Médicos relatam agressões brutais em hospitais do Rio: ‘Mordeu, arranhou, bateu’

:Levantamento do Cremerj revela aumento de agressões físicas. Casos de violência em hospitais levaram à criação de rotas de fuga e botão de pânico em unidades do Rio

A violência contra médicos dentro de hospitais e unidades de saúde do Rio de Janeiro se transformou em um problema crescente e silencioso. Dados divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro mostram que quase mil profissionais sofreram algum tipo de agressão entre 2018 e 2025.

Os registros incluem agressões físicas, ataques verbais e casos de assédio moral. Segundo o levantamento do Cremerj, as mulheres aparecem como as principais vítimas da violência nas unidades de saúde.

Os dados foram obtidos por meio do Portal Defesa Médica, plataforma criada para receber denúncias de ataques contra profissionais da saúde em todo o estado e reportados pelo g1.

Números assustam

De acordo com o levantamento, foram registrados 89 casos de agressão física no período analisado. Desses, 60 tiveram mulheres como vítimas.

Além disso, o estado contabilizou 459 agressões verbais, sendo 297 contra médicas. Outros 208 registros envolveram assédio moral, dos quais 121 atingiram profissionais mulheres.

Os números acenderam o alerta entre entidades médicas, que cobram reforço na segurança das unidades de saúde e medidas mais rígidas para proteger profissionais durante os plantões.

Relatos de violência

Entre os casos relatados está o da médica Amanda Gil, que contou ter sido agredida durante um plantão na madrugada enquanto fazia a reavaliação de um paciente.

Segundo a profissional, a acompanhante do paciente se revoltou após uma explicação sobre a necessidade de autorização para realização de um exame de imagem.

“Ela montou em cima de mim na maca, mordeu, arranhou, bateu. Eu tive que fazer corpo de delito”, afirmou a médica.

Amanda relatou ainda que, após a agressão, não conseguiu retornar aos plantões de pediatria.

Outro episódio citado aconteceu em 2023 no Hospital de Irajá, na Zona Norte do Rio. A médica Sandra Rodrigues afirmou ter sido agredida por pai e filha que buscavam atendimento médico.

Enquanto a profissional era atacada, uma paciente de 82 anos morreu na sala vermelha da unidade após sofrer insuficiência cardiorrespiratória.

Sandra contou que ficou com sequelas físicas após o episódio. “Eu fiquei com uma lesão de bacia porque passei praticamente 10 meses com dificuldade para andar. Hoje tenho dor crônica”, declarou.

Hospitais adotam medidas

O aumento dos casos de violência levou o Conselho Federal de Medicina a criar uma resolução com normas de segurança para hospitais e unidades de saúde.

Entre as medidas previstas estão a criação de rotas de fuga, espaços de refúgio para profissionais e instalação de botão de pânico dentro das unidades.

Segundo Sandra Rodrigues, algumas mudanças já começaram a ser implementadas em parte da rede hospitalar, mas muitos profissionais ainda se sentem desprotegidos.

“Tem botão de pânico e segurança em alguns lugares. Mas a grande maioria da rede não mudou”, afirmou.

Medo afasta profissionais

O relator da resolução do CFM, o médico Raphael Câmara, afirmou que o avanço da violência já provoca dificuldades para contratação de profissionais em áreas consideradas de maior risco.

Segundo ele, muitos médicos evitam trabalhar em determinadas regiões por medo de ameaças e agressões.

O presidente do Cremerj, Antônio Braga, afirmou que o cenário exige medidas urgentes.

“É preciso dar um basta na violência contra os médicos. Sem segurança não haverá médicos, e sem médicos não teremos saúde”, declarou.

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