PF realiza nova fase da operação que apura fraudes no INSS e cumpre 66 mandados de busca e apreensão

Esquema teria desviado até R$ 6,3 bilhões de aposentadorias e pensões entre 2019 e 2024

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (9), uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga um vasto esquema de descontos indevidos aplicados a aposentadorias e benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A ofensiva cumpre 66 mandados de busca e apreensão, a maioria no estado de São Paulo, e tem como alvo principal um grupo suspeito de desviar bilhões de reais de beneficiários da Previdência Social.

Segundo as investigações, o esquema envolvia associações e entidades que cadastravam aposentados sem autorização, com o uso de assinaturas falsas, para promover descontos automáticos de mensalidades em contracheques pagos pelo INSS. O prejuízo estimado é de até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

Novas buscas após prisões em setembro

A ação desta quinta dá continuidade à primeira fase da Operação Sem Desconto, deflagrada em 12 de setembro, quando a Polícia Federal prendeu o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes — conhecido como “Careca do INSS” — e o empresário Maurício Camisotti. Ambos são apontados como articuladores de um esquema de corrupção e desvio de recursos da Previdência.

Na ocasião, os agentes apreenderam esculturas eróticas, quadros, armas e carros de luxo. Segundo a PF, Antunes funcionava como “facilitador” do grupo junto a servidores do INSS. As investigações indicam que ele teria transferido R$ 9,3 milhões para pessoas ligadas a funcionários do instituto entre 2023 e 2024.

Antunes foi levado para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Por telefone, sua defesa afirmou à TV Globo que “buscaria a liberdade do seu cliente”.

Já o empresário Maurício Camisotti, preso em São Paulo, é apontado como sócio oculto de uma das entidades envolvidas nas fraudes. Em nota, a defesa do empresário declarou que não há “qualquer motivo que justifique sua prisão no âmbito da operação relacionada à investigação de fraudes no INSS”.

Mandados e apreensões de luxo

Nesta nova etapa, os agentes cumprem dois mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal. As ordens foram expedidas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça.

Durante as diligências, a Polícia Federal apreendeu diversos veículos de alto padrão, incluindo uma Ferrari, uma Land Rover, um Porsche, uma Mercedes e até um carro de Fórmula 1. Os bens seriam fruto do enriquecimento ilícito obtido com o esquema de descontos fraudulentos.

A PF também realizou buscas na residência e no escritório do advogado Nelson Wilians, na capital paulista, onde foram encontradas várias obras de arte. Em nota, a defesa informou que o advogado “tem colaborado integralmente com as autoridades e confia que a apuração demonstrará sua total inocência”.

Como funcionava o esquema

De acordo com a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU), as fraudes envolviam o pagamento de propina a servidores públicos e o uso de associações de fachada para capturar dados sigilosos de beneficiários do INSS.

As entidades investigadas:

  • ofereciam propina a servidores para obter informações de aposentados e pensionistas;
  • utilizavam assinaturas falsificadas para autorizar descontos mensais;
  • criavam associações fictícias, muitas vezes presididas por idosos ou pessoas de baixa renda, para dar aparência de legalidade às operações.

Os aposentados eram cadastrados sem autorização e passavam a sofrer descontos automáticos em seus benefícios, frequentemente sem sequer saber que haviam sido “associados” a alguma entidade. Em vários casos, a mesma pessoa foi filiada a mais de uma associação no mesmo dia, com fichas contendo erros de grafia idênticos — evidência clara de fraude, segundo os investigadores.

Da CGU à PF: a origem da investigação

A apuração teve início em 2023, dentro da Controladoria-Geral da União, que detectou indícios administrativos de irregularidades em associações conveniadas ao INSS. Após a confirmação de movimentações financeiras suspeitas, o caso foi encaminhado à Polícia Federal em 2024, que passou a conduzir as investigações criminais.

A Operação Sem Desconto segue em andamento, e a PF afirma que novas fases poderão ser deflagradas nas próximas semanas para aprofundar as apurações sobre a participação de servidores e empresários no desvio de recursos da Previdência.

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