O presidente Javier Milei sofreu mais uma derrota política nesta quarta-feira (17), quando a Câmara dos Deputados da Argentina derrubou seus vetos a leis que garantem financiamento extra para universidades públicas e para o Hospital Garrahan, principal referência pediátrica do país. A medida, que ainda precisa ser ratificada pelo Senado, representa um revés histórico para o governo ultraliberal, que enfrenta crescente pressão nas ruas e no Parlamento.
As normas vetadas preveem a atualização do orçamento universitário com base na inflação desde 2023 e reajustes salariais para professores e funcionários administrativos. Também estabelecem a declaração de emergência sanitária, destinando recursos ao hospital infantil.
Nas votações, Milei perdeu por ampla margem. No caso das universidades, foram 174 votos contra 67 a favor do governo. Já na rejeição do veto ao financiamento do Garrahan, a diferença foi ainda maior: 181 a 60.
Protestos e clima de tensão
A sessão coincidiu com a Marcha Federal Universitária, que levou dezenas de milhares de estudantes, professores, médicos e sindicalistas às ruas em defesa da educação e da saúde públicas. Do lado de fora do Congresso, a multidão comemorou o resultado com gritos de “a pátria não se vende” e cartazes contra os cortes orçamentários.
“O povo está de pé e voltou a dizer a Milei que as universidades não se vendem e os hospitais não se desfinanciam”, declarou o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, uma das principais vozes da oposição.
Já o peronista Germán Martínez, líder do bloco opositor, acusou o presidente de impor uma “motosserra selvagem” que reduziu em mais de 30% o poder de compra dos trabalhadores da educação. Do lado governista, o deputado Santiago Santurio rebateu afirmando que a reversão dos vetos “quebrará impostos e gerará dívidas”.
Crise política e econômica
Milei enfrenta seu pior momento desde a posse, em dezembro de 2023. No início do mês, o Congresso já havia revertido um veto presidencial sobre fundos para pessoas com deficiência. Além disso, o governo sofreu derrota eleitoral na província de Buenos Aires, onde perdeu por 14 pontos para o peronismo.
Com inflação de 211% em 2023, 118% em 2024 e quase 20% até agosto deste ano, o presidente governa ainda com o orçamento de 2023, sem reajustes proporcionais à escalada de preços. O plano orçamentário apresentado para 2026, que prevê mais verbas para saúde e educação, foi considerado insuficiente por reitores universitários, que o acusam de aprofundar o ajuste fiscal.
Próximos passos
Para que as leis entrem em vigor, o Senado também precisa rejeitar os vetos por maioria de dois terços. Caso isso ocorra, será a primeira vez que Milei acumula derrotas legislativas consecutivas desde o início do mandato.
Nas redes sociais, o presidente reagiu com ataques à oposição, críticas à imprensa e compartilhamento de mensagens de apoiadores que acusam o “sistema” de boicotar seu governo.
A crise política ocorre a pouco mais de um mês das eleições legislativas nacionais, marcadas para 26 de outubro, quando a correlação de forças no Congresso poderá mudar.






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