O Primeiro Comando da Capital (PCC) comprou ou montou 78 hotéis e hospedarias, 26 das quais clandestinas, no centro de São Paulo, para abastecer e manter o tráfico de drogas na região. Assim, a facção expandiu as ramificações da Cracolândia até as proximidades das praças Marechal Deodoro, Princesa Isabel e dos Largos do Arouche e do Paissandu, passando por endereços das Avenidas São João e Duque de Caxias.
Essa é uma das principais conclusões da apuração da 4.ª Delegacia da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes (DISE), do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), que levaram à deflagração nesta quinta-feira, 13, da segunda fase da Operação Downtown. Ao todo, foram cumpridos 124 mandados de busca e apreensão em endereços da região. A Justiça concedeu a interdição de 26 hospedarias clandestinas – cada uma avaliada em R$ 200 mil – e o bloqueio dos valores encontrados em 28 contas bancárias. Quinze acusados de participação no esquema foram presos – cinco eram foragidos da Justiça –, 38 celulares apreendidos, além de 30 quilos de cocaína, crack e skank, além de R$ 27,5 mil em dinheiro
“O tráfico de drogas no centro histórico da capital só se sustenta em grande escala através do uso de hospedarias. Elas são fundamentais para o esquema”, afirmou o delegado Fernando José Santiago, responsável pelas investigações. O inquérito mostrou como as compras dos imóveis foram feitas antes e de acordo com a migração da Cracolândia, que ocupou nove diferentes endereços na região em 2022. Vários imóveis foram colocados em nome de porteiros, ajudantes gerais e até de usuários de drogas, os laranjas que seriam usados pelo PCC para dissimular a construção da rede de hotelaria.
Esse seria o caso de Genário José de Oliveira, que é porteiro do Hotel dos Andradas e figura como dono de uma hospedaria no Largo General Osório, bem como de Ednilson Lopes dos Santos, que aparece na investigação como proprietário de outro Hotel, o Tupy, mas trabalha como porteiro do Hotel Curitiba. “O que reforça ainda mais os indícios de um esquema de lavagem de capitais envolvendo várias hospedarias do centro histórico de São Paulo”, disse o delegado Santiago.
A importância dos investimentos nas hospedarias e hotéis pode ser demonstrada pelo papel desempenhado pela Cracolândia no tráfico de drogas local gerenciado pelo PCC. De janeiro a junho de 2023, apenas quatro bairros da capital paulista que concentram a rede de hotéis da facção – República, Sé, Santa Cecília e Santa Ifigênia – foram responsáveis por cerca de um terço de toda apreensão de crack no Município (423.712 pedras), o que corresponde a 11% do crack recolhido pela polícia em todo Estado.
Em todas as hospedarias e hotéis investigados, a polícia registrou denúncias de tráfico de drogas ou de prostituição. Os traficantes de drogas delimitariam até mesmo o espaço na rua ocupado pelos usuários de entorpecentes e os lugares de cada barraca para a venda da droga. Ao todo, 600 policiais civis de diversos departamento e guardas civis metropolitanos foram convocados para participar da operação. O delegado-geral, Artur Dian, afirmou que a operação envolveu uma “investigação bastante complexa”.
O plano de migração da Cracolândia
De acordo com o delegado Santiago, a política da Prefeitura de emparedamento de hospedarias – fechamento com construção de barreira de tijolos na fachada para vedar a entrada no prédio – na antiga Cracolândia, no segundo semestre de 2021, foi o gatilho que determinou a migração do fluxo no ano seguinte. Isso permitiu à polícia demonstrar o controle exercido pelo crime organizado nessa ação. E levou os investigadores a um dos principais alvos da operação de hoje: os estabelecimentos controlados por Marcelo Carames, de 45 anos, apontado como o gerente do tráfico de drogas do PCC na região.
Carames teria idealizado o esquema por trás da migração da Cracolândia. Ele era dono de hospedarias na Alameda Dino Bueno e no Largo Coração de Jesus, que foram emparedadas pela Prefeitura no dia 21 de outubro de 2021. O fluxo se concentrara ali durante uma década.
O comerciante adquiriu, em dezembro daquele ano, duas novas hospedarias na Avenida Duque de Caxias, próximo da Praça Princesa Isabel, para onde o fluxo seria transportado pelo PCC no dia 19 de março de 2022. Sob ameaça da facção, Thiago Campos, o proprietário de uma delas, teve de repassar o imóvel ao PCC.
Não parou aí. Segundo a investigação, enquanto o fluxo de usuários peregrinava pelo centro histórico de São Paulo, Carames comprou uma nova hospedaria, a Pensão Paraíso, na esquina entre as ruas dos Gusmões e do Triunfo, a uma quadra da Rua das Protestantes, em 3 de junho de 2022. No dia 29 daquele mês, o fluxo se mudou para ali, estabilizando-se nessa área até hoje. Em 20 de março de 2023, o acusado comprou o Hotel Tupy, na Rua dos Gusmões.
“Carames por duas vezes se antecipou dias antes à migração dos dependentes químicos, estabelecendo hospedarias nos exatos locais para onde o ‘fluxo’ iria se fixar dias depois, o que deixa claro o envolvimento dele com a migração dos usuários de drogas no centro histórico”, afirmou o delegado Santiago.
Outro que comprou imóveis na região antes da migração da Cracolândia para a área atual é João Caboclo do Nascimento. Ele tinha um bar e hospedaria no Largo Coração de Jesus com a Alameda Dino Bueno e agora está instalado na Alameda Barão de Piracicaba. No mesmo tempo, comprou um bar e uma hospedaria na Avenida Duque de Caxias, perto da Praça Princesa Isabel, onde o PCC instalara o fluxo em 2022.
Caboclo acabou detido em um apartamento na Praça Júlio Preste pelos policiais do Denarc. “O PCC é quem determina qual de seus membros será o administrador das hospedarias clandestinas”, escreveu Santiago. Sem elas, não haveria como manter a logística de distribuição de drogas em toda a região.
Exemplo do poder da facção na região seria a rotina da concentração de usuários. O fluxo permanece na Rua dos Protestantes durante o horário do funcionamento do comércio da região da Santa Ifigênia. “Encerradas as atividades das lojas comerciais, os dependentes químicos passam a circular pela Rua dos Gusmões, onde parte do grupo se aglomerar no cruzamento com a Rua dos Andrades, que é a paralela imediata sul da Rua do Triunfo, enquanto a Rua dos Protestantes é a paralela imediata ao norte”, relatou o delegado do Denarc.
Ali são montadas as barracas de venda da feira das drogas, que funciona até o amanhecer do dia, quando são recolhidas. A ida do fluxo para as ruas do Triunfo, dos Gusmões e dos Protestantes causou severo impacto no comércio da região, aumentando furtos e roubos, o que amedronta os consumidores na mais tradicional região de comércio de eletrônicos da cidade: a Santa Ifigênia. Comerciantes tiveram lojas saqueadas, motoristas foram cercados e saqueados por hordas de usuários de drogas.
Com informações do jornal Estado de São Paulo, mais informações no link https://www.estadao.com.br/politica/operacao-mira-rede-de-78-hoteis-e-hospedarias-do-pcc-no-centro-de-sao-paulo/





