A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras provocou forte reação nos bastidores do Palácio do Planalto. Surpreendido pelo anúncio feito pelo Departamento de Estado dos EUA, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a discutir com ministros e assessores uma estratégia de resposta que combine cooperação internacional no combate ao crime organizado e defesa da soberania brasileira.
Segundo informações do blog do Valdo Cruz, no portal g1, integrantes do governo disseram que Lula não recebeu bem a medida e avalia, inclusive, a possibilidade de conversar diretamente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para tratar do tema.
A avaliação de auxiliares próximos ao presidente é que Trump pode não ter participado diretamente da formulação da decisão e que a iniciativa teria sido impulsionada por setores mais conservadores e ideológicos da administração estadunidense.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro pretende buscar mecanismos de cooperação com Washington para o enfrentamento de organizações criminosas transnacionais, evitando que a reação seja interpretada como resistência ao combate ao crime organizado.
Surpresa e desconforto no Planalto
O principal incômodo do governo brasileiro não se restringe ao conteúdo da decisão, mas também à forma como ela foi anunciada.
Segundo interlocutores do Planalto, o Itamaraty e o Ministério da Justiça não foram previamente informados sobre a medida. A ausência de comunicação direta foi interpretada como um gesto diplomático negativo e gerou desconforto dentro do governo.
Integrantes da equipe presidencial argumentam que uma decisão com potencial impacto sobre as relações bilaterais deveria ter sido discutida ou, ao menos, comunicada oficialmente antes de sua divulgação pública.
Nos bastidores, a leitura é que a medida acabou ganhando um componente político adicional por ter sido anunciada poucos dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos.
O parlamentar se reuniu nesta semana com integrantes do governo dos EUA e defendeu a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas.
Para assessores de Lula, a sequência dos acontecimentos gerou a percepção de que a administração Trump pode ter atendido a uma demanda apresentada pelo senador e pré-candidato à Presidência da República.
Temor de interferência eleitoral
Uma das preocupações do governo é evitar que a decisão seja interpretada como um sinal de apoio político dos Estados Unidos a Flávio Bolsonaro.
Segundo integrantes do Planalto, a forma como o anúncio foi conduzido reforçou a avaliação de que Trump poderá desempenhar algum papel no debate eleitoral brasileiro.
O governo brasileiro defende que os Estados Unidos mantenham uma postura de neutralidade durante o processo eleitoral.
Ainda assim, interlocutores do presidente avaliam que uma eventual aproximação explícita entre Trump e Flávio Bolsonaro também poderia ser explorada politicamente pelo governo.
A leitura feita por setores do Planalto é que a imagem do presidente dos EUA enfrenta elevados índices de rejeição entre parcelas significativas do eleitorado brasileiro, o que poderia produzir efeitos políticos distintos dos pretendidos por seus apoiadores.
Reuniões e consultas mobilizam governo
Desde a divulgação da medida, Lula passou a acompanhar pessoalmente as discussões sobre os possíveis desdobramentos diplomáticos, econômicos e jurídicos da decisão dos EUA.
Durante a noite de quinta-feira (28), o presidente manteve uma série de conversas com integrantes da cúpula do governo.
Entre os interlocutores estavam o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira; o número dois da Assessoria Especial da Presidência, Audo Faleiro; o ministro da Justiça, Wellington César; e o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
A maior parte das reuniões ocorreu por telefone, enquanto Celso Amorim, principal assessor internacional do presidente, retornava de viagem à Rússia.
A orientação preliminar adotada pelo Planalto segue a linha já defendida por Amorim em outras ocasiões: cooperação internacional para combater o crime organizado, mas sem qualquer abertura para interferência externa em assuntos internos do Brasil.
Estudos sobre impactos econômicos e operacionais
Lula também determinou a realização de estudos para avaliar os possíveis efeitos da determinação.
Ao Ministério da Justiça foi solicitado um levantamento sobre eventuais impactos na cooperação internacional entre os dois países, especialmente no compartilhamento de informações e em operações conjuntas de combate ao crime organizado.
Já ao Ministério da Fazenda coube analisar os possíveis reflexos econômicos da medida.
A preocupação envolve principalmente o sistema financeiro, empresas que possam ser afetadas por futuras sanções internacionais e eventuais repercussões sobre investimentos e relações comerciais.
A classificação das facções como organizações terroristas amplia os instrumentos legais disponíveis para o governo dos EUA adotar medidas restritivas contra pessoas, entidades e organizações que mantenham vínculos financeiros ou operacionais com grupos enquadrados nessa categoria.
Defesa da soberania será eixo central
Embora ainda não tenha sido definida a forma da resposta oficial, integrantes do governo afirmam que já existem ao menos duas versões de nota prontas para avaliação presidencial.
A expectativa é que qualquer posicionamento tenha como principal eixo a defesa da soberania nacional.
A equipe de comunicação do governo também considera a possibilidade de Lula abordar o tema publicamente durante compromissos previstos para esta sexta-feira (29), em Sergipe.
O objetivo seria reafirmar que o Brasil possui instituições próprias para enfrentar organizações criminosas e que o combate ao crime deve ocorrer dentro dos marcos legais e constitucionais do país.
Desafio é criticar medida sem parecer defender facções
Nos bastidores, uma das principais preocupações do governo é encontrar um tom que permita contestar a decisão estadunidense sem transmitir à opinião pública a impressão de que estaria defendendo PCC ou Comando Vermelho.
Assessores presidenciais reconhecem que existe uma linha delicada entre a crítica diplomática e a interpretação política da mensagem.
Por isso, uma das estratégias em estudo é concentrar o discurso nos efeitos econômicos, jurídicos e diplomáticos da medida, buscando ampliar o debate para além da questão da segurança pública.
A intenção é demonstrar que o questionamento do governo não se refere ao combate às facções criminosas, mas às implicações da classificação adotada pelos Estados Unidos e ao modo como ela foi conduzida.
Cooperação internacional continuará sendo defendida
Apesar das críticas à forma como a decisão foi tomada, integrantes do governo afirmam que o Brasil continuará defendendo a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
O Planalto pretende reforçar que organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho atuam de forma transnacional e exigem ações coordenadas entre diferentes países.
Ao mesmo tempo, o governo quer destacar que investigações recentes demonstram a capacidade das autoridades brasileiras de identificar e atingir estruturas financeiras sofisticadas ligadas às facções.
Nos bastidores, integrantes da administração federal também ressaltam que as atividades dessas organizações alcançam setores diversos da economia e da política, exigindo estratégias complexas de investigação e repressão.
Enquanto avalia a resposta oficial, o governo busca equilibrar firmeza na defesa da soberania nacional com a manutenção dos canais de diálogo e cooperação com os Estados Unidos.






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