MPF propõe reparação histórica a escravizados que reflorestaram o Parque Nacional da Tijuca no século XIX

Os 11 trabalhadores responsáveis por reflorestar área que hoje regula o clima e abastece o Rio de Janeiro podem ganhar um memorial

Mais de 150 anos após o início do reflorestamento da Floresta da Tijuca, o Ministério Público Federal (MPF) quer garantir um reconhecimento formal aos responsáveis por esse feito histórico: um grupo de 11 pessoas escravizadas que plantaram as primeiras mudas da mata que hoje representa um dos maiores legados ambientais do Rio de Janeiro. A proposta inclui a criação de um memorial permanente no Parque Nacional da Tijuca, com a divulgação dos nomes e biografias dos trabalhadores.

Em ofício enviado no último dia 3 ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o MPF sugere a construção de um espaço de memória dedicado exclusivamente a Eleutério, Constantino, Manoel, Mateus, Leopoldo, Maria, Sabino, Macário, Clemente, Antônio e Francisco — os nomes que, apesar de centrais na história da recuperação ambiental do Rio, permanecem quase desconhecidos.

— Não seria um espaço de memória sem precedentes porque há outros no Brasil. Mas seria o primeiro dedicado exclusivamente ao trabalho dos povos escravizados. Hoje, na entrada do centro de visitantes do setor Floresta da Tijuca, há uma estátua pequena com uma placa discreta, o que é incompatível com a importância histórica dessas pessoas. Nosso objetivo é que eles sejam lembrados e homenageados — diz o procurador da República Sergio Gardenghi Suiama.

— Se houver interesse, acompanhado de um estudo mais aprofundado, podemos ser colaboradores, inclusive — continuou.

Em resposta ao ofício, o ICMBio informou, por meio de nota, que a administração do parque “irá avaliar as sugestões contidas neste documento”, considerando a iniciativa “alinhada aos seus objetivos de auxiliar, dentro das ações possíveis, a promoção da reparação histórica”. A nota destacou ainda que a atual homenagem existente — uma estátua com uma placa simbólica — “passará por melhorias e atualização”.

Reconhecimento oficial à vista

A proposta do MPF está ancorada em uma medida aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Trata-se do Projeto de Lei 605/2023, de autoria da deputada estadual Dani Monteiro (PSOL), que inclui os 11 escravizados no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio. O texto foi aprovado por unanimidade e aguarda agora a sanção do governador Cláudio Castro (PL).

— O projeto nasce num dia de calorão, durante uma visita à floresta, a caminho de uma cachoeira, quando vi a estátua que homenageia os escravizados responsáveis por esse feito histórico. É um capítulo invisibilizado da nossa História. Escravizados reflorestaram uma região que é o pulmão da cidade. São verdadeiros heróis do meio ambiente — afirma a parlamentar.

O legado verde de um trabalho invisibilizado

A origem da atual floresta remonta ao século XIX, quando o desmatamento provocado pela expansão cafeeira levou à destruição da vegetação nativa, ao esgotamento dos mananciais e à proliferação de doenças no Rio de Janeiro. Em 1862, o imperador Dom Pedro II ordenou a desapropriação de terras e a realização de um projeto de reflorestamento para recuperar as nascentes e conter a crise hídrica.

Coube a 11 pessoas escravizadas o trabalho de reflorestar os morros da Tijuca e das Paineiras. Entre 1862 e 1894, foram plantadas cerca de 185 mil mudas — 155 mil na Tijuca e 30 mil nas Paineiras — em um processo meticuloso de replantio.

— Entre 1862 e 1894, foram cultivadas em torno de 155 mil mudas na Tijuca e cerca de 30 mil nas Paineiras. E não foi algo feito de qualquer maneira. Cada muda deveria estar a cinco palmos de distância uma da outra, e eram os próprios escravizados que cuidavam de todo o processo. Eles privilegiaram espécies nativas e madeira de lei e transportaram as mudas até áreas muitas vezes de difícil acesso — explica o pesquisador e professor de biologia da PUC-Rio Gabriel Sales.

Segundo Sales, a floresta replantada por essas pessoas cobre hoje cerca de 14% da área do Parque Nacional da Tijuca. Sem essa intervenção, especialistas estimam que as temperaturas no Rio poderiam ser de 4ºC a 6ºC mais altas do que são hoje.

— Os benefícios ecológicos, tanto na regulação hídrica, essencial para a época, quanto no conforto térmico oferecido pela vegetação, são frutos direto desse trabalho. Além disso, a floresta se tornou um espaço sociocultural importante para o convívio de cariocas e turistas com a natureza — afirma o biólogo.

A proposta de construção do memorial é, para os autores da iniciativa, uma tentativa de devolver a essas 11 figuras o lugar que lhes foi historicamente negado: o de protagonistas de um projeto que mudou a paisagem, o clima e a qualidade de vida da cidade do Rio de Janeiro.

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