Meta inicia demissões globais em massa por e-mail e acelera reestruturação bilionária focada em IA

Empresa de Mark Zuckerberg corta milhares de empregos, amplia aposta em IA e enfrenta tensão interna entre trabalhadores do Facebook, Instagram e WhatsApp

A Meta iniciou nesta quarta-feira (20) uma nova rodada de demissões em massa como parte do processo de reestruturação da companhia em torno da inteligência artificial, informa o The New York Times. Os primeiros avisos foram enviados por e-mail durante a madrugada para trabalhadores da empresa em Singapura, marcando o início de um corte que deve atingir cerca de 8 mil trabalhadores em diferentes países.

A companhia, controladora de plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp, já havia informado na terça-feira (19) que promoveria novas dispensas em larga escala. Trabalhadores nos Estados Unidos, Reino Unido e outros escritórios globais começaram a ser notificados ao longo do dia, conforme os respectivos fusos horários.

O movimento encerra semanas de tensão interna na empresa. Em abril, a Meta já havia anunciado a eliminação de cerca de 10% da força de trabalho. Poucos dias antes das novas demissões, a companhia também comunicou que aproximadamente 7 mil trabalhadores seriam realocados para projetos ligados à inteligência artificial.

Enquanto isso, os escritórios da empresa amanheceram praticamente vazios. Segundo relatos de trabalhadores ouvidos pelo jornal The New York Times, a chefe global de recursos humanos da Meta, Janelle Gale, orientou os empregados a trabalharem remotamente durante o processo de desligamentos.

Nos corredores da companhia, o clima era de insegurança e revolta.

Trabalhadores relataram que cartazes contra o novo programa de rastreamento de dados internos para treinamento de sistemas de IA foram espalhados pelos escritórios. Outros empregados passaram os últimos dias recolhendo itens como carregadores de notebook e lanches gratuitos, temendo perder o emprego antes do fim da semana.

Meta acelera aposta bilionária em IA

A onda de demissões ocorre em meio à transformação radical conduzida pelo CEO Mark Zuckerberg, que decidiu concentrar boa parte dos investimentos da Meta em inteligência artificial.

No mês passado, a empresa anunciou que pretende gastar entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões em 2026 — mais que o dobro do valor investido em 2025. Grande parte desses recursos será direcionada a projetos de IA.

A Meta busca reposicionar sua estrutura para competir na corrida global pela inteligência artificial, que já provocou mudanças profundas em empresas de tecnologia ao redor do mundo.

Nos últimos meses, gigantes do setor como Cisco, Microsoft, Block e Coinbase também anunciaram cortes de trabalhadores e reorganizações internas relacionadas ao avanço da IA.

Segundo trabalhadores atuais e ex-trabalhadores da Meta ouvidos pelo The New York Times, a mudança de foco da empresa provocou um ambiente de ansiedade e desgaste entre os cerca de 78 mil trabalhadores da companhia.

Antes do início oficial das demissões, centenas de empregados em Nova York chegaram a organizar um encontro informal para lidar com o clima de incerteza.

O convite para a reunião, obtido pelo NYT, dizia: “lamentar ou celebrar, escolha seu veneno”. O título do encontro era: “Nunca um momento de tédio [emoji de continência].”

Trabalhadores protestam contra uso de dados

Além das demissões, a Meta enfrenta uma crescente reação interna contra os projetos de inteligência artificial conduzidos pela companhia.

Mais de mil trabalhadores assinaram um abaixo-assinado pedindo o encerramento de um programa interno de rastreamento de dados usado para treinamento de ferramentas de IA.

Outros trabalhadores passaram a utilizar fóruns internos da empresa para criticar publicamente a direção da Meta e a forma como a reestruturação vem sendo conduzida.

Um dos textos que ganhou maior repercussão foi publicado pelo engenheiro de software Mack Ward.

“A IA é um trem desgovernado, mas o futuro não é uma conclusão inevitável. Não é tarde demais para pisar no freio e considerar como nós, sociedade, queremos conduzir isso”, escreveu o trabalhador.

“Falar nunca é fácil, mas ‘fácil’ não é o que você foi contratado para fazer.”

A publicação recebeu mais de 2 mil curtidas dentro da plataforma interna da empresa e incentivava outros trabalhadores a aderirem ao abaixo-assinado contra o rastreamento de dados.

Executivos reconhecem ambiente de tensão

Embora a alta direção da Meta tenha evitado comentar publicamente as críticas internas, alguns executivos começaram a reconhecer o impacto da reestruturação sobre os trabalhadores.

Durante uma sessão interna de perguntas e respostas realizada na semana passada, o diretor de tecnologia da empresa, Andrew Bosworth, admitiu o clima de apreensão dentro da companhia.

“[Há] um número enorme de trabalhadores sentindo ansiedade sobre seus futuros”, afirmou Bosworth, segundo gravação obtida pelo The New York Times.

“É tudo ruim. Não vou tentar dourar a pílula.”

Nova divisão de IA ganha prioridade máxima

Paralelamente às demissões, a Meta iniciou um grande movimento interno de recrutamento para uma nova divisão dedicada à inteligência artificial.

A equipe será liderada por Maher Saba, vice-presidente de engenharia da empresa, e recebeu o nome de IA Aplicada e Engenharia.

Segundo trabalhadores da companhia, cerca de 2 mil trabalhadores já foram direcionados para a nova área, considerada prioritária pela direção da Meta.

O grupo será responsável por utilizar os dados coletados pelo programa interno de rastreamento para desenvolver ferramentas de IA.

A nova estrutura também terá um modelo de gestão diferente do restante da companhia, com equipes maiores subordinadas a menos gerentes.

Trabalhadores transferidos para o projeto receberam a informação de que estariam protegidos das demissões em andamento.

Em um e-mail enviado a gestores da empresa, a Meta afirmou que a nova divisão representa “uma iniciativa de alta prioridade, diretamente do Mark”.

Segundo a mensagem, a participação no projeto não seria opcional.

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