O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde que esse crime passou a ser tipificado na legislação brasileira, em 2015. Ao longo do ano passado, 1.571 mulheres foram assassinadas em crimes motivados pela condição de gênero, uma alta de 4% em relação aos 1.504 casos contabilizados em 2024. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O levantamento revela um contraste preocupante. Enquanto o país alcançou o menor número de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2012, os feminicídios seguiram trajetória oposta e atingiram um novo recorde.
Na prática, a estatística representa uma média de quatro mulheres mortas por dia em todo o país por razões ligadas à violência doméstica, familiar ou ao menosprezo e discriminação em razão do gênero.
Pelo Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulheres cometido em contexto de violência doméstica e familiar ou motivado pela condição de mulher.
Especialistas apontam aumento real dos casos
Para a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, o crescimento não pode ser explicado apenas pelo aperfeiçoamento dos registros policiais.
“Se a gente estivesse lidando apenas com a melhoria do registro, a gente ia esperar uma estabilização após alguns anos. Mas o que a gente tem observado é um crescimento que segue de forma contínua ao longo desse período de monitoramento”, afirma a especialista.
Segundo ela, o avanço de outros indicadores de violência contra a mulher reforça a percepção de que o país enfrenta um agravamento desse tipo de crime.
“O que nos leva para a hipótese de que estamos lidando com um cenário de piora em relação à defesa dos direitos das mulheres”, diz Brandão.
A pesquisadora também destaca que a violência doméstica continua sendo impulsionada por desigualdades estruturais e pela dificuldade do Estado em interromper ciclos de agressão antes que eles terminem em morte.
“Quando estamos falando de um aumento da letalidade nesse contexto, a gente está diante de um cenário de dificuldade em interromper trajetórias de violência que já são conhecidas pelas instituições, e isso também aponta para limites na capacidade do próprio Estado de prevenir, de proteger e oferecer uma resposta, antes que a violência alcance seu desfecho fatal”, afirma.
Brasil registra menor número de mortes violentas da série histórica
Apesar do aumento dos feminicídios, o cenário geral da violência letal apresentou melhora.
O Brasil contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, uma redução de 8% em comparação com as 44.126 registradas no ano anterior. Trata-se do menor número desde 2012, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública iniciou o levantamento.
As mortes violentas intencionais englobam homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial.
Pela primeira vez, a taxa nacional ficou abaixo de 20 mortes por 100 mil habitantes, atingindo 19,1. Em 2024, o índice era de 20,8.
A redução foi observada em 20 das 27 unidades da federação. Entre os estados com maiores quedas destacam-se Amazonas, com redução de 32,5%; Rio Grande do Sul, com 25,7%; e Mato Grosso, com 23,2%.
Para David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados consolidam uma tendência de queda da violência letal observada nos últimos anos.
“A importante redução de mortes violentas intencionais entre 2024 e 2025 em mais de 8% é um dado bastante significativo. Consolida uma tendência de redução que a gente vem acompanhando desde 2018 nas estatísticas, praticamente ininterrupta”, diz David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
“A gente está diante de um fenômeno a ser comemorado dentro da política de segurança pública do Brasil”.
Ainda assim, ele ressalta que permanecem desafios importantes.
“Dentro do número geral de mortes violentas intencionais, ainda tem o feminicídio, que cresceu, e as mortes decorrentes de intervenção policial, que são algo bastante desafiador dentro dessa redução da violência no território brasileiro”, afirma.
Violência contra mulheres avança em diversos indicadores
Além do recorde de feminicídios, o Anuário aponta aumento em praticamente todos os principais indicadores de violência contra as mulheres.
As tentativas de feminicídio cresceram 6% em 2025. As agressões decorrentes de violência doméstica aumentaram 2,6%, enquanto os casos de violência psicológica tiveram alta de 17%.
Também foram registrados aumentos de 17% nos descumprimentos de medidas protetivas, de 30% nos casos de perseguição (stalking) e de 0,5% nas ocorrências de ameaça.
Segundo o levantamento, para cada feminicídio consumado foram registradas três tentativas de assassinato de mulheres ao longo do ano.
Outros indicadores também chamam atenção
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também revelou outros dados relevantes sobre a segurança pública no país.
As mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 5%, enquanto o número de policiais mortos caiu 3%.
Os registros relacionados à produção, posse ou distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil aumentaram 25%.
Entre crianças e adolescentes, os casos de bullying e cyberbullying cresceram mais de 60% após a criação de um tipo penal específico para essas condutas em 2024.
O estudo aponta ainda redução de 54% no número de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas nos últimos nove anos. Atualmente, são 12,2 mil jovens nessa condição, dos quais 93% são meninos, 74% negros e 76% têm entre 16 e 18 anos. Os atos infracionais mais frequentes são roubo (29%) e tráfico de drogas (28%).
No sistema prisional, a população carcerária aumentou 6% e alcançou 964 mil pessoas. Mantida a tendência atual, o Fórum estima que o Brasil poderá ultrapassar a marca de um milhão de presos já em 2027.
Outro dado destacado pelo levantamento é o número de pessoas autorizadas a possuir armas de fogo. Atualmente, existem 2,1 milhões de empresas e cidadãos com autorização, sendo cerca de um milhão registrados como CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores). Ao todo, há 1,6 milhão de armas cadastradas, e três em cada dez registros estão vencidos.





Deixe um comentário