Um trecho de mata na parte alta da favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, conhecido como Doineia, tem servido não apenas como rota de fuga, mas também como campo de treinamento para criminosos foragidos de outros estados e ligados ao Comando Vermelho (CV). A informação foi repassada ao Ministério Público do Ceará (MP-CE) e revela que o local seria utilizado por traficantes como ponto de instrução em técnicas de progressão em trilhas, com orientação de criminosos locais — os chamados “crias” — e até aulas de tiro, conforme o jornal O Globo.
Vídeos registrados por drone no último sábado (31) mostram homens deixando a comunidade por essa área de mata.
A presença de traficantes oriundos de estados como Ceará, Pará e Goiás na Rocinha não é novidade para os órgãos de segurança. Entre 2024 e 2025, o Disque Denúncia recebeu 14 relatos sobre a presença de criminosos de fora do Rio na favela. A hospedagem desses foragidos se tornou fonte de lucro para John Wallace da Silva Viana, o Johnny Bravo” chefe do tráfico na Rocinha e integrante da cúpula do Comando Vermelho. De acordo com a polícia, ele cobra taxas para permitir que traficantes usem a comunidade como base para operar seus esquemas criminosos remotamente — o que ficou conhecido como “home office do tráfico”.
Conforme informações obtidas pelo Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP do Ceará, traficantes cearenses pagariam cerca de R$ 100 mil para permanecer na Rocinha. O valor, no entanto, pode variar, e os promotores ainda não sabem se o pagamento é feito mensal ou semanalmente.
No último sábado, promotores cearenses vieram ao Rio para cumprir 29 mandados de prisão contra integrantes da facção no estado, além de 14 de busca e apreensão. Apenas um suspeito foi preso, mas celulares apreendidos serão analisados pelo Gaeco. Durante a operação, foi descoberta uma mansão de alto padrão, com piscina aquecida, cascata, área gourmet, academia, mesa de sinuca e deck panorâmico, atribuída a Anastácio Pereira Paiva, conhecido como Doze, de 36 anos.
Segundo o MP-CE, Doze ocupa a segunda posição na hierarquia do Comando Vermelho no estado e é responsável pelo tráfico em Santa Quitéria, maior município cearense em extensão territorial. O chefe da facção no Ceará é José Mário Pires Magalhães, o ZM, de 39 anos. Ambos possuem extensa ficha criminal, com envolvimento em homicídios e organização criminosa. O MP afirma que Doze ordena execuções com extrema violência e manda gravar as cenas. Em um dos vídeos, seu grupo esquarteja um rival vivo com uma motosserra, e em outro, criminosos usam a cabeça de uma vítima como bola de futebol.
Além da dupla, outros nomes de menor escalão do CV cearense estariam escondidos na Rocinha: Bruno Félix Castro, Carlos Luiz da Costa, Jairo Morais de Vasconcelos e Álvaro Luiz Martins.
O governo do Rio também confirmou a presença de traficantes de Goiás e Pará na comunidade. O Disque Denúncia divulgou cartaz com fotos de quatro criminosos goianos supostamente escondidos na Rocinha: Alessandro Gomes Valadares, o Cascão; Cléber José Martins, o Escadão; Kaio Cesar Alves Ferreira, o Barney; e Marcos Vinicius da Silva Lima, o Rodinha. Cléber faria parte do conselho do CV em Goiás e é suspeito de participar da execução de um rival na Bolívia, em 2017. Ele também é procurado pela Justiça do Ceará.






