Uma pesquisa inédita realizada por organizações da sociedade civil de favelas do Rio de Janeiro aponta que a maioria dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha rejeita as operações policiais com confronto armado realizadas nesses territórios.
Segundo o levantamento “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, divulgado nesta quarta-feira (20), 73% dos entrevistados disseram discordar das operações policiais em suas comunidades. Outros 25% afirmaram concordar com as ações, enquanto 2% não responderam.
O estudo também mostra que 92% desaprovam a forma como as operações são conduzidas atualmente e 95% consideram que as ações não contribuem para aumentar a segurança das famílias.
A pesquisa foi conduzida pelas organizações Fala Roça, Frente Penha, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Redes da Maré e A Rocinha Resiste, com atuação direta nesses territórios. O estudo recebeu apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência (UERJ) e Open Society Foundations.
Ao todo, 4.080 moradores foram entrevistados presencialmente entre os dias 13 e 31 de janeiro deste ano. As entrevistas foram distribuídas igualmente entre os quatro territórios pesquisados.
Segundo as organizações responsáveis, o objetivo do estudo foi ouvir moradores diretamente impactados pelas operações policiais e compreender as percepções sobre violência, medo, segurança e atuação das forças policiais nas favelas.
A proposta do estudo é buscar entender o que está por trás das percepções dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Conjunto de Favelas da Maré e Rocinha sobre as operações policiais, as motivações e influências de suas opiniões, as críticas, os desejos de mudança, os sentimentos e as sensações despertadas pela atuação das forças policiais onde vivem
Diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva
Excessos em operações
A pesquisa aponta ainda que 91% dos entrevistados acreditam que há excessos e ilegalidades cometidos pela polícia durante as operações. Entre aqueles que apoiam as ações policiais, 85% também reconhecem abusos.
Outro dado destacado pelo levantamento é a percepção de insegurança provocada pelas operações. Cerca de 78% dos moradores afirmaram sentir medo da polícia durante as ações.
Entre os jovens de 18 a 29 anos, a rejeição às operações chega a 79%. O índice também é maior entre pessoas pretas, grupo em que 81% disseram discordar das operações policiais nos territórios.
Quase todos os entrevistados ( 93%) afirmaram já ter vivenciado diretamente operações policiais ou ter familiares impactados pelas ações. Restrição de circulação, invasões de domicílio e presença de tiroteios aparecem entre os efeitos mais relatados.
O estudo também investigou a percepção sobre operações com alto número de mortos. Quando questionados sobre ações como a realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, que terminou com 122 mortos, 85% responderam que operações daquele tipo não deveriam voltar a acontecer.
Segundo as entidades responsáveis, os dados indicam um cenário de desgaste da população diante da política de segurança baseada em confrontos armados recorrentes nas favelas do Rio.






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