Mercado aposta em manutenção da Selic e vê início de cortes apenas em março

Com quórum reduzido, Copom deve manter juros em 15% e adotar cautela diante de incertezas fiscais, inflação persistente e pressões políticas

Os agentes do mercado financeiro esperam que o Comitê de Política Monetária (Copom) mantenha inalterada a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano, na reunião marcada para a próxima quarta-feira (28). Caso a projeção se confirme, será a quinta decisão consecutiva de manutenção, empurrando para março a expectativa majoritária de início do ciclo de cortes.

A avaliação predominante entre economistas é de que o Banco Central seguirá uma estratégia de cautela, diante de um cenário ainda marcado por incertezas na política econômica doméstica, dúvidas sobre o ritmo de desaceleração da atividade e um ambiente internacional volátil.

Reunião com quórum reduzido

O primeiro encontro do Copom em 2026 ocorrerá com composição incompleta. Desde 31 de dezembro, o colegiado conta com a saída de Diogo Guillen, diretor de Política Econômica, e de Renato Gomes, responsável pela Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução. Como os substitutos ainda não foram nomeados, apenas 7 dos 9 membros participarão da decisão.

Até o fim de 2025, as apostas sobre o início da flexibilização monetária estavam divididas entre janeiro e março. No entanto, a combinação de fatores domésticos e externos levou analistas a revisar projeções e a concentrar as expectativas para o mês de março.

Cautela diante de sinais mistos da economia

O economista Marco Antonio Caruso, do Santander, avalia que há dificuldade em diagnosticar com precisão a velocidade da desaceleração da economia brasileira, em razão de indicadores que apresentam sinais contraditórios sobre o nível de atividade. Ele também destaca a falta de clareza sobre os efeitos concretos de medidas recentes, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês.

“Existe um conforto maior em manter a postura monetária como está e aguardar novos sinais”, afirma. “Muita coisa conversava com uma postergação do primeiro corte. Talvez em março o diagnóstico seja um pouco mais claro”, acrescenta.

Na avaliação de Caruso, o Copom deve repetir uma comunicação semelhante à adotada no fim de 2025, sem antecipar de forma explícita os próximos passos da política monetária. Ele também projeta uma decisão unânime, reforçada pela ausência de dois diretores na reunião.

Segundo as estimativas do Santander, o ciclo de cortes deve começar de forma gradual, com uma redução inicial de 0,25 ponto percentual, seguida por um ritmo mais intenso a partir de abril. Nesse cenário, a Selic encerraria o processo em torno de 12,5% ao ano.

“O Banco Central já tem tomado decisões que são sobre 2027, […] mas ainda não temos grandes sinais sobre qual será a postura fiscal em 2027, porque pode ter mudanças do Ministério da Fazenda. Isso naturalmente levaria qualquer banqueiro central a se movimentar mais devagar”, diz.

Inflação no centro da estratégia

Para Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central e professor adjunto da Georgetown University, a demora em iniciar o ciclo de queda dos juros indica a intenção da atual gestão, comandada por Gabriel Galípolo, de conduzir a inflação para o centro da meta.

“Ele [Galípolo] não quer entregar a inflação entre a meta e o topo da banda de tolerância. Se quisesse fazer isso, já poderia ter iniciado o processo de corte de juros”, afirma.

A meta central de inflação perseguida pelo Banco Central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Pelo modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece por seis meses consecutivos fora da faixa entre 1,5% e 4,5%.

“Tudo pode mudar, mas ele [Copom] consegue usar esta reunião para abrir as portas em termos da comunicação e a reunião de março para mostrar a projeção na meta”, diz Volpon.

Dívida pública e impacto dos juros

Na análise do ex-diretor do BC, o principal desafio da conjuntura econômica brasileira é definir a extensão do ciclo de queda da Selic e lidar com o impacto dos juros elevados sobre o endividamento público. Segundo ele, a conta de juros é hoje o principal fator de crescimento da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

A dívida bruta do governo geral encerrou 2025 em 79,3% do PIB, conforme estimativa do Tesouro Nacional. Pelas projeções oficiais, o indicador pode alcançar 95% do PIB caso haja ampliação de gastos fora do arcabouço fiscal e ausência de medidas para reforçar a arrecadação. Mesmo com novas receitas, o endividamento poderia atingir um pico de 88,5% do PIB.

“Se essa conta de juros não for de alguma maneira disciplinada, de maneira crível, a gente fica com essa trajetória da dívida/PIB subindo 5%, 6%, 7% ao ano. É aquela história: ninguém nunca sabe quando e onde isso vai ser um problema, mas quanto mais alto fica, maior a probabilidade de ter um problema um dia”, afirma.

Pressões políticas e comunicação do Copom

A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, também avalia que turbulências internas e externas reforçam a postura conservadora do Copom neste início de ano. Para ela, há espaço para cortes a partir de março, possivelmente com um ajuste inicial mais forte, de 0,5 ponto percentual.

“Fica muito evidente que o Banco Central vai tentar primeiro ir com cautela, talvez sentindo como vai ser o começo de ano”, afirma. “O mercado está cada vez mais descrente na possibilidade de equilíbrio fiscal para esse ano. A gente pode ter riscos que podem tornar o cenário um tanto mais desafiador”, diz.

Inhasz defende que o Copom sinalize previamente a intenção de reduzir os juros na reunião seguinte, como forma de reduzir incertezas e evitar reações negativas do mercado e críticas do governo federal.

Em 2025, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o atual patamar da Selic, o mais alto em quase duas décadas, como insustentável. A crítica estava alinhada com a pressão exercida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável pela indicação de Galípolo para a presidência do Banco Central.

“Galípolo e os diretores, no geral, vão ser cada vez mais pressionados a baixar a taxa [básica de juros]. Até porque é ano eleitoral e não é muito positivo para o governo neste momento seguir com taxas de juros tão elevadas, dado que essa era a maior crítica em muitos momentos do mandato anterior, com Roberto Campos [Neto]”, afirma.

“Qualquer tipo de clareza e diretriz dentro das comunicações é muito positiva para diminuir essa sensação de que o Copom pode ter sido capturado por desejos eleitorais”, acrescenta.

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