Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Em mais da metade dos casos, 62%, os assassinatos aconteceram dentro da própria casa, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Por trás desses números, existem histórias de mulheres que, muitas vezes, passaram meses ou anos convivendo com sinais de violência que começaram muito antes da agressão fatal: o controle sobre a roupa, o isolamento da família e dos amigos, as ameaças, as humilhações e a tentativa de fazer a vítima duvidar da própria percepção.

Dados do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher apontam que o Brasil registrou 741 feminicídios entre janeiro e junho de 2026. Embora algumas regiões tenham apresentado redução nos casos, como Norte e Nordeste, houve aumento nas mortes no Sul, Centro-Oeste e Sudeste. Em 2025, a maioria das vítimas era formada por mulheres jovens e negras, e quase 80% dos autores eram parceiros ou ex-parceiros.

É nesse intervalo, entre os primeiros sinais da violência e a agressão consumada, que atua o Programa Empoderadas, iniciativa voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra meninas e mulheres. Criado pela especialista em Segurança Feminina Érica Paes, o projeto busca ensinar mulheres a reconhecer riscos, fortalecer a autoestima e construir caminhos para romper situações de vulnerabilidade.

“O Empoderadas nasceu na vontade de fazer com que outras meninas tivessem a mesma oportunidade que eu tive de sobreviver a ataques. (…) Hoje a gente tem essa grande ferramenta que ajuda meninas e mulheres a encarar o dia a dia. Não só combatendo a violência doméstica, psicológica, emocional, mas também tentativas de estupros, stalking”, conta Érica à Agenda do Poder.

Presente em cerca de 70 polos espalhados pelo estado do Rio, o programa oferece uma rede gratuita que combina aulas de prevenção e defesa pessoal, acolhimento psicológico, jurídico e social, além de cursos profissionalizantes voltados à autonomia financeira.

Professoras faixa preta ensinam leitura corporal, percepção de risco e técnicas de desvencilhamento | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

A prevenção começa antes da luta

A história do Empoderadas se mistura com a trajetória de sua fundadora, que compartilha que o projeto nasceu do desejo de ensinar para outras mulheres conhecimentos que, segundo ela, foram fundamentais para sua própria sobrevivência.

O trabalho começou ainda em 1997, mas ganhou uma estrutura mais ampla a partir de 2019, quando passou a funcionar como uma iniciativa organizada com apoio governamental. Desde então, a metodologia foi ampliada para atender diferentes realidades e formas de violência.

Érica Paes, fundadora do projeto e especialista em Segurança Feminina | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Para Érica, acompanhar a evolução dos crimes contra mulheres é fundamental para criar estratégias de prevenção. Segundo ela, os agressores também mudam suas formas de atuação, e o programa busca transformar esse conhecimento em ferramentas práticas.

“A gente vem acompanhando as diferentes formas de atacar que um criminoso direciona para meninas ou mulheres. Isso para tentar destrinchar e transformar em técnicas preventivas de segurança”

Érica Paes, fundadora do Empoderadas

O projeto acontece em três frentes. A primeira é o tatame, onde professoras faixa-preta ensinam leitura corporal, percepção de risco e técnicas de desvencilhamento inspiradas no jiu-jítsu e em outras artes marciais. A segunda envolve acolhimento psicológico, jurídico e social. Já a terceira aposta na autonomia financeira por meio de cursos profissionalizantes.

No tatame, o aprendizado começa antes da luta

As aulas utilizam técnicas inspiradas no jiu-jítsu e em outras artes marciais, mas o primeiro ensinamento não é um golpe de defesa: é perceber o ambiente, identificar riscos e evitar que uma situação de confronto aconteça.

“A aluna chega até o polo e ensinamos, primeiro, como visualizar uma possível agressão. Trabalhamos todas essas técnicas para evitar ter que ir para um confronto”, enumera Lívia Senna, professora de tatame.

“Mas, se elas precisarem, aí sim a gente começa a usar as técnicas de autodefesa, que são desvencilhamento de punho, de puxão de cabelo, agarrão por trás”

Lívia Senna, professora

No polo do Itanhangá, onde a profissional atua, cerca de 40 mulheres participam das atividades. As aulas têm uma hora e meia de duração e misturam preparação física, técnicas de defesa e rodas de conversa sobre direitos e prevenção. 

Lívia Senna, professora de tatame | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“As mulheres já chegam aqui com o peito mais estufado, olhando para cima, com uma outra fisionomia, mais autoconfiante. A partir do momento que ela já tem uma postura diferente, que ela já se impõe melhor, [o homem] olha e fala: ‘essa já pode ter uma resistência’.” 

As histórias por trás das agressões

Entre as participantes do programa está Antônia Alves, de 57 anos. Hoje cuidadora de crianças, ela carrega uma história marcada por um relacionamento abusivo que começou ainda na juventude.

Antes de chegar ao Rio, Antônia viveu em Minas Gerais, onde começou a trabalhar cedo e deixou os estudos de lado. Aos 16 anos, iniciou um relacionamento que, segundo ela, se transformou em um ciclo de violência física e psicológica.

“Eu trabalhava em casa de família. Saí da sala de aula bem cedo, tinha uns 13 anos e comecei a trabalhar e receber por aquilo. Aos 16 anos, comecei a namorar e virei dona de casa. O relacionamento era bem abusivo, sofri muita violência doméstica, física, mental. E prolonguei com esse parceiro uns 7 anos”, compartilha.

Antônia viveu em Minas Gerais, onde começou a trabalhar cedo e deixou os estudos de lado | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

A mudança veio depois de uma agressão mais grave e de uma oportunidade profissional que surgiu no Rio. 

“Tive uma briga feia com ele. Ele me agrediu, me machucou muito. Sem contar que, mentalmente, eu já estava machucada há muito tempo. Foi então que surgiu uma oportunidade de trabalho aqui no Rio, eu ouvi na rádio lá da cidade, e me inscrevi para vir trabalhar aqui. Fui escolhida e decidi vir”, conta.

No Empoderadas, Antônia encontrou não apenas técnicas de defesa, mas também uma rede de apoio que ajudou a reconstruir sua confiança.

“Quando você se socializa com outras mulheres, abre a mente, você ouve. Ouve a luta, ouve as professoras. Certo dia, eu disse: ‘Tenho vontade de voltar à sala de aula’.  Elas me deram a maior força e acrescentaram: ‘se precisar, estamos aqui para te ajudar’”, finaliza.

“Você cresce, você vive, você é alguém, entendeu? Eu me sinto alguém capacitada para discutir um assunto”

Antônia Alves, cuidadora de crianças e participante do projeto

A venezuelana Yasmin Escalona, de 21 anos, também encontrou nas outras mulheres uma ferramenta para reconstruir a própria vida. Ela chegou ao Brasil acompanhada do namorado e percebeu uma mudança de comportamento quase que imediata no rapaz.

“Passamos por todo o processo de integração aqui no Brasil, e, quando chegamos, ele parecia outra pessoa. Era agressivo, violento, grosso comigo. Eu não percebia esses comportamentos. Até que um dia, ele me agrediu fisicamente, do nada. De manhã ele acordou e me bateu. Nunca tinha acontecido isso antes”, detalha.

Ela conseguiu sair de casa, denunciou o casos e recebeu uma medida protetiva. Hoje, tenta reerguer a vida.

“Eu tive que sair correndo de casa, porque ninguém, nenhum dos vizinhos, me ajudou. Nesse mesmo dia eu fui na delegacia, fiz uma denúncia contra ele, consegui uma medida protetiva e não o vi mais. Hoje, faço aula de autodefesa”.

Yasmin Escalona (direita) durante a aula | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Acolhimento para romper ciclos de violência

Além das atividades nos tatames, o Empoderadas atua com uma equipe multidisciplinar para atender mulheres que chegam ao programa em diferentes estágios de vulnerabilidade.

O acolhimento envolve atendimento psicológico, orientação jurídica e acompanhamento social, incluindo apoio para mulheres que precisam acessar benefícios ou reorganizar a própria vida após situações de violência.

“Auxiliamos as mulheres a compreender o seu direito e denunciar a violência. Solicitando, por exemplo, medidas protetivas, fazendo o acompanhamento até às delegacias”, detalha Alexandra Gonçalvez, advogada do programa.

Érica explica que muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos também por dependerem financeiramente dos parceiros.

“Nós ofertamos ursos para elas, para que tenham essa possibilidade de alcançar a independência econômica e, sendo assim, seguir nas suas caminhadas. Sempre existe uma equipe muito técnica por trás (5:55) para a gente tentar fazer da melhor forma o acolhimento e poder devolver a dignidade para essa mulher”, enfatiza.

Ao longo dos anos, a equipe acumulou relatos de mulheres que chegaram desacreditadas e conseguiram reconstruir suas histórias. Érica lembra o caso de uma participante que denunciou abusos cometidos pelo próprio pai e que, após o acolhimento da equipe, conseguiu comprovar a violência.

“A família chegou a diagnosticá-la com esquizofrenia. Quando o pai percebeu a gravidez, já tentou forçar um aborto, com quase sete meses de gestação, então era de alto risco. E ela falou que estava com medo de morrer por conta disso, então, acabou levando a gestação à frente e teve essa criança. E aí, ela chega para a gente e, imediatamente, eu falo: ‘Eu acredito em ti’. Aquilo a travou”, detalha Érica.

Hoje, segundo ela, essa mesma mulher passou pelos cursos do programa e se tornou uma das professoras da iniciativa.

Educação como caminho para mudar a cultura da violência

Para a fundadora do Empoderadas, combater a violência contra a mulher exige uma transformação que começa antes dos relacionamentos abusivos e das agressões. O programa também realiza ações em escolas e instituições parceiras, levando debates sobre respeito, igualdade de gênero e prevenção para meninos e meninas.

Equipe acumulou relatos de mulheres que chegaram desacreditadas e conseguiram reconstruir suas histórias | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“A gente precisa mostrar que o menino tem obrigação não só de respeitar a menina, mas de respeitar o menino, a professora, os pais. De ter o respeito como base.”, avalia.

“Precisamos conscientizar a nossa população de que esse problema não é um problema das mulheres apenas. Ele é um problema de toda a sociedade.”

Érica Paes

Como participar

O Programa Empoderadas estabelece um processo humanizado para acolhimento de mulheres vítimas de violência. O primeiro contato pode ser realizado diretamente pela vítima, que pode comparecer a um dos polos ou utilizar diferentes canais de comunicação como e-mail, telefone e redes sociais.

Todas os locais de atendimento estão disponíveis nesse link.

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