Piraí: do brejo à macadâmia, passando por vedetes e tapetes vermelhos
Reportagem Especial

Piraí: do brejo à macadâmia, passando por vedetes e tapetes vermelhos

Cidade mexe com expectativas e mostra como o interior fluminense pode ser surpreendente

Se você acha que toda cidade do interior do Rio de Janeiro é sinônimo de tranquilidade monótona, floresta e cachoeira, essa aqui prova o quanto você está enganado. Tudo começou com um modesto povoado ao redor da capela de Sant’Ana, erguida por volta de 1772, que hoje se tornou a charmosa cidade com nome derivado do tupi, significando “rio dos peixes”. Entre freguesias, vilas e elevações a cidade ganhou status de cidade em 1874, mas nem só de burocracia e datas vive Piraí: a escadaria da Igreja Matriz de Santana recebe os fiéis como se fossem estrelas de cinema, em um tapete vermelho permanente digno de Oscar.

Para quem gosta de nomes divertidos, impossível ignorar a Praça da Preguiça, batizada após o aterro de um antigo brejo que, milagrosamente, virou jardim e abrigo para fofas preguiças. E se você não tem mar, Piraí resolve com charme: a Avenida Beira Rio, margeando o rio homônimo, é o endereço ideal para se exibir nos caramanchões floridos, entre pequenas lojas e a natureza que insiste em marcar sua presença no núcleo urbano.

Mas não pense que a cidade vive só de passado pitoresco: Piraí se autointitula a “Capital da Macadâmia”, produzindo toneladas da noz australiana que virou prato típico e festival próprio, combinando com a tilápia local. Entre fazendas históricas, monumentos art-déco que ainda aguardam reformas e a Casa de Cultura homenageando a vedete Virgínia Lane, a cidade mostra que o interior pode sim ser sofisticado, saboroso e até digital, com o projeto Piraí Digital levando internet às praças, escolas e corações de quem gosta de misturar tradição e modernidade. Piraí é uma cidade que mexe com expectativas e mostra como o interior fluminense pode ser surpreendente.

Sede da Prefeitura de Piraí | Crédito: Reprodução

Qual a origem de Piraí?

Piraí teve sua origem no contexto do ciclo do café, como os outros municípios da região, graças ao povoado que cresceu ao redor da pequena capela de Sant’Ana do Piraí erguida por volta de 1772. O nome é derivado do tupi, significando basicamente “rio dos peixes”.

Esse povoado progrediu, virou freguesia em 1817 com o nome de Sant’Ana do Piraí, mais tarde elevado à vila em 1837, e finalmente adquiriu o status de cidade em 1874.

Onde ficava a capela foi erguida uma paróquia em 1817 e, finalmente, em 1841, a Igreja Matriz de Sant’ana, um dos mais famosos pontos turísticos da cidade.

Ela chama a atenção pela pintura da escadaria que parece um tapete vermelho recebendo com todas as honras os fiéis para a contemplação.

A praça da preguiça

É impossível não gostar de um lugar que tenha uma Praça da Preguiça. A praça originalmente era um brejo que foi aterrado no início da história da cidade para evitar mau cheiro e criar espaço útil e urbano.

Depois de aterrado, o local tornou-se jardim municipal, com direito a chafariz, preservação de flora ornamental e plantações de árvores, que acabaram atraindo os fofos mamíferos que terminaram batizando a praça.

Quem não tem mar, vai de rio

A Avenida Beira Rio está localizada no centro da cidade, margeando o rio que dá nome ao município e é, assim como toda rua de qualquer tipo de orla, o melhor lugar para ver e ser visto passeando em dias de sol ou noites de verão entre seus Caramanchões floridos à beira do rio Piraí.

De um lado, há comércios de pequeno e médio porte e, do outro, a vista do rio e da vegetação de margens. É uma das áreas mais antigas do núcleo urbano, representando a ocupação linear que se formou ao longo do curso d’água, comum nas cidades do rio de Janeiro do século XIX.

Avenida Beira Rio margeia o Rio Piraí e é um dos cartões postais da cidade | Crédito: Reprodução

A Suíça é aqui

Não é exagero. O Rio Piraí nasce em Rio Claro e atravessa toda a cidade até desembocar no Rio Paraíba do Sul. E durante seu percurso foram se formando lagos e lagoas como o Lago do Caiçara, um espetáculo da natureza e do urbanismo.

O Lago do Caiçara é um dos principais atrativos naturais de Piraí, oferecendo visual agradável, ar de natureza, espaço para piqueniques e momentos de lazer ao ar livre, e dá até para dar aquele tchibum. Aqui a regra é clara: proibido som alto. E tem até placa da Prefeitura deixando isso bem claro.

Lago do Caiçara: espetáculo da natureza e do urbanismo | Crédito: Reprodução

A Capital da Macadâmia

Piraí foi pioneira no Brasil e é um dos principais polos de cultivo no estado do Rio de Janeiro, com fazendas dedicadas à produção e beneficiamento da noz macadâmia.

Originária da Austrália, a macadâmia é uma noz comestível, conhecida pelo sabor amanteigado e textura crocante. É muito usada em doces, sobremesas, em manteigas e farinhas gourmetizadas e até na indústria de cosméticos, devido ao seu óleo suave.

Para dar uma ideia do porte da coisa, só a Fazenda Santa Marta, a primeira a cultivar macadâmia desde 1982, hoje beneficiar até 2.000 toneladas de nozes por safra.

Piraí foi pioneira no cultivo da noz de macadâmia | Crédito: Reprodução

Uma noz que virou festival

Em Piraí, a macadâmia ganhou status de símbolo local e ganhou até uma festa própria: o “Festival da Tilápia e Macadâmia”, combinação que virou o prato típico do município.

Ele é realizado em outubro, mês do aniversário da cidade, destinado a destacar a identidade local por meio da gastronomia, cultura, arte e turismo.

A ideia é estimular o uso criativo da tilápia e da macadâmia em pratos salgados, sobremesas, petiscos, sempre exigindo que essas iguarias façam parte das receitas dos chefs e restaurantes participantes.

A Casa de Câmara e Cadeia

Para quem ama arquitetura e história, a Prefeitura de Piraí é um dos mais bem preservados exemplos das Casas de Câmara e Cadeia, como eram chamadas as sedes administrativas nas colônias portuguesas.

Elas geralmente tinham dois andares. Embaixo ficava a cadeia e, em cima, a Câmara e a administração municipal. O povo, de gozação, dizia que eram construídas assim porque era comum alguém do “andar de baixo” subir para o “andar de cima” ou vice-versa. A expressão foi repopularizada pelo jornalista Elio Gaspari.

Em 24 de março de 1837 assinou-se termo de obrigação de cidadãos abastados para construir o prédio, com prazo de dois anos para conclusão. O edifício foi inaugurado em 11 de novembro de 1838, e ali funcionou a Câmara Municipal até cerca de 1960, quando o órgão mudou para outro prédio mais moderno.

A cidade do interior que acendeu a capital

No início do século XX a Guanabara vivia a Bélle Époque carioca. Musicais, teatros, toda uma cena efervescente que tinha um problema: falta de energia elétrica. Muitos espaços funcionavam com geradores e era preciso encontrar uma solução mais barata.

A solução foi a construção do hoje chamado Complexo Hidrelétrico de Lajes cuja missão era acender a capital da Jovem República Brasileira, que sonhava em ser a Paris dos Trópicos. Em 1908 a usina de Fontes Velha entrou em operação resolveu o problema.

Com o passar dos anos, foram surgindo novas tecnologias, reservatórios e usinas como Fontes Nova, Nilo Peçanha ou Pereira Passos. E hoje ele fornece energia para 11 milhões de pessoas em 31 municípios do estado.

O lar da maior vedete do Brasil

Piraí possui ainda uma Casa de Cultura instalada num prédio que serviu como delegacia de polícia até 2003, foi transformado em casa de cultura pela prefeitura em 2005, e repaginado em 2022. O acervo possui uma exposição permanente simples que conta a história do município de forma visual e narrativa.

Mas o destaque é a exposição permanente em homenagem a uma das mais famosas moradoras de Piraí, Virgínia Lane, que viveu no bairro ao redor do Lago de Caiçara até o final de sua vida.

Para os mais jovens, ou quem não ligou o nome à pessoa, Virginia Lane foi uma das maiores vedetes do Brasil, com uma carreira que incluiu teatro, cinema e televisão. Ela recebeu o título de “A Vedete do Brasil” das mãos de Getúlio Vargas, com quem, dizem, ela manteve um longo e secreto romance.

Parte da paisagem na Lagoa do Caiçara | Crédito: Reprodução

Nem tudo, porém, são doces de macadâmia

Em 12 de outubro de 1936, no km 226 da Rodovia Presidente Dutra foi construído um imponente monumento cujo objetivo era simbolizar o início da “Era Rodoviária” no Brasil.

Chamado Monumento Rodoviário Belvedere (ou Monumento da Serra das Araras), é uma impressionante torre em estilo art-déco, no meio da mata do topo da Serra das Araras, que possui uma torre de 46 metros de altura, com um farol aéreo no topo, que tem alcance de 40 km. Equivale a um edifício de aproximadamente 15 andares.

Mas em 1978 o complexo foi desativado e fechado para o público. O MP Federal moveu ação civil pública para que a União, NovaDutra, DNIT, Iphan e Inepac garantam a restauração, recuperação e manutenção do Monumento Belvedere. 

Mas até hoje não há cheiro de obra, ou previsão de reabertura integral ao público.

O que mais tem para fazer por lá?

A cidade é o endereço de um dos maiores eventos culturais e gastronômicos do interior do estado, o Piraí Fest, que, este ano, em outubro, chega à sua 20ª edição.

O Piraí Fest é mais do que um simples evento; ele representa uma verdadeira vitrine para os talentos locais, promovendo o desenvolvimento econômico e fortalecendo o turismo regional. Além disso, o festival valoriza os artistas e empreendedores locais, oferecendo oportunidades para que se apresentem e compartilhem sua arte com o público.

Há desde festas religiosas ligadas à Igreja Matriz de Sant’Ana, à popular Festa do Trabalhador, que ocupa o Gramadão de Santanésia todo primeiro de maio.

Também há manifestações culturais como o jongo no belíssimo Casarão Cultural da Fazenda de Arrozal, que preserva tradições afro-brasileiras.  Visitas guiadas pela Fazenda São João da Prosperidade, erguida no começo do século XIX, ou tirar um tempo para fazer uma selfie esperta na Ponte Raymundo Osório Rodrigues, toda construída em aço.

Igreja da Matriz de Sant’Ana recebe festas religiosas no município | Crédito: Reprodução

A cidade que olha para o futuro

Em 2004 ninguém acreditou quando Piraí anunciou que estava oferecendo internet wireless em praças, prédios públicos e todas as escolas das zonas urbana e rural.

Era o começo do projeto Piraí Digital que visa democratizar o acesso à informação e à tecnologia, promovendo o desenvolvimento social, educacional e econômico da região. Em 2007, em uma nova etapa, mais de 400 crianças da rede municipal receberam laptops para promover a inclusão digital.

O projeto chamou atenção de um certo Gilberto Gil, que compôs a canção “Banda larga Cordel”, que cita Piraí e o projeto: “Piraí, Piraí, Piraí/Piraí bandalargou-se um pouquinho/Piraí infoviabilizou/Os ares do município inteirinho/Com certeza a medida provocou/Um certo vento de redemoinho”.

Qual a melhor época para visitar?

Bom, para evitar intempéries, chuvas fortes ou enchentes, o período mais seco, entre agosto e novembro, costuma ser melhor. Mas sem dúvida os melhores períodos são quando são realizados eventos como os festivais gastronômicos ou religiosos.

Como chegar?

Partindo da Guanabara são cerca de 150 km, o que dá uma viagem de carro em torno de duas horas e meia. De ônibus a saídas diárias com passagens a partir de R$ 40.

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