Às vésperas do feriado prolongado e da chegada de milhares de turistas ao Rio de Janeiro para o show da cantora Lady Gaga em Copacabana, o governo federal anunciou a concessão da BR-040, no trecho entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora.
Segundo reportagem de O Globo, o consórcio Nova Estrada Real — formado pela brasileira Construcap e pelas espanholas Copasa e Ohla Concesiones — venceu o leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo ao oferecer um desconto de 14% sobre a tarifa básica de pedágio.
Apesar do desconto apresentado no edital, o valor a ser pago por motoristas de veículos leves deverá subir. A estimativa é que cada praça de pedágio custe ao menos R$ 18, acima dos R$ 14,50 atualmente cobrados. No total, considerando as três praças em operação — em Xerém, Areal e Comendador Levy Gasparian —, a viagem poderá sair por cerca de R$ 55, ainda sem contar os reajustes pela inflação.
A concessão terá validade de 30 anos e exigirá, segundo o Ministério dos Transportes, um investimento de R$ 5 bilhões em obras e outros R$ 3 bilhões em custos operacionais. Um dos principais compromissos do consórcio vencedor é a retomada da Nova Subida da Serra de Petrópolis, cujas obras estão paradas desde 2016. O projeto inclui um túnel de 4,6 km, já com 80% de execução, e mais dois túneis de 620 metros na descida da serra. As intervenções estão previstas para começar apenas em 2028 e serem concluídas em 2031.
“O túnel na Serra de Petrópolis está quase pronto, mas está parado há anos. Agora, com a concessão, a duplicação do trecho será retomada”, declarou o ministro dos Transportes, Renan Filho, durante o leilão na B3. Ele destacou que a Serra de Petrópolis é um dos três principais gargalos rodoviários do estado do Rio, ao lado da Serra das Araras e do Arco Metropolitano (BR-493), onde as obras já estão em andamento.
A nova concessionária também será obrigada a adotar o sistema free-flow (cobrança automática por passagem, sem praças físicas) no pedágio de Xerém, na Baixada Fluminense, o que deve melhorar a fluidez do tráfego na região. As demais praças seguirão o modelo tradicional, com cobrança fixa por ponto.
Francisco Campos Junior, diretor da Construcap, celebrou o resultado e elogiou o modelo da concessão: “Parabenizamos o governo federal pela transparência, segurança jurídica e confiança transmitida aos investidores. Vamos cumprir os prazos estabelecidos”, afirmou.
Já a Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan) cobrou agilidade no início das obras. “Mais do que um pleito histórico da Firjan, trata-se de uma demanda da sociedade fluminense, que convive há décadas com os riscos e limitações do atual traçado da serra”, declarou o presidente da entidade, Luiz Césio Caetano.
Rodovia deteriorada e insegura
A atual concessão da BR-040 está sob responsabilidade da Concer (Companhia de Concessão Rodoviária Juiz de Fora-Rio de Janeiro), cujo contrato venceu em 2021. No entanto, a empresa conseguiu estender a operação da via por meio de decisões judiciais, alegando desequilíbrio financeiro causado pela falta de repasses federais para as obras da nova subida. A Concer está em recuperação extrajudicial desde 2017.
Enquanto isso, usuários da rodovia relatam diversos problemas. O ladrilheiro Thiago Santos, que viaja frequentemente para Petrópolis, reclamou da falta de manutenção: “A pista é apertada, sem acostamento. As carretas invadem a outra faixa nas curvas. E os desníveis acabam com a suspensão e os pneus do carro”, afirmou.
O caminhoneiro Ronaldo Oliveira destacou os riscos nas viagens noturnas ou em dias de neblina: “Não tem nem sinalização refletiva. O jeito é andar no meio da pista para evitar acidentes”, disse.
As condições da BR-040 são visivelmente precárias em trechos da serra. Remendos sucessivos tornam a rodovia desconfortável e perigosa, e os restos das obras paradas — como viadutos inacabados e pilares com ferragens expostas — são um lembrete da negligência com a infraestrutura viária.
Previsão de aumento nas tarifas
Embora a tarifa tenha tido redução no valor básico previsto no edital, o Ministério dos Transportes confirmou que haverá reajustes anuais conforme o IPCA, e que reclassificações tarifárias poderão ser aplicadas — com aumento real de até 12,5% — conforme a entrega de melhorias na rodovia.
Tiago Barros, diretor sênior da A&M Infra, esclarece que o contrato prevê o “compartilhamento de risco” na construção do túnel da serra. Caso o custo da obra ultrapasse o valor previsto, o poder concedente deverá compensar 90% da diferença.
O novo ciclo de investimentos promete transformar a BR-040 em um corredor mais seguro e eficiente, essencial para o escoamento de bens entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, além de impulsionar o turismo na região serrana. Até lá, no entanto, motoristas e caminhoneiros continuam a enfrentar estradas desgastadas e tarifas em alta.





