OAB-RJ emite nota de repúdio por representação de Carlos Minc contra oração de policiais no Rio

Após reações da bancada evangélica na Alerj, deputado agora enfrenta crítica da ordem dos advogados

Depois de enfrentar críticas da ala evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o deputado Carlos Minc (PSB) agora é alvo da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Rio de Janeiro (OAB-RJ). O órgão divulgou na noite de quinta-feira (28) uma nota de repúdio à representação apresentada por Minc no Ministério Público Estadual contra o Comando do 2º BPM (Botafogo).

O parlamentar questionou a participação de policiais fardados e em horário de serviço em um grupo de oração realizado no Largo do Machado, no Flamengo, na semana passada. A Secretaria de Estado de Polícia Militar chegou a informar que o grupo ainda não estava trabalhando.

Segundo a nota, “o direito ao livre exercício de culto e práticas religiosas é garantia fundamental, expressa no artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal”. Em outro trecho, a entidade afirma: “É lamentável que um representante do povo dedique esforços a recriminar prece livremente realizada”.

O texto foi assinado pela presidente da OAB-RJ, Ana Tereza Basilio; pelo presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Arnon Velmovitsky; e pelo presidente da Comissão Especial de Advogados Cristãos, Elmo Portella.

Apoio da Assembleia de Deus

O episódio também mobilizou lideranças religiosas. A Assembleia de Deus, Ministério de Madureira, declarou apoio à manifestação da OAB-RJ. O texto, assinado pelo bispo Abner Ferreira, defende que a oração dos policiais foi um gesto espontâneo de fé, sem imposição ou privilégio religioso, e deve ser entendida como expressão legítima da liberdade de consciência prevista na Constituição.

“O que houve foi um ato voluntário, sem imposição, aberto a todos que quisessem participar — expressão natural de um povo cuja história, cultura e identidade estão profundamente ligadas à fé”, afirmou Ferreira, acrescentando que a farda não anula a cidadania e que “uma polícia que ora é uma polícia mais humana, mais consciente e mais próxima da sociedade”.

Com a manifestação, a Assembleia de Deus se somou à OAB-RJ na defesa do ato religioso dos policiais, ampliando a pressão contra a representação apresentada por Minc.

‘Não é contra a religião’, diz Minc

Minc respondeu lembrando que, quando presidiu a Comissão de Combate às Discriminações da Alerj — atualmente é vice-presidente do colegiado —, elaborou leis de combate à intolerância religiosa e, que ainda hoje, apoiou a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

“Essa denúncia não é contra a religião, pois defendemos o exercício da liberdade. A questão é a doutrinação de policiais fardados e armados, em hora de serviço, onde há dezenas de casos de assalto. Dois policiais me falaram que foram instados pelo comando a participar. A discussão não é sobre a participação de pessoas em qualquer ato religioso, e isso vamos defender até a morte”, afirmou.

O deputado reforçou que conhece bem o tema da intolerância religiosa, lembrando que familiares seus foram mortos em campos de concentração nazistas. “A questão é outra. É você transformar agentes públicos em objetos de doutrinação em hora de serviço. Antes ou depois podem frequentar qualquer religião, mas o comando não pode instar ninguém a estar ali”, disse.

Minc afirmou ainda que a reação era esperada. “É claro que os extremistas querem transformar uma denúncia séria e fundamentada como se fosse um ataque à religião. Já imaginava que essa seria a defesa”, declarou.

Ele citou ainda caso semelhante ocorrido em São Paulo, em que o policial militar Marco Aurélio Bellorio acionou a Justiça alegando ter sido obrigado a participar de oração da Igreja Universal durante o expediente.

Encontro em unidade da Igreja Universal na zona oeste de São Paulo reuniu cerca de 700 policiais militares.

Reação na Alerj

O episódio já havia provocado embates na Alerj. Na sessão de terça-feira (26), o deputado Carlos Macedo (Republicanos), pastor da Universal, contestou Minc no plenário e chegou a lhe entregar uma bíblia.

Em seguida, Marcelo Dino (União Brasil) também criticou o socialista em suas redes sociais. Na sessão seguinte, os deputados evangélicos Douglas (PL) e Tia Ju (Republicanos) reforçaram as críticas, afirmando que não aceitariam punição a policiais por prática religiosa. Tia Ju chegou a se ajoelhar no plenário pedindo proteção para os militares.

Na sessão de quinta-feira (28), a parlamentar voltou a ironizar Minc ao citar um vídeo recente publicado pelo deputado, em que servidores de seu gabinete aparecem dançando charme durante o expediente. “Viu como é possível fazer algo na hora do expediente, deputado. Também é possível fazer uma oração”, declarou.

Nota da OAB-RJ

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e a Comissão Especial de Advogados Cristãos da OAB – Seção do Estado do Rio de Janeiro (OABRJ) vêm a público manifestar seu veemente repúdio à representação protocolada pelo deputado estadual Carlos Minc contra policiais militares do 2º BPM, que realizaram uma oração a céu aberto no Largo do Machado, no bairro do Flamengo.

O direito ao livre exercício de culto e práticas religiosas é garantia fundamental, expressa no artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal. A expressão de crença individual, desde que não traduza perturbação da ordem pública nem constrangimento de terceiros, não configura ilícito nem transgride qualquer norma administrativa ou penal.

É lamentável que um representante do povo dedique esforços a recriminar prece livremente realizada. 

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e a Comissão Especial de Advogados Cristãos da OABRJ reafirmam seu compromisso com a liberdade de crença e com o combate a qualquer forma de perseguição religiosa.

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