Rejeitada pelo presidente Lula, a proposta de equiparar facções criminosas a grupos terroristas encontra forte respaldo entre os moradores do Rio de Janeiro. Segundo pesquisa Genial/Quaest, divulgada pelo jornal O Globo, 72% da população fluminense é favorável à medida, que voltou ao centro do debate após a megaoperação contra o Comando Vermelho realizada na semana passada nos complexos da Penha e do Alemão.
O levantamento mostra ainda que a maioria apoia outras propostas de endurecimento penal que tramitam no Congresso. Mesmo entre eleitores lulistas (49%) e de esquerda (36%), o tema divide opiniões, mas ganha força entre independentes (74%) e atinge quase unanimidade entre bolsonaristas (91%) e pessoas que se identificam com a direita (95%).
Disputa no Congresso e avanço de projetos
O projeto que propõe o enquadramento das facções como terroristas é de autoria do deputado Danilo Forte (União-CE). Apresentado em março, ele passou pelas comissões de Segurança Pública e de Constituição e Justiça, mas voltou a ganhar destaque após os desdobramentos da operação no Rio. A relatoria, antes sob o comando de Nikolas Ferreira (PL-MG), será assumida por Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de Segurança de São Paulo, que se licenciará do cargo para retomar o mandato e conduzir a discussão.
Além de classificar grupos criminosos como terroristas, a proposta prevê aumento “exponencial” das penas para o uso de armamentos de guerra, instalação de barricadas e domínio territorial.
Enquanto isso, o governo federal aposta em seu próprio “pacote antifacção”, assinado pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e encaminhado ao Congresso. O texto cria o crime de “organização criminosa qualificada”, que pode elevar a pena para até 30 anos em casos de homicídio.
Punições mais severas têm apoio expressivo
De acordo com o levantamento, 85% dos fluminenses apoiam o aumento da pena para homicídios cometidos a mando de facções. Apenas 10% rejeitam a proposta.
Outro tema que divide o país, o fim das “saidinhas” temporárias de presos, também recebeu aprovação da maioria: 53% dos entrevistados são favoráveis à extinção do benefício, mesmo para detentos com bom comportamento. Já 62% defenderam o fim das visitas íntimas para presos ligados a organizações criminosas.
Tensão entre governo federal e estados
A pesquisa também revela desgaste na imagem do governo federal no tema da segurança. Para 60% dos entrevistados, a atuação de Lula nessa área é negativa; 18% a consideram positiva e 22% a classificam como regular. Além disso, 53% afirmam que o Planalto não tem ajudado os estados no combate ao crime organizado.
O embate ficou evidente durante a megaoperação na Penha e no Alemão. Na ocasião, o governador Cláudio Castro afirmou que o governo federal não tinha “política” de apoio às ações estaduais. Mais tarde, negou ter solicitado ajuda e disse que a decisão sobre uma possível intervenção federal, via Garantia da Lei e da Ordem (GLO), caberia a Brasília.
A GLO é apoiada por 59% dos fluminenses, com aprovação em todas as regiões, exceto na capital. Como alternativa, Lewandowski anunciou a criação de um Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado para eliminar “barreiras entre os governos” — medida aprovada por 94% dos entrevistados.
Planos, operações e percepção da violência
O governador do Rio também foi cobrado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a apresentar o plano de recuperação dos territórios dominados pelo tráfico, exigido desde abril. Segundo o ministro, “enquanto esse plano não sair do papel, e as incursões forem pontuais, o resultado dessas operações continuará sendo parcial e insustentável”.
Apesar das críticas, a megaoperação contra o Comando Vermelho foi aprovada por 64% da população. No entanto, o sentimento de insegurança permanece alto, e cresceu a percepção de que o estado vive um “cenário de guerra”.
Por outro lado, a confiança na Polícia Militar aumentou: passou de 65%, em novembro de 2023, para 72% neste ano. A confiança no Judiciário caiu de 67% para 61%, enquanto nas Forças Armadas houve estabilidade, com leve queda de 84% para 83%.
A pesquisa Quaest ouviu 1.500 pessoas entre 30 e 31 de outubro, em quarenta municípios do Rio de Janeiro. A margem de erro é de três pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.






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