Número de regimes autoritários supera o de democracias no mundo pela primeira vez desde a década de 1970

Relatório V-Dem 2025 aponta o crescimento de autocracias e alerta para os efeitos da polarização, desinformação e violência política

Pela primeira vez desde a década de 1970, o número de autocracias no mundo ultrapassou o de democracias. É o que revela o Relatório da Democracia 2025, elaborado pelo Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Segundo o levantamento, até o final de 2024, havia 91 autocracias e 88 democracias no planeta, consolidando uma inversão histórica observada em comparação com o ano anterior.

O estudo, que monitora anualmente o estado da democracia em escala global, analisou 179 países em 2024. Os dados mostram que aproximadamente 72% da população mundial — o equivalente a 5,8 bilhões de pessoas — vivem sob regimes autocráticos, o maior percentual desde 1978.

A metodologia do instituto define autocracia como um regime em que o poder está concentrado em uma única pessoa ou grupo, com escasso controle democrático e severas restrições às liberdades civis e políticas. Já as democracias são caracterizadas por eleições livres e justas, sufrágio amplo, liberdade de expressão e associação, além de mecanismos efetivos de contenção do poder executivo e respeito à igualdade perante a lei.

De acordo com o relatório, os regimes autocráticos se concentram majoritariamente no Oriente Médio, norte da África, Ásia do Sul e Central, e África Subsaariana. Por outro lado, a presença de democracias é mais significativa na Europa Ocidental e América do Norte, com algumas ocorrências no Leste Asiático, Pacífico, Europa Oriental e América do Sul.

Polarização, desinformação e erosão institucional

O estudo destaca a polarização política e a desinformação como ameaças centrais à estabilidade das democracias contemporâneas. Os autores apontam que a desinformação tem sido usada por regimes autoritários como ferramenta para manipular a opinião pública e minar a confiança social.

“Estudos sugerem que a polarização se torna frequentemente uma ajuda para os governos espalharem a desinformação, enfraquecendo a democracia. Se a polarização for elevada, os cidadãos estão mais dispostos a trocar os princípios democráticos por outros interesses ou a ajudar o seu lado a ganhar. A votação do Brexit e as eleições presidenciais de 2016 nos EUA são dois exemplos proeminentes em que este padrão se verificou”, aponta o estudo.

A intensificação da polarização foi registrada em nove países com eleições em 2024. O relatório dedica atenção especial ao cenário dos Estados Unidos, afirmando que “níveis tóxicos de polarização definiram, em grande parte, os debates durante as eleições de 2024”. E ressalta: “alguns aspectos da democracia nos EUA já estivessem a ser afetados em 2024, os dados do V-Dem ainda não captam os desenvolvimentos recentes e extremamente preocupantes”.

Eleições marcadas por violência e ataques à imprensa

Outro alerta grave do relatório refere-se ao aumento da violência política e à deterioração da liberdade de imprensa em contextos eleitorais. Segundo o levantamento, quase um quarto das eleições realizadas em 2024 — 14 entre 61 — foi marcado por episódios de violência.

“Quase um quarto de todas as eleições realizadas em 2024 – 14 em 61 – foram marcadas por um aumento na violência política. Por exemplo, o México realizou a sua eleição mais sangrenta da história recente, com pelo menos 37 concorrentes assassinados, e existiram tentativas de assassinato do primeiro-ministro na Eslováquia e do, então, candidato Trump”, revela o estudo.

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