Pais de estudante morto por PM em SP vão à ONU denunciar gestão Tarcísio

Peruanos naturalizados brasileiros, médicos levarão caso do filho à Suíça com acusações de homicídio, racismo e omissão do governo estadual

Os pais do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, morto por um policial militar em novembro de 2023, anunciaram que levarão o caso à Organização das Nações Unidas (ONU). A denúncia será apresentada durante a 59ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos, que acontece entre os dias 16 de junho e 9 de julho, em Genebra, na Suíça. As informações são da coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo.

Julio Cesar Acosta Navarro, médico cardiologista e professor da USP, e Silvia Mônica Cardenas Prado, médica intensivista, pretendem responsabilizar o governo paulista, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), por omissão e conivência com a violência policial.

“Iremos fazer denúncias por homicídio qualificado, racismo, xenofobia, tortura, associação criminosa. Uma constelação de crimes contra meu filho”, declarou Julio.

Em referência a uma fala anterior do governador, que afirmou que os críticos poderiam recorrer “à ONU, à Liga da Justiça”, Julio respondeu: “O último curso para apelar é à ONU, como o Tarcísio já disse de uma forma muito insensível. Podem ir à ONU, na Liga da Justiça. Estou abrindo mão do meu trabalho para reivindicar justiça pelo meu filho.”

O jovem foi morto a tiros por policiais militares dentro de um hotel na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. A ação foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes. O disparo foi feito pelo soldado Guilherme Augusto Macedo, que, ao lado do colega Bruno Carvalho do Prado, já voltou ao trabalho na Polícia Militar, segundo revelou reportagem da Folha de S.Paulo na última segunda-feira (9).

A Justiça negou o pedido de prisão preventiva feito pela Polícia Civil e pelo Ministério Público. O processo agora aguarda julgamento em segunda instância. O Inquérito Policial Militar foi concluído com o reconhecimento de homicídio, e foi encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar. Um procedimento administrativo também foi instaurado para apurar possíveis violações disciplinares.

Para a família, a liberação dos agentes para voltarem à ativa é mais um símbolo da impunidade.

“A volta deles ao trabalho é a inegável cumplicidade da alta cúpula militar e do estado de São Paulo, que é conivente com o crime contra meu filho”, afirmou Silvia, mãe do jovem.

Julio também criticou duramente o secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, por declarações feitas pouco após a morte de Marco Aurélio, num momento em que a polícia vinha sendo cobrada pela alta letalidade nas operações.

“O secretário [Guilherme] Derrite, o governador Tarcísio nunca nos pediram desculpas, em nenhum momento nos procuraram. O Tarcísio lamentou em duas ocasiões, nas redes sociais e numa entrevista. Lamenta, mas não move nenhum dedo para fazer justiça”, disse o pai.

“Apesar de dizer que lamenta, os policiais que mataram meus filhos já estão liberados para trabalharem nas ruas. Vamos falar de toda a violação que cometeram desde o crime, as falhas na investigação, a Justiça que sentou em cima do processo”, prosseguiu.

O casal planeja apresentar à ONU vídeos, documentos e imagens relacionados ao caso, na tentativa de expor internacionalmente o que consideram uma cadeia de omissões do poder público. A denúncia, segundo eles, será baseada em acusações que incluem homicídio qualificado, racismo, xenofobia e tortura.

O governo de São Paulo afirmou à época da morte que o caso não condiz com a conduta esperada da Polícia Militar e que seria apurado com rigor. Até o momento, no entanto, a família afirma não ter recebido qualquer contato oficial da gestão estadual.

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