cruzado, ficam moradores das regiões conflagradas, encurralados pela realidade de confrontos frequentes.
Inocentes baleados
Entre as nove mortes desde o fim de agosto em Santa Cruz, onde vivem mais de 191 mil pessoas, segundo o IBGE, estão as de Thuany Rocha Batalha, de 35 anos, e Stefany Santos de Barros, de 23. As amigas foram baleadas durante um tiroteio entre milicianos rivais no último dia do mês, na comunidade Conjunto Alvorada.
O filho de Stefany, de 7 anos, estava no carro com as mulheres e também foi ferido com gravidade, mas sobreviveu. O menino acabara de deixar uma aula de futebol e seguia ao encontro de uma explicadora.
Só no Morro do Jordão, na Taquara, foram ao menos oito tentativas de invasão e tiroteio nos últimos 40 dias. Numa delas, em 6 de setembro, Pedro André Dias Sales, de 27 anos, foi morto. Morador da favela, ele saía para trabalhar no momento em que foi atingido. Na região, há também relatos de investidas contra milicianos por parte da maior facção criminosa do Rio em Santa Maria e no Teixeira.
A guerra, porém, não se restringe à Zona Oeste. No domingo retrasado, Wesley Barbosa de Carvalho, de 17 anos, levou três tiros na porta de casa, na comunidade da Tinta, em Brás de Pina, na Zona Norte. A Polícia Civil apura se o rapaz foi alvejado em um ataque de traficantes do Complexo de Israel, sob o comando de Alvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão.
— A gente fica à mercê de uma guerra sem fim — desabafou, ainda no Instituto Médico-Legal (IML), o autônomo Bruno de Carvalho, de 34 anos, pai de Wesley.
Na última quinta-feira, outro adolescente foi vítima das contendas entre criminosos: Kaio de Sousa Santos, de 15 anos, foi morto ao ser atingido por uma bala perdida na comunidade do Juramento, em Vicente de Carvalho, também na Zona Norte. Ali, bandidos locais medem forças com traficantes do vizinho Complexo da Serrinha, em Madureira, dominado por uma facção adversária.
Um vídeo gravado em 1º de setembro, mas que viralizou na semana passada, mostra o momento em que um culto no Juramento, com centenas de presentes, é interrompido por causa de uma troca de tiros entre traficantes. A celebração só foi retomada após um dos pastores pedir aos criminosos que cessassem os disparos.
Ex-aliados romperam
No caso de Santa Cruz, que concentra o maior número de mortes, a disputa é entre criminosos da quadrilha de Alan Ribeiro Soares, o Nanan ou Malvadão, e Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, apontado como o chefe da maior milícia do estado. Ex-aliados, os dois atualmente são pivôs de uma guerra por território que se espalha pela região.
Na noite da última quinta, um homem apontado como segurança de Zinho foi executado a tiros de fuzil na Avenida Antares. O carro de Renan Ribeiro Viana, de 36 anos, ficou crivado de balas, em mais um acerto de contas.
A morte em confronto com a polícia do irmão de Zinho, Wellington da Silva Braga, o Ecko, em junho de 2021, foi crucial para o cenário atual. Ecko comandava o grupo de paramilitares hoje encabeçado pelo parente. Com a morte, a quadrilha sofreu diversos “rachas” e foi se enfraquecendo, resultando em diversas disputas internas, como a que ocorre em Santa Cruz.
Além disso, áreas tradicionalmente ocupadas pela milícia também são alvo de constantes investidas da maior facção do estado. Isso levou a uma aliança entre paramilitares e traficantes de um grupo rival, que somaram forças para tentar evitar a perda de territórios — é o caso da comunidade do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes.
No bairro, os traficantes que se associaram à milícia vendem drogas na orla da praia. Nos últimos meses, membros da quadrilha adversária vêm disputando o domínio da comercialização de entorpecentes, levando a uma sucessão de confrontos. No dia 18 de agosto, um homem foi morto e outros três ficaram feridos em um ataque na Rua do Arquiteto.
— Desde a morte do Ecko, houve uma intensificação dos conflitos armados. Ele era um chefe que, pelo seu poder de articulação, conseguia unir diferentes grupos e negociar. Com sua morte, há uma disputa por esse lugar de comando que acaba impactando fortemente a Zona Oeste do Rio e, até mesmo, a Baixada Fluminense — avalia o sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Na região de Jacarepaguá, ataques da maior facção do Rio e tentativas de milicianos de retomar territórios tomados pelos traficantes estão por trás da guerra. Na Praça Seca, paramilitares tentam retomar a Chacrinha, que passou para as mãos do tráfico no início deste ano.
Traficantes ligados a Edgar Alves de Andrade, o Doca da Penha, vêm sendo atacados por milicianos ligados a Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho, e Leonardo Luccas Pereira, o Leléo, rivais de Zinho, que tentam retomar a região. Ambos estão presos. Os paramilitares se aliaram a traficantes da facção criminosa que comanda o tráfico nas favelas Vila do João e Vila do Pinheiro, no Complexo da Maré, e também de bandidos que eram ligados a Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, assassinado em novembro do ano passado.
Em 15 dias, o bairro de Curicica, na mesma região, registrou ao menos três casos de pessoas mortas em meio ao contexto da guerra. Em 22 de agosto, um miliciano identificado como Bruno ou Birinha foi morto por traficantes da Cidade de Deus na Vila do Sapê. O movimento seria uma tentativa de ampliação territorial da facção a partir da morte do paramilitar Leandro Xavier da Silva, o Playboy da Curicica, que comandava a milícia local. Playboy foi morto em julho deste ano durante uma ação da Polícia Civil.
Em 2 de setembro, há relatos de um miliciano morto no Morro Dois Irmãos. Informações preliminares apontam que ele realizava cobranças na região quando homens em um carro passaram atirando. Três dias depois, outro homem foi morto na comunidade. Em 16 de setembro, o miliciano Luís Paulo Aragão Furtado, o Vin Diesel, foi morto na Gardênia Azul, também nas redondezas. O bairro vem sendo disputado por milicianos e traficantes desde o fim do ano passado.
O ex-chefe do Estado Maior da PM do Rio e coronel da reserva Robson Rodrigues explica que, para conter as disputas entre quadrilhas, é fundamental que a polícia invista na Inteligência para identificar as movimentações dos criminosos com antecedência, tendo a chance de impedir os confrontos.
— Há uma dificuldade na atuação desse tipo de situação, comum a qualquer polícia, que é a questão geográfica. Quem tem mais conhecimento da área e está ali instalado tem vantagem. Mas é preciso investir em qualificação de pessoal habilitado a trabalhar com dados de inteligência, para se antecipar e diminuir a desvantagem — diz.
Procurada, a Polícia Civil do Rio afirmou que as ações de repressão às milícias acontecem continuamente, “com o emprego das mais modernas ferramentas de inteligência”. Já a PM informou que “vem empreendendo uma série de ações para neutralizar os efeitos da disputa territorial” entre quadrilhas.
Com informações do GLOBO.





