HUDSON CARVALHO*
Nos últimos dias, autoridades, partícipes, oráculos midiáticos e palpiteiros crônicos dissecaram a infuca golpista de 8 de janeiro de 2023. O fato de a brancaleônica sedição ter gorado não a torna menos inquietante. A cada dia desvela-se mais o inventário da sublevação bolsonarista, justificando os cuidados tomados para se resguardar a democracia, mesmo os que, inicialmente, pareciam exagerados. Visando coibir renovados ensaios autoritários, impõe-se punição aos delinquentes.
O 8 de janeiro de 2023, porém, não acabou no que diz respeito a secessão da sociedade entre Lula/petismo e Bolsonaro/bolsonarismo. É o que adverte o recém-lançado livro “Biografia do Abismo”, do cientista político Felipe Nunes e do jornalista Thomas Traumann. O primeiro é sócio-fundador do Instituto Quaest e o segundo, ex-ministro de Comunicação Social do anêmico governo Dilma Rousseff. Na obra – amparada por pesquisas quantitativas e qualitativas e fartas menções bibliográficas contemporâneas -, os autores historiam a gênese do atual Fla-Flu de várzea e afiançam uma excessiva perenidade a esse litígio. Aliás, recente levantamento da Quaest revelou que 43% dos entrevistados não enxergam a óbvia influência de Bolsonaro na malsinada intentona bolsonarista, reforçando a tese de cristalização do cancro.
Desde a redemocratização, há quase quatro décadas, o PT firmou-se como o partido brasileiro de maior referência, disputando todos os pleitos presidenciais de 1989 para cá, ganhando cinco vezes e ocupando o segundo lugar em quatro edições. Regularmente houve oposição ao PT. Antes de Bolsonaro, quem a capitalizava era o balsâmico PSDB, representando uma elite política com fragrância europeia social-democrata e uma base social à direita. O que não havia era uma direita, manifestadamente, colérica, pois essa ainda se penitenciava, apequenada e encabulada, dos desatinos da ditadura militar. Com Bolsonaro, os radicais direitistas libertaram-se dos escrúpulos e cascatearam uma moralista baba cívica.
Nunes e Traumann lembram que a discórdia política se fez fortemente presente entre getulistas e antigetulistas, apoiadores do golpe de 64 e opositores e PT e PSDB durante 20 anos. (Doravante, as aspas são do livro). “Nessas conjunturas, partidos e grupos estavam polarizados, mas a sociedade, não”, atesta a dupla. Em 2018, em ambiente de total descrédito dos agentes públicos, “a divisão política se intensificou e o Brasil chegou a outro patamar de antagonismo, chamado pelos cientistas políticos de polarização afetiva”, termo parido nos estudos coordenados pelo politólogo americano Shanto Iyengar. O conceito se aplica a “um contexto em que cresce a identificação pessoal dos indivíduos com o grupo ao qual pertencem e o ódio em relação aos opositores”. E mais: “Quando a polarização vira uma relação de afeto, o adversário passa a ser inimigo, uma ameaça à própria existência do grupo, um mal a ser destruído”. Isso explicaria a insana cizânia instalada nos círculos familiares e de amizade e transposta até para a esfera comercial, com sabotagens a empresas e produtos. E importantíssimo, conforme o tratado, “esse novo estágio de polarização seria inclusive autônomo em relação à ideologia”. Pesquisa de 21 de setembro de 2022 da Quaest registrava que 68% dos bolsonaristas não acreditavam nas urnas eletrônicas e 39% defendiam a ideia de que Bolsonaro não deveria aceitar os resultados das urnas, caso perdesse. Germinava-se o 8 de janeiro.
Além da conceituação da ‘polarização afetiva’, o livro abona a expressão ‘calcificação política’, da lavra dos cientistas políticos americanos John Sides, Cris Tausanovich e Lynn Vavreck. Ela é fruto da constatação de que as gentes, atualmente, não estão inclinadas a se afastarem de suas predisposições, faça sol ou chuva. “A calcificação significa menos disposição de desertar do seu grupo, romper com o seu candidato a presidente ou até votar no partido oposto. Há, portanto, menos chances de eventos novos e até dramáticos mudarem as escolhas das pessoas nas urnas. Novos acontecimentos tendem a ser absorvidos em um eixo de conflito no qual a identidade desempenha um papel central. Isso significa flutuações menores de ano a ano nos resultados eleitorais. Afinal das contas, as opiniões sobre economia mudam com maior frequência a depender dos resultados objetivos, mas os valores são mais cristalizados”. De fato, essa é uma observação muito interessante, e que prevê pouca mobilidade nos jogos eleitorais, sobretudo com a imposição das guerras culturais sobre avaliações mais objetivas ou econômicas. É verdade que as batalhas identitárias se adensaram. Tenho dúvidas, contudo, sobre a consistência e a irredutibilidade da assertiva, que parece se adequar mais ao inercial e congelado quadro partidário dos Estados Unidos.
No Brasil, a fulanização impera. Diversamente dos EUA, aqui, vota-se preponderantemente em nomes, e não em partidos. O PT tem sido protagonista há tanto tempo, exclusivamente, pela presença do carismático Lula, que, pela idade, se encaminha inexoravelmente para a aposentadoria política, mesmo que venha a concorrer e a ganhar em 2026. No pós-Lula, o PT tende às incertezas e debilidades que envolvem as outras legendas. Nada indica que será diferente. Ademais, o canto do jogral identitário das esquerdas não sensibiliza a grande maioria dos brasileiros. Ao contrário, fere os ouvidos de um corpo social cada vez mais conservador. Bolsonaro, o supremo guia da direita, encontra-se inelegível até 2030, quando contará com 75 anos. É bastante tempo para se sustentar uma miragem. Bolsonaro poderá ter influência em eventuais cursos eleitorais vindouros, todavia faz-se pouco crível que arrastará a mística e a relevância até voltar a elegibilidade – bem mais velho. No mais, as eleições brasileiras caracterizam-se por naturezas distintas. A lógica dos escrutínios municipais difere totalmente dos outros pleitos, em anos alternados. Um dos equívocos mais recorrentes abraçado por parte da imprensa política é descortinar nas jornadas municipais preâmbulos das eleições gerais seguintes. Nas últimas eleições municipais em 2020, por exemplo, em pleno aquecimento da contraposição vigente, o então partido do presidente Bolsonaro, o PSL, só elegeu prefeitos em 90 dos 5568 municípios brasileiros, ficando em 16º lugar entre todas as agremiações. Por sua vez, o PT caiu de 254 para 183 prefeituras. Ambos não entronizaram correligionários no comando de nenhuma capital.
“Biografia do Abismo” aborda também a potência das fake news, como degenerada orientação de comunicação política. “Mesmo confrontado com a verdade, o eleitor acredita naquilo que é compatível com o seu sistema de crenças – ou seja, ele acredita naquilo que prefere acreditar. Ao contrário do senso comum, a crença em fake news não está correlacionada a escolaridade, renda, gênero ou idade do eleitor. É a filiação política do eleitor que conta… A verdade dos fatos, tomados um a um, não importa. Verdadeira seria somente a mensagem no seu conjunto, que confirma o viés do eleitor. Disseminar notícias que ajudam seu candidato, mesmo que sejam falsas, parece ser um ato messiânico. É uma tarefa a ser cumprida”. E diagnostica o livro: “Esse novo contexto de comunicação criou as condições de um novo tipo de disputa política, em que os lados, cada um na sua bolha, reproduzem as convicções e seus preconceitos sobre si mesmos e sobre o outro lado. Isso acaba de gerar um sentimento novo de identidade pelo conteúdo. Não uma identidade nacional, mas uma identidade de grupo”. O tribalismo sempre permeou o percurso da humanidade e se amplia, agora, pelas redes sociais.
De acordo com o trabalho de Nunes e Traumann, a eleição presidencial passada foi decidida por oito segmentos sociais determinantes; quatro de cada costado. Os 51% de votos de Lula, grosso modo, dividiram-se entre ‘classes C e D’ (30%), ‘progressistas’ (10%), ‘petistas’ (8%) e ‘liberais’ (3%). Já ‘conservadores cristãos’ (29%), ‘agro’ (14%), ‘empreendedores’ (4%) e ‘fascistas’ (2%) compuseram os 49% da votação de Bolsonaro. No acampamento bolsonarista, para iluminar entendimentos, sublinham-se as motivações da turma do ‘agro’ e dos ‘empreendedores’. A coletividade do ‘agro’ exibe estilo de vida rural conectado ao seu modo de produção e se orgulha do universo sertanejo, muitas vezes esnobado pelos polos culturais dominantes. Crê piamente que vive apartada do Estado, que sustenta o país economicamente e que a associação do PT com o MST ameaça a sua sobrevivência. Os ‘empreendedores’ igualmente nutrem aversão ao Estado, visto como corrupto e ineficaz. “Os ‘empreendedores’ são da classe média, com pequenas e médias empresas, majoritariamente no Sul e no Sudeste, e também os operadores do mercado financeiro… Os ‘empreendedores’ defendem valores liberais e se tornaram radicalmente antipetistas a partir do governo Dilma”. Entre os eleitores de Lula, destaca-se o modesto contingente de ‘liberais’, motivado pela adesão de Simone Tebet e de alguns economistas renomados à candidatura petista no segundo turno. Essa grei estivera com Bolsonaro em 2018 e se decepcionara profundamente. “Embora esse grupo corresponda a apenas 3% do eleitorado, sua influência na mídia, na imprensa e no Judiciário é notável”, ressaltam Nunes e Traumann. Pela estreita diferença de votos no único confronto entre presidentes na história do Brasil – 1,8% -, os pendulares ‘liberais’ selaram a vitória de Lula, na visão dos subscritores do livro “Biografia do Abismo”.
Completou-se um ano da mais contundente investida bolsonarista contra a democracia. É justo que se celebre a resistência e a vitalidade das instituições nacionais. Melhor ainda quando abreviarmos essa lembrança, e o 8 de janeiro voltar a ser uma data normal, sem a anomalia de uma inconciabilidade doentia e estéril.
HUDSON CARVALHO é jornalista e consultor político





