Pesquisadora reconhece falhas em estudo sobre polilaminina para lesão medular e anuncia revisão

Artigo com resultados iniciais em humanos foi divulgado como pré-print e passará por correções antes de nova tentativa de publicação científica

A professora Tatiana Sampaio, responsável por uma pesquisa que investiga o uso da polilaminina como possível tratamento para lesões na medula espinhal, afirmou que o artigo com os primeiros resultados em humanos apresenta falhas e passará por revisão. O estudo foi divulgado inicialmente em formato de pré-print, versão que ainda não passou pela avaliação de outros pesquisadores.

Segundo a pesquisadora, o material foi colocado na internet em 2024 principalmente para registrar a autoria da pesquisa, sem expectativa de grande repercussão. Ela reconheceu que o texto precisa ser melhor estruturado e que algumas informações foram apresentadas de forma inadequada.

O estudo descreve os primeiros testes da substância em pacientes com lesão medular, mas os resultados ainda são considerados preliminares e não permitem conclusões definitivas sobre a eficácia do tratamento.

Falhas identificadas no pré-print

Um dos pontos que será revisado envolve um gráfico que apresenta a evolução clínica de um paciente. No material divulgado, o gráfico indica acompanhamento por quase 400 dias, enquanto o texto descreve que o paciente morreu cinco dias após o tratamento.

A pesquisadora explicou que o gráfico se refere a outro paciente que sobreviveu e foi acompanhado durante o período. Segundo ela, o problema ocorreu por erro de digitação.

Outras correções também devem ocorrer em imagens de exames de eletromiografia incluídas no estudo. Esses exames avaliam o funcionamento de músculos e nervos responsáveis pelos movimentos do corpo. De acordo com a autora, as figuras foram inseridas com dados brutos e não destacavam de forma clara possíveis alterações clínicas.

Revisão do artigo científico

Tatiana afirmou que a principal mudança será uma revisão geral da redação do texto, com o objetivo de esclarecer melhor alguns trechos da pesquisa.

Outra alteração prevista é a inclusão de uma análise que separa os pacientes de acordo com o tipo de lesão medular. A pesquisadora informou que, entre quatro pacientes com lesões torácicas, a taxa de recuperação espontânea descrita na literatura é próxima de 1%.

A nova versão do estudo só será divulgada após eventual aceitação por uma revista científica. Uma primeira versão corrigida já foi apresentada a duas publicações internacionais, mas ambas rejeitaram o trabalho.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma substância derivada da laminina, proteína presente em grande quantidade durante o desenvolvimento embrionário e obtida a partir de placentas. Essa proteína participa da formação de estruturas que ajudam na comunicação entre neurônios.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiram reproduzir em laboratório uma rede semelhante à estrutura natural da laminina. A proposta é aplicar essa substância na região lesionada da medula para estimular a reconexão entre neurônios.

No tratamento proposto, a substância funcionaria como uma espécie de suporte biológico para favorecer a recuperação de movimentos. A aplicação é feita durante cirurgia de descompressão da coluna, idealmente até 72 horas após o trauma.

Resultados preliminares

Um estudo acadêmico conduzido pela equipe avaliou oito pacientes com lesões medulares classificadas como completas. Segundo a pesquisadora, cinco deles apresentaram algum grau de recuperação de função motora.

Ela afirmou que a literatura médica indica que cerca de 10% dos pacientes com esse tipo de lesão podem recuperar algum movimento espontaneamente.

Apesar dos relatos de melhora de mobilidade, especialistas destacam que ainda não é possível atribuir os resultados diretamente à polilaminina. Pacientes submetidos ao tratamento também realizam reabilitação intensiva, o que pode influenciar na recuperação.

Limitações da pesquisa

Os estudos realizados até agora envolvem um número reduzido de pacientes e tempo limitado de acompanhamento. Um novo estudo clínico de fase 1 foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em janeiro.

Essa etapa inicial da pesquisa terá cinco voluntários e tem como principal objetivo avaliar a segurança da substância, não sua eficácia.

Especialistas apontam que fases posteriores de pesquisa serão necessárias para analisar doses adequadas, efeitos adversos e possíveis benefícios em grupos maiores de pacientes.

Orientação de especialistas

Entidades médicas recomendam cautela na interpretação dos resultados. A Academia Brasileira de Neurologia informou que ainda não existem publicações científicas que comprovem a segurança e a efetividade da polilaminina em seres humanos.

O uso da substância atualmente só é permitido em estudos clínicos aprovados por comitês de ética ou em situações autorizadas por decisão judicial.

O laboratório responsável pela produção da polilaminina também alertou para possíveis golpes envolvendo a oferta da substância fora de protocolos oficiais de pesquisa. Atualmente, o produto não está disponível para venda.

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