Após mais de duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia finalmente assinaram, neste sábado (17), no Paraguai, um acordo de livre comércio considerado histórico e estratégico em um cenário global marcado por disputas comerciais e protecionismo. Autoridades sul-americanas e europeias usaram a cerimônia para defender o multilateralismo, o comércio baseado em regras e a cooperação internacional como motores do desenvolvimento econômico.
O acordo vinha sendo negociado desde 1999. O tratado, que agora segue para ratificação nos parlamentos nacionais e no Parlamento Europeu, poderá criar a maior área de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 700 milhões de consumidores e quase 20% do PIB global.
Em seu discurso, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que o acordo reafirma a crença dos dois blocos no comércio justo e no multilateralismo. Segundo ele, apesar da longa demora, o tratado chega em um momento oportuno.“Com este acordo enviamos uma mensagem clara ao mundo, em defesa do comércio livre baseado em regras, do multilateralismo e do direito internacional”, declarou. Costa destacou ainda que o objetivo não é criar esferas de influência, mas “esferas de prosperidade compartilhada”, com respeito à soberania, ao meio ambiente e aos direitos sociais.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou que a assinatura conecta continentes e representa uma escolha política clara. “Escolhemos o comércio justo em vez de tarifas. Escolhemos parcerias de longo prazo em vez de isolamento”, disse. Para ela, o acordo amplia oportunidades para cidadãos e empresas dos dois lados do Atlântico.
Anfitrião do evento, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, classificou a data como histórica e ressaltou o pragmatismo diplomático necessário para superar 26 anos de impasses. Ele destacou o papel do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que não pôde comparecer à cerimônia. “Sem o presidente Lula, talvez não tivéssemos chegado a este dia. Ele foi um dos responsáveis fundamentais deste processo”, afirmou.
O presidente da Argentina, Javier Milei, avaliou o tratado como um ponto de partida para novas oportunidades comerciais e para maior integração regional baseada no livre comércio. Milei alertou, no entanto, que a implementação precisa preservar o espírito do acordo. “A incorporação de mecanismos restritivos, como cotas ou salvaguardas, reduziria significativamente o impacto econômico do acordo”, ponderou.
Já o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, definiu o tratado como uma “associação estratégica” em um mundo atravessado por incertezas. Para ele, apostar em regras e integração comercial é condição indispensável para o desenvolvimento e também uma forma de enfrentar ameaças transnacionais, como o narcotráfico.
Representando o Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o acordo demonstra a força do mundo democrático e do multilateralismo. Segundo o chanceler, o tratado tem profundo sentido geopolítico e potencial para gerar empregos, investimentos, inovação tecnológica e crescimento econômico com inclusão social.“Em um cenário internacional marcado pela imprevisibilidade e pelo protecionismo, esse acordo envia uma mensagem clara e positiva ao mundo”, afirmou.
A cerimônia ocorreu em um dos principais teatros de Assunção, cercado por jardins de Roberto Burle Marx, e simbolizou um retorno do Paraguai ao centro do processo de integração regional, iniciado com o Tratado de Assunção, em 1991, que criou o Mercosul.
Do ponto de vista econômico, o acordo prevê a redução de tarifas em mais de 90% do comércio bilateral. A União Europeia deve ampliar exportações de automóveis, máquinas, tecnologia e produtos farmacêuticos, enquanto países do Mercosul ganham acesso ampliado ao mercado europeu para produtos como carne e soja.
Apesar do avanço, o tratado enfrenta resistência, especialmente de agricultores europeus, que temem a concorrência de produtos sul-americanos. Para mitigar críticas, a Comissão Europeia incluiu cláusulas de proteção e salvaguardas para setores sensíveis, como carne e arroz. Ainda assim, a aprovação no Parlamento Europeu não é garantida, com oposição liderada pela França.
Especialistas em comércio exterior avaliam que a assinatura pode ajudar a recuperar a coesão política do Mercosul, que vive divergências internas sobre o grau de integração e a possibilidade de acordos individuais fora do bloco. A conclusão do tratado também ganha peso em um contexto de tarifas e disputas comerciais globais, especialmente após medidas adotadas pelos Estados Unidos.
Com a assinatura formalizada, o acordo entra agora em sua fase mais delicada: a ratificação legislativa e a implementação gradual ao longo dos próximos anos, etapa que será decisiva para transformar o simbolismo político em ganhos econômicos concretos.






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