O confronto no Complexo da Maré, que terminou com um aluno de 12 anos baleado dentro do Ciep Hélio Smidt nesta quarta-feira (26), motivou uma ofensiva parlamentar na Câmara do Rio. Diante da rotina de interrupção das aulas e riscos a estudantes e servidores, vereadores protocolaram pedidos de informação e convocaram audiência pública para cobrar protocolos de segurança mais rígidos.
A vereadora Maíra do MST encaminhou, mais cedo, um requerimento à Secretaria Municipal de Educação (SME) solicitando um levantamento detalhado sobre o impacto das operações policiais na rede pública nos últimos cinco anos. O documento questiona o número de unidades fechadas, a média de estudantes afetados por conta das paralisações e a quantidade de profissionais dispensados e impactados psicologicamente.
A parlamentar cita dados do Instituto Fogo Cruzado, que apontam cerca de 2 mil tiroteios próximos a escolas do município entre 2022 e 2024, sendo a maioria a menos de 300 metros de distância das instituições de ensino. Ela também menciona escalada de confrontos nos complexos da Maré, do Alemão e da Penha, onde operações recentes provocaram sucessivas suspensões de atividades escolares. A parlamentar afirma ter recebido denúncias de profissionais que relatam insegurança dentro das unidades.
Segundo a vereadora, a cobrança ganha urgência diante do planejamento do governo estadual de realizar ao menos mais 10 grandes operações até o fim do ano, na esteira das ações da Operação Contenção e da Barricada Zero.
“De maneira recorrente, tenho recebido em meu gabinete diversas denúncias e questionamentos sobre quais medidas são adotadas pela prefeitura para proteger crianças e adolescentes dentro das escolas. Exigimos que a Secretaria de Educação faça a sistematização desses dados e tome providências efetivas para prevenir e mitigar os danos e violações de direitos humanos causados pelas operações policiais nas favelas”, cobrou Maíra.
Paralisação de escolas motivou convocação de audiência pública
A movimentação também ocorre na base do governo. O presidente da Comissão de Educação, Salvino Oliveira (PSD), convocou uma audiência pública para o dia 9 com o objetivo de debater especificamente a violência no entorno escolar.
O colegiado chegou a promover encontros nas próprias escolas do município, nos quais pais, responsáveis e servidores das escolas cobraram, entre outras coisas, a adoção de protocolos de segurança mais eficazes em dias de registro de confronto perto das unidades. O parlamentar levou o assunto ao plenário diversas vezes, com críticas à política de segurança do Governo do Estado.
Um levantamento do mandato do vereador aponta que, até agosto deste ano, 39 escolas da região do Chapadão ficaram sem aulas por 29 dias devido a confrontos. Na Vila Kennedy, foram 17 unidades fechadas por 22 dias.
“Queremos compreender a fundo a situação da segurança pública, traçando um panorama para avaliar as consequências das políticas de segurança para os educadores e para a qualidade do ensino”, afirmou Salvino. O debate deve reunir Ministério Público, Defensoria, Conselho Tutelar, forças de segurança e representantes da Educação.
O caos do dia
A reação ocorre em meio a um dia de serviços essenciais afetados por conta dos tiroteios. Além do menino de 12 anos ferido na Maré, que está em estado estável, o confronto entre traficantes rivais e a intervenção da Polícia Civil fecharam a Linha Amarela duas vezes pela manhã.
A violência transbordou para o campus da UFRJ, no Fundão, que suspendeu as aulas após um disparo atingir uma sala do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza.
Simultaneamente, na Zona Oeste, a terceira etapa da Operação Barricada Zero interrompeu o funcionamento de 10 escolas na Cidade de Deus. A ação do governo estadual busca remover barreiras físicas instaladas pelo crime organizado em diferentes regiões do estado.
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