A explicação da Meta de que bloqueou por engano uma conta de anúncios utilizada pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não é suficiente para esclarecer o episódio, segundo o NetLab, laboratório de estudos de internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em nota divulgada nesta quarta-feira (21), os pesquisadores cobraram transparência sobre os critérios adotados pela empresa, responsável por Instagram, Facebook e WhatsApp, e questionaram a eficácia dos mecanismos utilizados para identificar fraudes nas plataformas.
A manifestação ocorre após a Meta negar qualquer favorecimento político nas eleições e pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o arquivamento de uma representação apresentada pelo PT. A campanha petista questiona o tratamento dado aos conteúdos eleitorais e aponta possíveis prejuízos na distribuição de suas publicações.
Na terça-feira (20), a empresa informou ao TSE que oferece tratamento igualitário às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Em resposta encaminhada ao ministro Marco Aurélio Bellizze, relator do caso, a Meta apresentou esclarecimentos sobre as medidas adotadas para corrigir problemas identificados em suas plataformas.
Laboratório identifica 967 anúncios suspeitos
O principal questionamento do NetLab envolve a justificativa apresentada pela Meta para a suspensão temporária da conta de anúncios de Lula, ocorrida em 23 de setembro. Segundo a empresa, o bloqueio aconteceu por engano durante uma análise antifraude relacionada a um acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU).
Para avaliar a explicação, os pesquisadores analisaram anúncios publicados entre 16 e 30 de setembro. O levantamento identificou pelo menos 967 anúncios que exploravam programas federais, distribuídos por 42 páginas diferentes. Desse total, 26 continuavam ativas no momento da pesquisa.
Uma única página, posteriormente retirada do ar, foi responsável por 251 anúncios relacionados ao programa Desenrola Brasil. Segundo o laboratório, os resultados mostram dificuldades na identificação de anunciantes suspeitos e no combate à circulação de conteúdos potencialmente fraudulentos.
O NetLab também comparou o anúncio oficial da campanha de Lula que teria provocado o bloqueio com uma publicidade considerada fraudulenta, veiculada no mesmo período.
“Se não houve motivação política por trás da medida, resta concluir que os mecanismos de detecção de fraudes da empresa são, no mínimo, profundamente ineficazes”, afirmaram os pesquisadores.
Pesquisadores questionam critérios de bloqueio
Na avaliação do laboratório, a suspensão de uma conta oficial de campanha, devidamente declarada à Justiça Eleitoral, contrasta com a permanência de centenas de anúncios suspeitos nas plataformas.
Os pesquisadores argumentam que a Meta deveria ter condições de identificar contas eleitorais regulares e diferenciá-las de páginas utilizadas para divulgar conteúdos fraudulentos.
O documento também cita uma investigação da agência Reuters segundo a qual cerca de 10% da receita da Meta estaria relacionada a anúncios ilegais e fraudulentos. O dado é apresentado pelo laboratório como parte de suas críticas aos mecanismos de fiscalização da companhia.
Para o NetLab, mesmo que tenha ocorrido uma intervenção da empresa para combater fraudes, os resultados encontrados indicam que as medidas não foram suficientes para impedir a circulação ou a retomada dessas publicidades.
Transparência é apontada como condição para esclarecer o caso
O laboratório ressalta que a ausência de informações detalhadas sobre os sistemas de moderação impede uma avaliação independente das decisões tomadas pela Meta durante o processo eleitoral.
A entidade não apresenta uma conclusão definitiva de que houve favorecimento político, mas sustenta que a explicação de um bloqueio acidental não elimina as dúvidas sobre o funcionamento dos mecanismos de controle da empresa.
“Os representantes da Meta podem falar, escrever notas, artigos e peças jurídicas sobre a idoneidade da empresa. Sem transparência, tudo é letra morta”, afirmaram os pesquisadores.
O caso permanece sob análise do TSE, que cobrou esclarecimentos da Meta sobre o tratamento dispensado às campanhas presidenciais. A empresa nega interferência política e sustenta que não privilegiou nenhum dos candidatos.
Leia também: TSE reúne equipes e dá 24 horas para Meta explicar possível desigualdade entre Lula e Flávio nas redes, reportagem publicada pelo Agenda do Poder sobre as cobranças da Justiça Eleitoral à empresa.







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