No dia 9 de março de 1500, uma frota de 13 navios zarpou do Tejo sob o comando de um fidalgo de 33 anos, enviado pelo rei Dom Manuel I para repetir o feito de Vasco da Gama e firmar negócios na Índia. Quarenta e quatro dias depois, com ventos e correntes que insistiram em empurrar a armada bem mais para oeste do que o planejado, o comandante aportou em terra firme — e, como diriam mais tarde os livros didáticos, “descobriu” o Brasil. Acontece que, para o próprio Capitão-Mor, aquela paragem involuntária era apenas um contratempo exótico no caminho das especiarias. E, para a posteridade, foi o começo de uma longa carreira ao esquecimento, interrompida somente três séculos depois pela curiosidade de um imperador brasileiro. 

Foi assim, com a ironia que só um achado sem procura pode ter, que nasceu uma das figuras mais paradoxais da história lusitana. Pois, se o “descobrimento” do Brasil entrou para os anais como um dos maiores feitos da expansão marítima europeia, o seu protagonista passou os 300 anos seguintes numa penumbra tão espessa quanto a mata que avistara na Bahia. Enquanto isso, um colega de navegação, Vasco da Gama, colecionava títulos, honrarias e uma biografia repleta de hinos; Pedro Álvares vivia um apagão póstumo que beirava a ingratidão. E tudo teria continuado assim se Dom Pedro II não decidisse, já na segunda metade do século XIX, vasculhar papéis e reabilitar a memória do navegador que o Brasil e Portugal pareciam ter esquecido. 

Mas a trajetória de Pedro Álvares de Gouveia, que você já sacou que é o Cabral, é feita de enigmas que desafiam a própria biografia: não há um único retrato seu feito em vida; seu nome de batismo era outro; sua estatura impressionante e sua voracidade vaidosa são lendas que o tempo tratou de embelezar (ou deturpar); seu casamento o ligou a uma das famílias mais poderosas do reino; sua passagem pela Índia acabou em guerra; e seu retorno a Portugal foi tão inglório que o levou a um ostracismo raramente visto na corte. Eis a história de Pedro Álvares Cabral contada entre mitos, lacunas e uma verdade inegável: nenhuma nação gosta de erguer estátuas a quem morreu sem glória. 

Que história é essa de Pedro Álvares de Gouveia? 

Como todo mundo sabe, vale o escrito. O navegador que “achou” o Brasil, de fato, foi batizado como Pedro Álvares de Gouveia e com esse nome ele comandou a famosa frota de 13 navios a caminho da Índia e, no caminho, brotou em Porto Seguro (BA). 

Ele só adotou o sobrenome Cabral em 1503, dois anos após sua controversa viagem, quando morreu seu irmão mais velho, e, dizem as más línguas, só o fez para herdar os bens da família paterna. Essa mudança de nomenclatura, embora comum na época, adiciona uma camada extra de sobrenatural sobre sua identidade. 

Porque de acordo com uma tradição familiar, baseada em ninguém sabe de onde veio, os Cabrais eram descendentes de Carano, o lendário primeiro rei da Macedônia. Carano era, por sua vez, um suposto descendente de sétima geração do semideus greco-romano Hércules. Sim: a família do descobridor do Brasil afirmava descender de ninguém menos do que um filho do próprio Júpiter. Não é mole não. 

Mitos à parte, o historiador australiano James McClymont, que em 1914 publicou um dos mais completos estudos sobre a viagem Cabral, acredita que outro conto familiar pode conter pistas para a origem da família. Segundo essa tradição, os Cabrais derivam de um clã castelhano chamado Cabreiras. Ou seja: a versão mais prosaica sugere que a família veio de pastores de cabras de Castela, não de heróis olimpianos. As duas possibilidades continuam em aberto, mas a segunda tem bem mais documentação e bem menos Hércules na parada. 

Por que nenhum retrato de Cabral é confiável? 

Essa é uma das partes mais divertidas da história. Não há nenhuma imagem ou descrição física detalhada dele contemporânea à sua época. Zero. Nenhum retrato feito em vida, nenhum esboço de época, nenhuma descrição minuciosa deixada por quem o conheceu de perto. O que existe são representações produzidas séculos após sua morte, baseadas em convenções artísticas e, provavelmente, numa boa dose de imaginação criativa. 

Os retratos que o mundo conhece foram elaborados muito depois de sua morte, quando o interesse em Cabral foi reavivado no século XIX. A figura do explorador de rosto altivo, barba bem cuidada e olhar determinado que aparece nas imagens mais difundidas é, em grande medida, uma construção póstuma, um rosto inventado para um herói que precisava ter uma face. 

Porque corpo sabe-se que ele tinha. E era extraordinário. Numa era em que a altura média dos portugueses mal ultrapassava 1,65 m, nossa capitão-mor destacava-se de forma clara com o seu 1,90 m, o que a gente pode dizer que é alto até para os dias atuais. 

Esse traço foi herdado de seu pai, Fernão Cabral, um fidalgo de Belmonte famoso pela estatura descomunal, e que os registros de época só divergem é se ele era melhor trovador, galanteador ou homem de armas. 

Mas o que se sabe comprovadamente sobre Pedro Álvares Cabral? 

O pouco que se sabe com certeza sobre ele reza sobre sua personalidade. Relata-se um homem vaidoso e consciente de sua linhagem nobre, o que era, para ser justo, um pré-requisito quase obrigatório para os fidalgos do século XVI. A vaidade, porém, não parece ter sido o motor de suas ações, mas sim a necessidade de manter o status diante de uma corte onde o erro era punido com o ostracismo e o sucesso era raramente celebrado sem inveja. 

A lista de suas qualidades faria bonito em qualquer currículo contemporâneo até chegar à parte do “vaidoso”, que para alguns historiadores é nota de rodapé e que, para outros, explica boa parte das decisões que levaram ao fim de sua carreira. 

Das 13 nuas da frota de Cabral, apenas sete voltaram e apenas com um terço dos homens

Como assim? 

É que muita gente não gosta de lembrar disso, mas fora o “achamento” do Brasil, a viagem do capitão-mor Pedro Álvares de Gouveia (mais tarde Cabral) é até hoje motivo de controvérsias sérias. Mas a descrição mais amena que circulou na época foi “decepcionante”. 

Cabral saiu de Portugal com uma frota de 13 navios e 1.500 homens. Quando enfim chegou a Calicute, ele inicialmente até teve sucesso na negociação dos direitos de comercialização das especiarias, mas os comerciantes árabes consideraram o negócio português como uma ameaça ao monopólio deles e promoveram um ataque de muçulmanos e hindus ao entreposto português.  

Cabral vingou-se do ataque saqueando e queimando a frota árabe e, em seguida, bombardeou a cidade. O episódio foi devastador e decisivo. Só quando Cabral estabeleceu uma feitoria em Cochim, no sul da Índia, é que a rota se tornou lucrativa. Tais façanhas, no entanto, não comoveram o rei. Cabral foi o responsável por tornar a rota comercial com as Índias efetivamente rentável para Portugal, mas foi exatamente ele quem ficou de fora quando vieram os louros. 

Quando Cabral aportou em Lisboa em 1501, trazia especiarias valiosas, sim, mas também uma lista de fracassos diplomáticos e perdas humanas impressionantes: apenas sete dos 13 navios originais retornaram; Bartolomeu Dias, o famoso navegador que contornou o Cabo da Boa Esperança, perdeu-se num naufrágio; apenas 500 homens doentes de escorbuto voltaram e as relações com Calicute estavam em frangalhos. 

Por seus feitos, Cabral recebeu do rei uma pensão anual de 30 mil reais, muito menos do que os 400 mil reais dados em 1498 a Vasco da Gama por ter chegado na Índia. Treze vezes menos. Não houve grande cerimônia de estado. Não houve título nobiliárquico. Nem houve Camões.

Calicute, a cidade que Cabral bombardeou na ìndia

Um suicídio político 

Após a chegada de Cabral a Portugal, o rei D. Manuel decidiu organizar uma nova armada para retornar à Calicute e enfrentar os muçulmanos. Embora tenha sido convidado a participar da expedição, Cabral recusou, pois teria o cargo de subcomandante de seu rival, Vasco da Gama. 

Diante da recusa, o rei tratou de minimizar a participação de Cabral na descoberta do Brasil (considerando-a, publicamente, como um mero incidente de percurso) e transferiu o comando das futuras armadas para Vasco da Gama. Cabral nunca mais comandou nada além de um barquinho de pesca e nunca mais recebeu missões. O rei havia escolhido seu herói, e Cabral não era ele. 

O primeiro resgate 

Apesar da perda dos favores do rei, Cabral conseguiu um vantajoso casamento em 1503 com D. Isabel de Castro, uma nobre mulher rica e descendente do rei D. Fernando I. Sua mãe era irmã de Afonso de Albuquerque, um dos maiores líderes militares de Portugal durante a Era dos Descobrimentos. Num único matrimônio, Cabral conectou-se à linhagem real portuguesa e ao homem que seria o maior conquistador do Oriente. O casamento foi praticamente uma operação de salvamento político patrocinada pelo próprio Afonso de Albuquerque. 

Chamado “O Grande”, “César do Oriente” e “Leão dos Mares”, Albuquerque era exatamente o macaco da bola azul do seu tempo. É considerado por muitos historiadores o maior gênio militar de sua era, e “provavelmente o maior comandante naval do período”, dada sua estratégia bem-sucedida de fechar todas as passagens navais do Oceano Índico ao Atlântico, ao Mar Vermelho, ao Golfo Pérsico e ao Pacífico. 

Dom Afonso de Albuquerque:  o maior gênio militar de sua era

Então ele terminou a vida numa boa? 

Depende muito do que você entende por isso. Cabral morreu possivelmente em 1520, aos 52 anos, talvez em consequência da malária contraída na África, sem que tenha realizado qualquer coisa digna de registro nas últimas duas décadas de vida. Duas décadas de silêncio.

O descobridor que “achou” o Brasil viveu até o fim da vida cuidando de propriedades em Santarém com a esposa Isabel, tendo filhos e envelhecendo longe da corte. Nenhum cargo, nenhuma missão, nenhum reconhecimento.  

O segundo resgate, agora pelas mãos do imperador 

O interesse em Cabral ressurgiu com a descoberta de seu túmulo, em 1839, pelo historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen (mais tarde nomeado Visconde de Porto Seguro), que pesquisava documentos em arquivos portugueses e localizou o jazigo na Igreja da Graça, em Santarém. Uma descoberta extraordinária, pois ninguém sabia ao certo onde ele estava enterrado havia quase três séculos.  

Mas a reabilitação da memória de Cabral só começou a tomar tração graças ao imperador Dom Pedro II, um erudito apaixonado por História que, já na segunda metade do século XIX, passou a estudar mais a fundo os documentos da época do “achamento” do Brasil. 

O estado completamente negligenciado em que o túmulo de Cabral fora encontrado quase provocou uma crise familiar-diplomática entre o Brasil e Portugal, que era governado pela irmã mais velha de Dom Pedro II, Maria II. Um sepulcro em ruínas para o homem que fundou o maior país lusófono do mundo   

Em 1871, o monarca deu início a uma campanha nacionalista para resgatar o navegador do limbo, criando inclusive o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E aqui entra a velha história, o mundo não dá voltas, ele capota. Tudo fazia parte de um ambicioso plano do Imperador para incentivar e reforçar um sentimento de nacionalismo entre a diversificada sociedade brasileira, dando aos cidadãos uma identidade e história comuns como residentes do único país de língua portuguesa das Américas.  

Em bom português: Cabral foi ressuscitado por encomenda política. 

Igreja da Graça, em Santarém, Portugal (Crédito: Reprodução)

Ele continua enterrado em Portugal? 

Em tese, sim. O túmulo principal de Pedro Álvares Cabral está na Igreja da Graça, em Santarém, onde foi recolocado após uma confusão dos ossos no século XIX.  Quando se abriu o túmulo, anos depois, encontraram-se ossos de várias pessoas misturadas, alegações de violação durante as invasões francesas e uma confusão que até hoje impede os cientistas de afirmar, com certeza, quais ossos pertencem a Cabral. 

No entanto, a história tem reviravoltas de fazer inveja a um romance policial: uma parte das ossadas foi enviada ao Brasil, a pedido de Dom Pedro II, para ser depositada na então Catedral do Rio de Janeiro. Com isso, Cabral passou a estar, de certa forma, em dois países ao mesmo tempo. Mas confusão não para aí. 

Em 1961, a Igreja de São Tiago, em Belmonte, cidade natal de Cabral, recebeu uma urna com ossadas que seriam “a verdadeira ossada” do navegador. Ou seja, além do túmulo principal em Santarém e da parte levada ao Brasil, há agora uma terceira reivindicação em Belmonte. A pergunta “onde está enterrado Pedro Álvares Cabral?” tornou-se uma questão quase filosófica: afinal, o homem que passou a vida inteira sendo ignorado descobriu que, em morte, podia estar em vários lugares ao mesmo tempo.  

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