O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende praticamente suspender as viagens internacionais durante o período mais intenso da campanha eleitoral de 2026. Segundo informações divulgadas pelo portal Brasil 247, a previsão é que o chefe do Executivo deixe o Brasil apenas uma vez entre setembro e outubro, período decisivo da disputa pelo Palácio do Planalto.
O destino será Nova York, nos Estados Unidos, onde Lula deverá participar da abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. Por tradição diplomática consolidada há décadas, cabe ao Brasil fazer o primeiro discurso do debate geral entre os países-membros da organização.
A passagem pelos Estados Unidos poderá ganhar, no entanto, uma dimensão que vai além da participação na ONU. Nos bastidores, existe expectativa sobre a possibilidade de Lula encontrar pessoalmente o presidente Donald Trump, durante a reunião de líderes mundiais.
Caso uma conversa entre os dois seja incluída na agenda ou ocorra à margem da Assembleia-Geral, o encontro terá atenção especial diante das recentes divergências entre Brasília e Washington.
A estratégia definida no Planalto indica que, fora o compromisso na ONU, Lula deverá concentrar praticamente toda a agenda no Brasil, onde pretende participar diretamente das atividades da campanha eleitoral.
Nova York pode abrir espaço para encontro com Trump
A eventual reunião com Trump acrescentaria um ingrediente diplomático de peso à única viagem internacional prevista para Lula durante a campanha.
A Assembleia-Geral reúne anualmente dezenas de chefes de Estado e de governo e tradicionalmente proporciona encontros bilaterais e conversas informais nos corredores da sede das Nações Unidas.
É nesse ambiente que integrantes do governo brasileiro enxergam a possibilidade de algum contato entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos.
Uma eventual conversa ocorreria em meio a um período de atritos diplomáticos entre os dois governos e de acusações, por parte de Brasília, de interferência de setores estadunidenses em assuntos internos brasileiros.
A relação com Washington ganhou peso adicional diante do processo eleitoral brasileiro. O governo Lula tem procurado apresentar a defesa da soberania nacional como um dos pilares de seu discurso político e diplomático, enquanto aliados de Trump intensificaram críticas ao presidente brasileiro.
Nesse cenário, um encontro em Nova York teria potencial para se transformar em um dos principais acontecimentos diplomáticos da campanha, ainda que uma reunião formal entre os dois presidentes não esteja confirmada.
Soberania marcou discurso anterior na ONU
A defesa da soberania brasileira já havia ocupado espaço relevante na participação de Lula na Assembleia-Geral das Nações Unidas em 2025.
Na ocasião, o presidente levou ao principal fórum diplomático mundial críticas às tentativas de interferência externa no Brasil e apresentou a preservação das instituições democráticas como uma questão que deveria ser resolvida pelos próprios brasileiros.
A posição adotada pelo governo naquele momento ajuda a explicar a importância política que uma nova passagem de Lula por Nova York poderá adquirir neste ano.
Além das pautas tradicionais da diplomacia brasileira — como reforma das instituições multilaterais, combate à fome, mudanças climáticas, redução das desigualdades e conflitos internacionais —, a conjuntura eleitoral poderá colocar novamente a soberania no centro do discurso presidencial.
A viagem também permitirá a Lula manter sua presença em um dos eventos internacionais de maior visibilidade do calendário diplomático sem permanecer muitos dias afastado do Brasil.
Campanha deve tirar Lula da cúpula do Brics
A decisão de priorizar a campanha, por outro lado, deverá provocar uma ausência importante na agenda externa brasileira.
Segundo assessores do Palácio do Planalto, Lula não deverá participar presencialmente da cúpula do BRICS prevista para os dias 12 e 13 de setembro, em Nova Déli, na Índia.
O bloco reúne 11 economias emergentes e tornou-se um dos principais instrumentos da estratégia brasileira de ampliar o espaço dos países do chamado Sul Global nas decisões internacionais.
A ausência de Lula será especialmente significativa porque o presidente tem dedicado parte importante de sua política externa ao fortalecimento do Brics e à defesa de uma ordem internacional menos concentrada nas potências ocidentais.
Auxiliares presidenciais avaliam, porém, que uma viagem à Índia no auge da campanha retiraria Lula do Brasil justamente em um período considerado decisivo para a mobilização eleitoral.
A orientação é reduzir ao mínimo os compromissos que exijam deslocamentos internacionais durante setembro e outubro.
Mauro Vieira deverá representar o Brasil
Sem Lula, a representação brasileira na cúpula de Nova Déli deverá ficar sob responsabilidade do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
O chanceler deverá chefiar a delegação enviada à Índia e representar formalmente o governo brasileiro nas discussões entre os integrantes do Brics.
A comitiva poderá contar ainda com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que avalia acompanhar Mauro Vieira na viagem.
A presença de ministros permitirá ao Brasil participar das principais negociações do encontro mesmo sem a presença do presidente da República.
A ausência de Lula, porém, evidencia a mudança temporária de prioridades do Palácio do Planalto. Depois de manter uma intensa agenda de viagens internacionais ao longo do mandato, o presidente deverá passar a maior parte dos meses que antecedem a eleição dentro do país.
A exceção será Nova York. Além do peso institucional do discurso brasileiro na abertura da Assembleia-Geral, a reunião da ONU oferece a possibilidade de Lula reforçar perante líderes internacionais a defesa da democracia e da soberania brasileira.
E, caso o encontro com Donald Trump se concretize, a única viagem internacional prevista durante a campanha poderá também se transformar no momento mais importante da relação entre Brasília e Washington neste período de tensão.







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