Ronald Nogueira
A recente crise no Supremo Tribunal Federal (STF) cria um embaraço para o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) na disputa pelo governo do Rio. Paes precisa manter a vinculação com Lula, mas também precisa medir cada palavra ao tratar do governo e, sobretudo, dos ministros da Corte. Uma defesa mais enfática de Lula ou do STF pode encontrar resistência justamente entre eleitores de centro, segmento que Paes tenta atrair para ampliar sua base eleitoral.
O dilema se torna mais delicado diante da crescente polarização em torno do Supremo. Levantamento do instituto Vetor Arrow mostra que 63% dos entrevistados defendem algum tipo de punição ao ministro Alexandre de Moraes em meio à crise no STF. Ao mesmo tempo, a disputa presidencial no Rio reproduz parte desse ambiente: a pesquisa Prefab Future aponta Flávio Bolsonaro à frente de Lula no Estado, com 37,1% contra 31,8%.
Paes, que tenta se apresentar como uma alternativa capaz de transitar além da polarização, pode ser prejudicado caso a eleição nacional contamine excessivamente a campanha estadual. O ex-prefeito precisa preservar a proximidade com Lula sem permitir que sua imagem seja absorvida pelo campo político petista, sobretudo em um cenário no qual críticas ao STF e a Moraes têm forte apelo entre eleitores mais à direita e também podem alcançar setores de centro.
A dificuldade aumenta porque, paralelamente, Flávio Bolsonaro e Douglas Ruas vêm avançando nas pesquisas. No levantamento mais recente da Prefab Future, Paes aparece com 37,4% das intenções de voto, enquanto Ruas chegou a 20,1%, depois de sair de 14,7% na pesquisa anterior. O candidato do PL, portanto, foi quem mais cresceu no período, reduzindo parte da vantagem do pessedista.
Com Flávio Bolsonaro fortalecido e Ruas ampliando seu patamar de intenção de voto, qualquer movimento em falso pode dificultar a estratégia de Paes de ocupar o centro da disputa e transformar a eleição estadual em um plebiscito sobre sua própria gestão, e não sobre a polarização nacional.
A crise
A crise no STF se agravou ao longo desta semana e expôs um confronto incomum entre integrantes da própria Corte. A divulgação do relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes desencadeou uma disputa institucional que passou a envolver diretamente Moraes e André Mendonça. Moraes acusou o colega de parcialidade e de possíveis atos de improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, enquanto Mendonça tomou decisões que ampliaram o embate, inclusive ao determinar o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O episódio levou Edson Fachin, presidente do STF, a assumir a condução da crise, retirando de Moraes a condução do inquérito das fake news e intervindo na disputa envolvendo o comando da Polícia Federal. O conflito, porém, está longe de ser encerrado: na próxima terça-feira, o plenário do STF se reunirá em sessão extraordinária para analisar o relatório da PF sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro, além das questões relacionadas à validade do documento e aos desdobramentos da investigação.
O julgamento deve manter o episódio no centro do debate político e institucional, o que, para Eduardo Paes, prolonga justamente o ambiente que exige maior cautela na definição de seu discurso e de sua relação política com Lula e com o Supremo.







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