RICARDO BRUNO
As sutilezas da política não aconselham a leitura linear dos fatos. Nos desvãos da informação objetiva encontram-se os fios da meada para se chegar a compreensão plena das narrativas.
A informação divulgada, em primeira mão pela Agenda do Poder, de que o deputado Pedro Paulo pediu ao prefeito Eduardo Paes que não considerasse mais seu nome na escolha do vice merece atenção. Não que o fato não proceda ou que haja imprecisão na notícia. Foi exatamente este o conteúdo do encontro entre os dois amigos e parceiros políticos na manhã desta segunda, 22.
A apresentação antecipada daquilo que seria o maior óbice à confirmação do nome do deputado oferece oportunidade para que o tema seja dissecado publicamente antes das turbulências do embate eleitoral. Permite a verificação do potencial destrutivo da suposta denúncia. E retira dos adversários o sonhado trunfo para atingi-lo em pleno voo no momento mais delicado da campanha.
No caso, objetivamente, constata-se a inconsistência absoluta da narrativa supostamente demolidora. Separado da esposa, flertou com uma mulher em chamada de vídeo de conteúdo, digamos, picante. Nada que não aconteça com homens e mulheres livres. O episódio expressa à perfeição a vida como ela é, como registrara Nélson Rodrigues em sua obra magistral – mas sem as deformações expressionistas do dramaturgo. Não houve traição sequer deslealdade. Não há, portanto, nada de substantivo. Nada que o desabone a seguir como companheiro de chapa de Eduardo Paes.
Entre os mais próximos do prefeito, Pedro Paulo reúne todos os predicados para o cargo. Tem trânsito em todas as correntes políticas; é tecnicamente preparado e extremamente leal a Eduardo Paes.
Uma suposta chamada de vídeo de caráter íntimo, normal a homens e mulheres livres, não pode o afastar da possibilidade de ser escolhido. Não reduz suas chances de exercer o cargo com desembaraço e competência.
A exposição pública do fato é bem-vinda. Abre caminho para a constatação de que não há nada de relevante neste aparente imbróglio, que justifique sua exclusão da chapa.
Pedro precisava renunciar para que, alguns dias depois, possa, eventualmente, ser escolhido; era necessário expor o caso à exaustão a fim de que o debate faça aflorar juízo coletivo sobre o episódio.
Com base no senso crítico ora em construção, Eduardo Paes deve decidir. Ele tem até o próximo dia 5 para fechar a chapa. Os próximos 12 dias serão mais do que suficientes para o assunto decantar em meio à catarse política deflagrada pelo anúncio da desistência.
De resto, nem tudo é o que parece. A verdade está nas sutilezas, nas entrelinhas do script oficial.
A meu juízo, Pedro ainda pode ser o vice de Eduardo Paes.





