Metanol: Químico explica como substância age no corpo e faz alerta após aumento de casos pelo país

Contaminação ocorre de forma silenciosa, geralmente por meio de bebidas adulteradas que misturam o metanol ao etanol para baratear a produção. Pela semelhança das substâncias, a fraude costuma passar despercebida pelo consumidor

A crise de intoxicação por metanol tem mobilizado autoridades em todo o país. Em São Paulo, onde o problema ganhou mais visibilidade, já são 52 casos suspeitos e uma morte confirmada, além de outras cinco em investigação. Em Pernambuco, duas mortes também podem ter relação com a substância. 

Diante do risco, a Prefeitura do Rio endureceu a fiscalização e, na última quinta-feira (2), deu início a uma série de vistorias, visitando 61 estabelecimentos em diferentes bairros, interditando três lojas e apreendendo bebidas irregulares. O prefeito Eduardo Paes (PSD) reforçou a necessidade de atenção da população e tornou obrigatória a notificação de casos suspeitos.

Para traduzir o perigo que gerou toda essa mobilização, o químico e reitor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Rafael Almada, publicou um vídeo explicando como o metanol age no corpo e por que ele representa um risco tão grave e imediato à saúde.

Como o metanol ataca o organismo

Segundo Almada, o perigo está na forma como o organismo humano processa o metanol. De acordo com o especialista, ao ser metabolizada, a substância gera compostos tóxicos: primeiro o formaldeído e depois o ácido fórmico — o mesmo encontrado em picadas de formiga.

“O ácido fórmico ataca as mitocôndrias das células. Isso pode causar desde náusea, vômito, dor intensa até cegueira e falência de órgãos”, afirma. A retina, por ter alta concentração de mitocôndrias, é especialmente afetada, o que explica a perda de visão em muitas vítimas.

A contaminação ocorre de forma silenciosa, geralmente por meio de bebidas adulteradas que misturam o metanol ao etanol para baratear a produção. Como ambos são semelhantes em cheiro e aparência, a fraude costuma passar despercebida pelo consumidor.  

“É fundamental desconfiar de bebidas muito baratas, vendidas sem rótulo ou em recipientes improvisados”, alerta o químico. “Metanol não é álcool de beber: é usado como solvente industrial e combustível. No corpo humano, age como veneno”, completa.

Os sintomas incluem visão borrada, tontura, dor abdominal e respiração acelerada. Em situações mais graves, pode causar cegueira permanente, falência de órgãos e até morte. A gravidade depende da quantidade consumida e da rapidez do atendimento.

Rio reforça fiscalização e alerta a população

Além das vistorias, a Secretaria Municipal de Saúde publicou nesta sexta-feira (3) a Resolução SMS 6592, tornando obrigatória a notificação imediata de qualquer caso suspeito ou confirmado de intoxicação por metanol. A medida exige que hospitais e clínicas das redes pública e privada devem informar os casos ao Sistema de Vigilância em Saúde (SVS), permitindo um mapeamento rápido do surto e ações de contenção. 

Na quarta-feira (1), Paes também publicou um decreto endurecendo as regras contra a falsificação de bebidas, prevendo advertências, multas, suspensão temporária das atividades e até cancelamento definitivo do registro de estabelecimentos irregulares. 

No âmbito estadual, a reação veio do legislativo. Tramita na Alerj um projeto de lei para instituir vistorias semestrais em bares, restaurantes e distribuidoras por todo o estado fluminense. A proposta é que o Procon-RJ, em parceria com outros órgãos, intensifique o combate à venda de produtos falsificados, com punições que vão de multas à cassação do alvará.

Investigação federal e busca por antídotos

A dimensão nacional das intoxicações levou o Ministério Público Federal (MPF) a instaurar uma investigação preliminar para apurar ocorrências envolvendo o metanol em São Paulo, Pernambuco e no Distrito Federal. O caso do rapper Hungria, internado em Brasília com suspeita de intoxicação, deu ainda mais visibilidade à gravidade da situação.

Paralelamente, o governo federal corre para importar o fomepizol, antídoto considerado referência para combater o envenenamento por metanol, mas que não está disponível no Brasil. A Anvisa já acionou agências regulatórias internacionais para acelerar a compra, enquanto o Ministério da Saúde montou uma Sala de Situação para coordenar as ações de vigilância e análise de amostras em todo o país. A medida visa equipar os hospitais para um tratamento mais eficaz contra o metanol, que não tem dose segura e qualquer suspeita exige ação imediata.

A orientação da Saúde carioca é que qualquer suspeita seja encaminhada imediatamente às unidades de saúde. Quanto antes o paciente for atendido, maiores são as chances de reversão da infecção.

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