Nova Iguaçu: de Cidade Perfume a Capital da Baixada
Reportagem Especial

Nova Iguaçu: de Cidade Perfume a Capital da Baixada

Hoje, ficaram memória, relatos e a certeza de que a cidade tem talento para transformar até laranja em identidade cultural

Nova Iguaçu parece aquela amiga que muda de nome, de visual e de estilo a cada década, mas continua reconhecível pelo jeitão único. Já foi Vila de Iguassú, Vila de Maxambomba e, desde 1916, atende pelo título atual. O batismo vem do Rio Iguassú, “água grande” em tupi, lembrando que antes dos trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II havia indígenas navegando por ali. Ironia da história: o trem trouxe progresso, mas também problemas que até hoje fazem parte do cotidiano da Baixada.

E como se não bastasse a multiplicidade de nomes, a cidade ainda ostenta um vulcão — ou quase isso. Geólogos garantem que o “Vulcão de Nova Iguaçu” não passa de uma estrutura extinta há 40 milhões de anos, mas o marketing local já tratou de transformar o morro em atração turística. Afinal, quem não gostaria de dizer que mora ao lado de um vulcão, mesmo que ele nunca tenha cuspido uma gota de lava?

Mas se o vulcão não exala fumaça, as laranjeiras já exalaram perfume. Entre as décadas de 1920 e 1950, Nova Iguaçu foi a “Cidade Perfume”, graças ao aroma cítrico que invadia estações e estradas. O ciclo acabou em crise, os pomares viraram loteamentos e o cheiro se perdeu. Ficou a memória, os relatos e a certeza de que a cidade tem talento para transformar até laranja em identidade cultural.

Fachada do Museu Odé Gbomi | Crédito: Reprodução

Origem

Até Nova Iguaçu ser Nova Iguaçu a cidade que começou a se desenvolver com porto fluvial em 1699 se denominou Vila de Iguassú, Vila de Maxambomba, até adotar a denominação atual em 1916.

Seu nome vem do Rio Iguassú, que cortava a região e servia de referência para os colonizadores. “Iguaçu” significa “água grande” em tupi, lembrando que antes dos tropeiros havia indígenas que navegavam esses rios.

Em 1858, a chegada da Estrada de Ferro Dom Pedro II impulsionou o desenvolvimento de Maxambomba. Mas o que parecia benção, acabou virando um baita problemão como veremos adiante.

Por que ela é conhecida como a “Capital da Baixada”?

Porque foi a “cidade-mãe”, de onde se originaram vários municípios e porque concentrou população, economia e serviços que irradiaram para toda a Baixada.

Ao longo dos séculos, Nova Iguaçu funcionou como polo central de desenvolvimento. E foi a partir de seu território que nasceram cidades como Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis e Queimados, entre outras, em processos de emancipação que redesenharam o mapa da região.

É verdade que tem um vulcão lá?

Bom, não espere ver lava escorrendo pela Via Dutra. O chamado Vulcão de Nova Iguaçu é uma estrutura geológica extinta há cerca de 40 milhões de anos, mas se foi ou não um vulcão de verdade aí já é uma interpretação geológica controversa.

A partir de trabalhos científicos publicados a posição majoritária é cautelosa: as feições na paisagem correspondem a corpos subvulcânicos, mas não a de um vulcão clássico de filme de catástrofes com cone e fluxo de lava.

De qualquer maneira o “Vulcão de Nova Iguaçu” ganhou manchetes, projetos turísticos, placas explicativas e até pedidos de criação de um geoparque.

Resumindo: mesmo que de vez em quando apareceram reportagens com moradores jurando de pé junto ouvirem estrondos na região, os geólogos garantem que nosso amigo nunca mais vai acordar.

Por que ela já foi conhecida como “Cidade Perfume”?

Entre as décadas de 1920 e 1950 Nova Iguaçu viveu o auge da citricultura, com vastos pomares de laranja cobrindo seus bairros e arredores.

A época da floração e colheita deixava um aroma cítrico que, segundo jornais e relatos da época, perfumava as estações ferroviárias e estradas.

Isso rendeu à cidade o apelido carinhoso, e quase poético, de “Cidade Perfume”.

O apelido não é só nostalgia, virou peça do imaginário local e tema de exposições recentes que resgatam a memória dos laranjais. Isto porque a citricultura de fato moldou a economia e a sociabilidade da cidade por décadas. Quando o cheiro se foi, ficou a história documentada em teses, jornais e acervos de pesquisadores locais.

O que foi a “Crise da Laranja”?

Até que um belo dia o que era doce se acabou. A tal “Crise da Laranja” refere-se ao declínio do ciclo da citricultura que, até meados do século XX, havia sido a base econômica de Nova Iguaçu.

Vários fatores se somaram aqui: dificuldades no escoamento, preços internacionais, mudanças no mercado e o impacto da Segunda Guerra Mundial sobre as exportações. O resultado foi o enfraquecimento dos pomares e o desmonte progressivo do modelo produtivo local.

O fim do ciclo da laranja não foi um desastre instantâneo, mas um processo que levou ao loteamento das antigas áreas de cultivo, à urbanização acelerada e à reorientação econômica da cidade para o comércio e a indústria.

Em outras palavras: as laranjas foram embora e o loteador chegou com a planta baixa.

O que são as Ruínas de Vila de Cava?

As chamadas ruínas da Vila de Cava são os remanescentes da Fazenda São Bernardino, uma imponente construção do século XIX, que que lembra a época em que a região tinha economia pujante com função agroexportadora e de travessia fluvial.

Nos últimos anos houve inúmeras iniciativas de inventário, tombamento e propostas de revitalização envolvendo prefeitura, INEPAC e pesquisadores locais.

As ruínas não são apenas cenário para selfies ou vídeo clipes. Elas são fragmentos do passado agroexportador que, se fossem preservados, contariam um pedaço fundamental da história da cidade e da Baixada Fluminense.

Ruínas da Fazenda São Bernardino, conhecidas como Ruínas de Vila de Cava | Crédito: Reprodução

A primeira pista de skate do Brasil surgiu mesmo aqui?

Nova Iguaçu reivindica com bons argumentos a inauguração da sua pista, na Praça Ricardo Xavier da Silveira, em dezembro de 1976, e muitos relatos, reportagens e até livros sobre a história do skate no Brasil registram que essa não só foi a primeira construída no país como também a primeira da América Latina.

A pista na “Praça do Skate” foi projetada por skatistas locais e rapidamente virou palco das primeiras competições regionais e nacionais da modalidade.

Claro, tem sempre um chato de plantão para se prender a detalhes, como, por exemplo, se já havia pistas informais antes. Mas a documentação disponível é vasta e inequívoca com relação à convicção de que Nova Iguaçu foi pioneira na construção de uma pista formal de concreto no Brasil.

‘Praça do Skate’: palco de competições regionais na cidade | Crédito: Reprodução

O que é o Museu Odé Gbomi?

Também conhecido como Instituto de Pesquisas Afro-Cultural Odé Gbomi, é o único museu totalmente dedicado à cultura Yorubá do Rio de Janeiro.

Seu acervo de mais de 250 peças compreende esculturas, objetos ritualísticos, peças etnográficas e uma pequena biblioteca dedicada à diáspora africana.

Qual a importância da Reserva Ecológica do Tinguá?

Ela é o pulmão ecológico da região, preservando biodiversidade, nascentes que abastecem populações e oferecendo imenso potencial para o ecoturismo.

A Reserva Biológica Federal do Tinguá (Rebio Tinguá) estende-se por cerca de 26 mil hectares e alcança municípios como Duque de Caxias, Petrópolis, Miguel Pereira e Engenheiro Paulo de Frontin.

É uma unidade de conservação de importância para a Mata Atlântica, com pontos de referência como o Pico do Tinguá, com seus 1.600 metros de altitude, algo como duas Pedras da Gávea, uma sobre a outra.

O que mais tem para fazer por lá?

Dar aquele tchibum na Cachoeira da Janjana, no Tinguá; conhecer os centros culturais como o Espaço Cultural Sylvio Monteiro, que abriga galerias de arte, teatro e biblioteca, ou o Espaço Cultural Anna Márcia Mixo, também dedicado a exposições.

A turma do turismo religioso tem igrejas para todos os gostos, como a Igreja de Santo Antônio do Prata, fundada no século XVIII, que é tida como o local da origem do culto aos poderes “casamenteiros” do santo.

Como chegar?

Partindo da Guanabara é um pulinho de meia hora para percorrer não mais de 40 quilômetros. Se for pela SuperVia, a viagem de trem da Central do Brasil até Nova Iguaçu costuma levar por volta de 1h a 1h40, dependendo do trem e do horário por um troco de pinga de R$ 7,60. Ainda há diversas opções de horários de ônibus comuns ou estilo frescão saindo do Centro do Rio.

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