Candidatos do Missão, partido criado e liderado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), incentivam apoiadores a produzir e espalhar vídeos políticos nas redes sociais enquanto apresentam a monetização das plataformas como uma possibilidade de ganhar dinheiro. A estratégia pode abrir uma nova frente de discussão na Justiça Eleitoral.
Segundo reportagem do Intercept Brasil, o candidato à Presidência Renan Santos e o deputado federal Kim Kataguiri, que tenta a reeleição, aparecem em vídeos promovendo o curso online “Máquina de Cortes”, comercializado pela Valete Plus, plataforma ligada ao MBL.
O treinamento promete ensinar usuários a criar vídeos curtos e transformá-los em fonte de renda. O modelo é voltado especialmente para TikTok, Reels do Instagram e YouTube Shorts.
A questão jurídica surge porque a legislação eleitoral estabelece restrições à remuneração, monetização ou concessão de vantagem econômica em troca da divulgação de propaganda eleitoral.
Renan fala em trabalhar divulgando conteúdo
Em um dos vídeos obtidos pelo Intercept Brasil, Renan Santos apresenta a “Máquina de Cortes” e explica a estratégia de produção de vídeos curtos.
“Dado que nós sabemos que esses vídeos curtos vão continuar […] e que eles podem ser usados para o bem, nós decidimos pensar em montar a nossa própria máquina, a nossa própria engenharia”, afirma o candidato.
O curso divulgado por Renan promete ganhos mensais entre R$ 1.050 e R$ 4.850. Segundo o Intercept, a página que hospedava o vídeo saiu do ar após a reportagem procurar o MBL e o Missão para pedir posicionamento. Uma cópia, porém, havia sido arquivada.
Em outro momento da apresentação, Renan relaciona diretamente a formação à possibilidade de trabalho.
“O nosso objetivo aqui é montar uma espécie de uma faculdade que te garanta um emprego tão logo você se forme, para você aprender a fazer cortes, construí-los e trabalhar conosco divulgando o nosso conteúdo”, diz.
Kim também divulga curso
Kim Kataguiri aparece em outra gravação promovendo o treinamento e associando a produção dos vídeos à obtenção de renda.
“Quer ganhar R$ 2 [mil], R$ 3 mil por mês divulgando as nossas ideias, […] militando em prol daquilo que você acredita ao mesmo tempo em que você consegue fazer uma renda extra?”, afirma o deputado no vídeo.
Segundo a reportagem, o curso é vendido por R$ 169,68 e possui 38 aulas sobre roteiro, edição e técnicas para aumentar o alcance das publicações.
O próprio Kim participa como professor. Dennys Sobrinho, assessor parlamentar e administrador do canal do deputado no YouTube, também ministra aulas e ensina estratégias de monetização e distribuição de conteúdo.
Fábrica de cortes funciona no Discord
A estrutura vai além do curso. De acordo com o Intercept, o Missão mantém pelo menos dois servidores na plataforma Discord destinados à organização dos apoiadores.
Um deles recebeu o nome de “Fábrica de Cortes da Missão”. Os participantes recebem links para vídeos brutos, pacotes de memes, trilhas sonoras e outras orientações para produzir conteúdos.
As regras determinam ainda que os vídeos promovam políticos e porta-vozes do Missão e que os perfis oficiais sejam marcados nas publicações.
Há espaços específicos para conteúdos relacionados a Renan Santos, Kim Kataguiri, Arthur do Val, Guto Zacarias e Amanda Vettorazzo.
Partido criou ranking por visualizações
Outra ferramenta adotada pelo Missão é a gamificação da produção de conteúdo.
Uma página oficial permite que criadores conectem seus perfis para que o desempenho dos vídeos seja acompanhado. A cada 200 visualizações, o usuário recebe um “XP da Missão”, referência aos pontos de experiência comuns em jogos.
Os resultados alimentam um ranking público dos canais com maior desempenho.
A reportagem mostra ainda que a expectativa de monetização aparece nas conversas dos próprios participantes. Usuários discutem quanto tempo precisam para cumprir os requisitos das plataformas e começar a receber dinheiro pelas visualizações.
Caso Marçal vira referência
A discussão jurídica ganha peso por causa do precedente envolvendo Pablo Marçal na eleição para a Prefeitura de São Paulo em 2024.
Naquela campanha, Marçal utilizou “campeonatos de cortes” para estimular a circulação de vídeos nas redes sociais. Posteriormente, o TRE-SP o declarou inelegível, enquadrando a estratégia como uso indevido dos meios de comunicação.
Há, porém, uma diferença relevante entre os dois casos.
No modelo de Marçal, havia oferta de prêmios para criadores que conseguissem viralizar conteúdos. No caso do Missão, segundo a reportagem, os candidatos não prometem pagamentos diretos. O ganho ocorreria por meio da monetização feita pelas próprias plataformas digitais.
Especialistas veem risco, mas fazem ressalva
A advogada eleitoral Carla Maria Nicolini, integrante da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), afirmou ao Intercept que o ponto central para a Justiça pode não ser apenas quem efetivamente deposita o dinheiro.
“O fator decisivo não é quem literalmente deposita o dinheiro, mas se existe estímulo e organização por trás”, afirmou.
Na avaliação da especialista, estruturas com desafios, rankings, hashtags padronizadas e acompanhamento de resultados podem representar “risco real” de punição eleitoral.
Também integrante da Abradep, a advogada Juliana Noda ponderou que o precedente de Marçal não pode ser automaticamente aplicado ao Missão. No caso do empresário, havia evidências de participação de uma de suas empresas nos pagamentos.
O Intercept informou ter procurado o Missão, o MBL, Renan Santos, Kim Kataguiri e outros personagens mencionados na reportagem, mas não recebeu resposta até a publicação.







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