As mensagens e documentos encontrados pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliaram os questionamentos sobre a relação do empresário com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material apresentado nesta terça-feira (1º) reúne referências a encontros, pedidos feitos em momentos críticos para o banco e negociações envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.
Entre os elementos está uma segunda proposta de contrato, no valor de R$ 50 milhões, que previa o pagamento de parte dos honorários por meio de cotas de um jatinho e de um helicóptero. O escritório afirma que a proposta não foi aceita e que nenhum segundo contrato foi assinado.
O caso ganhou uma dimensão ainda maior nesta terça-feira (1º). Relator das investigações sobre o Master no Supremo, André Mendonça pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, uma sessão presencial para que o plenário discuta as mensagens que, segundo a PF, apontam para uma interlocução entre Vorcaro e Moraes.
Os documentos levantam questionamentos sobre a proximidade entre os dois, mas é necessário distinguir o conteúdo encontrado pela PF de uma eventual comprovação de irregularidade. As mensagens divulgadas, isoladamente, não demonstram que Moraes tenha atuado ilegalmente em benefício de Vorcaro ou do Master.
Vorcaro buscava ajuda antes da prisão
Parte das mensagens que mais chamaram atenção foi enviada durante a crise do Banco Master e nos dias anteriores à prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
Em uma delas, Vorcaro pergunta ao interlocutor identificado como Moraes se deveria estar “fora” do país na segunda-feira seguinte. Dois dias depois, o empresário foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos.
Minutos antes da prisão, Vorcaro também enviou uma mensagem a Moraes informando que estava indo se encontrar com investidores estrangeiros e que permanecia disponível para contato, segundo o relatório produzido pela PF.
Três dias antes da prisão, o ex-banqueiro escreveu ao ministro: “Tenho gratidão da minha vida a você”. O material divulgado não esclarece a razão do agradecimento.
Outro conjunto de mensagens envolve um pedido para que um interlocutor buscasse a atuação de “Andrei e Paulo”. A suspeita da PF é de que o destinatário fosse Moraes e que os nomes fossem referências ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Até agora, porém, o material divulgado não demonstra que Rodrigues ou Gonet tenham realizado a intervenção pretendida pelo empresário.
PF aponta indícios de pelo menos seis encontros
A PF também identificou, a partir da análise do celular de Vorcaro, indícios de pelo menos seis encontros entre o empresário e Moraes.
Segundo as informações divulgadas, os primeiros contatos teriam sido articulados pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.
Em outro diálogo, Vorcaro escreveu a um diretor do Banco Central que estava com Moraes e afirmou que o ministro chamaria “Paulo” para “dar um aperto”. A mensagem integra o material analisado pela investigação, mas não comprova que a iniciativa mencionada tenha efetivamente ocorrido.
Contrato de cerca de R$ 130 milhões
Uma das principais conexões conhecidas entre o Master e a família de Moraes é o contrato firmado com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, ligado a Viviane Barci de Moraes.
O acordo tinha valor de cerca de R$ 130 milhões. A Polícia Federal identificou metadados indicando que Alexandre de Moraes fez alterações em uma minuta do documento.
O escritório confirmou que o ministro teve acesso à minuta, mas explicou que Moraes foi consultado, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento jurídico para que a banca aceitasse o Banco Master como cliente.
Mensagens encontradas pela PF também mostram Vorcaro cobrando funcionários, em março de 2024, sobre pagamentos ao escritório. Em uma delas, ele orientou que os repasses não poderiam atrasar “nem um dia” e autorizou que fossem feitos “sem nota, do jeito que for”, segundo a investigação.
Em abril de 2025, Vorcaro determinou que o contrato físico tivesse acesso restrito dentro da instituição, com a orientação de que “ninguém tenha acesso” ao documento. Posteriormente, questionou um pagamento realizado por Pix e indicou preferência pelas TEDs utilizadas anteriormente.
Segundo negócio previa jatinho e helicóptero
A investigação encontrou ainda uma minuta de um segundo contrato, de R$ 50 milhões, envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes.
Pelo documento localizado pela PF, R$ 40 milhões seriam pagos por meio de cotas de duas aeronaves: um avião Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas aos voos.
As mesmas aeronaves aparecem em mensagens trocadas entre Vorcaro e pessoas ligadas à Prime Aviation.
Em uma das conversas, ao tratar da transferência das aeronaves, Vorcaro afirmou a um advogado que “os ativos são deles já”.
A PF também encontrou diálogos sobre a possibilidade de colocar os ativos em uma empresa chamada “Lux”. O material divulgado não esclarece se a referência seria ao Lex – Instituto de Estudos Jurídicos, ligado a Viviane e aos filhos.
Escritório diz que proposta não foi aceita
O escritório de Viviane afirma, porém, que esse segundo negócio não chegou a ser concretizado.
Segundo a banca, apenas o primeiro contrato com o Banco Master foi efetivamente firmado. O escritório negou ter ocorrido qualquer “transferência ou substituição do contrato” e afirmou que a proposta apresentada por Vorcaro envolvendo as aeronaves não foi aceita.
“Nada foi assinado e o contrato original foi extinto com a liquidação do banco, o que encerrou qualquer vínculo com a instituição”, informou o escritório.
Essa distinção é importante: a PF encontrou a minuta e mensagens discutindo o negócio, mas, segundo a versão da banca, não houve assinatura nem execução desse segundo contrato.
PF encontra mensagens sobre risco reputacional
Os investigadores também localizaram diálogos que indicam preocupação de pessoas ligadas a Vorcaro com a exposição provocada pelos pagamentos.
Em uma conversa, um advogado menciona a necessidade de “adotar uma estrutura diferente para a propriedade dos ativos ou não”. A investigação relaciona a discussão ao chamado “risco reputacional”.
A preocupação também aparece em mensagens relacionadas ao primeiro contrato. Vorcaro teria classificado o acordo com o escritório como o “mais importante que temos”.
Outro elemento encontrado pela PF envolve o uso de uma das aeronaves citadas nas negociações. Segundo a investigação, Moraes utilizou, ao menos em julho de 2025, o avião de prefixo PP-NLR, pertencente à Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro foi sócio.
O uso da aeronave, assim como os demais elementos encontrados, integra o conjunto de informações analisado pela investigação e não representa, isoladamente, comprovação de irregularidade.
Moraes já contestou mensagens
Alexandre de Moraes já havia contestado anteriormente reportagens sobre mensagens atribuídas a conversas com Vorcaro.
Quando diálogos relacionados ao dia da prisão do empresário vieram a público, o ministro afirmou que não havia recebido as mensagens citadas e classificou a associação de seu nome ao conteúdo como uma “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo.
As novas informações, entretanto, ampliaram a discussão sobre a extensão da relação entre o empresário e o ministro.
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) defendeu nesta terça-feira uma “apuração rigorosa” dos fatos e manifestou preocupação com a repercussão institucional do episódio.
PGR pede anulação de decisão de Mendonça
A Procuradoria-Geral da República, porém, se posicionou contra o aprofundamento da apuração determinado por André Mendonça.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação da decisão do ministro relacionada à apuração sobre Alexandre de Moraes no caso Master. Segundo Gonet, a ordem para aprofundar a investigação ultrapassou a competência do relator. A PGR também pediu a extinção do procedimento.
O posicionamento acrescenta uma disputa processual ao caso. Além do conteúdo das mensagens e documentos encontrados no celular de Vorcaro, passa a estar em discussão a validade do caminho adotado para aprofundar a apuração sobre Moraes.
O pedido da PGR não representa, por si só, uma conclusão sobre o conteúdo das mensagens ou sobre a relação entre Vorcaro e Moraes. A manifestação questiona a validade da decisão de Mendonça e defende o encerramento do procedimento.
Com isso, o caso reúne diferentes pontos que ainda precisam ser esclarecidos: a extensão dos contatos entre Vorcaro e Moraes, o contexto dos encontros indicados pela PF, o significado dos pedidos feitos pelo empresário, as circunstâncias das negociações com o escritório de Viviane e se houve alguma atuação do ministro em benefício do ex-controlador do Master.







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