A reação de Flávio Bolsonaro (PL) à derrota presidencial abriu divergências entre lideranças evangélicas que apoiaram sua candidatura. Após o senador contestar o resultado das urnas e deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos, representantes de grandes igrejas passaram a defender o reconhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a demarcar distância do grupo político bolsonarista.
Segundo reportagem do jornal O Globo, esse movimento ocorre também em meio à avaliação sobre o desempenho eleitoral de candidatos ligados às igrejas. Enquanto nomes do bolsonarismo ampliaram suas votações com apoio de fiéis, parte dos parlamentares respaldados diretamente pelas congregações não conseguiu se reeleger.
O distanciamento, porém, não é uniforme. Há pastores que criticam a contestação eleitoral, mas defendem a saída de Flávio do país. Outros continuam oferecendo apoio público ao senador, que participou de um culto na Flórida nesta segunda-feira (2), em sua primeira aparição pública desde que deixou o Brasil.
Universal revê relação com o bolsonarismo
Na Universal, um gesto simbólico ocorreu no dia seguinte à eleição. O bispo Alessandro Paschoall, interlocutor da igreja em assuntos políticos, republicou uma declaração de Edir Macedo sobre o lema associado ao bolsonarismo.
“Na Universal, nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus, depois família, e depois o resto. Não concordo com essa teoria “Deus, pátria e família”. Porque se não houver família, vai haver pátria? Impossível. Só há pátria se vier da família, que vem de Deus”, discorreu Macedo na ocasião.
A fala havia sido feita na manhã do segundo turno. Durante a campanha, políticos ligados à Universal, como o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, apoiaram Flávio, enquanto pastores próximos a Macedo evitaram uma adesão explícita.
Paschoall publicou vídeos nos quais afirmou que seu espectro político “não é de direita ou de esquerda, e sim do reino de Deus”. Também lamentou o resultado dos candidatos da igreja: metade dos 12 deputados federais da Universal não conseguiu renovar o mandato.
Nos bastidores, pessoas próximas à congregação avaliam que a aproximação com a direita beneficiou mais o bolsonarismo do que a própria instituição. O vereador carioca e bispo Inaldo Silva (Republicanos), entretanto, interpreta a postura de Macedo como uma tentativa de preservar a convivência entre fiéis.
“Não podemos subestimar alguém que teve mais de 60 milhões de votos. A neutralidade veio porque a gente acaba escolhendo um lado e perdendo muito, na nossa comunidade há pessoas da direita e da esquerda”, diz.
Pastores defendem respeito ao resultado
Na Assembleia de Deus de Madureira, o bispo Abner Ferreira reconheceu a vitória de Lula no dia seguinte à votação. A igreja havia apoiado Flávio no segundo turno, e Abner participou de um culto em outubro no qual seu irmão, Samuel Ferreira, recomendou o voto no candidato do PL.
Após a eleição, Abner escreveu que a democracia “exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”.
O bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, onde Flávio foi batizado em 2024, também defendeu o encerramento da disputa. Na quarta-feira, afirmou que “as eleições terminaram” e que “não há terceiro turno”. Sem indicar um destinatário específico, orientou ainda que “pare de profetizar o caos”.
Naquele mesmo dia, Flávio divulgou, já no exterior, uma carta de teor golpista na qual se apresentou como “verdadeiro presidente eleito”. Em uma segunda versão, utilizou o termo “líder” do país.
Aliado do senador e líder da Igreja Fonte da Vida, o apóstolo César Augusto afirmou que não se arrependeu do voto, mas discordou da reação à derrota.
“Numa derrota, você fica extremamente decepcionado. Nesse momento, o conselheiro tem que ter a sensatez de ajudar, equilibrar. Acho que ele foi muito mal orientado. Não concordo, mas não vejo como um problema de ele se achar ditador, não. Isso foi no calor da derrota. As eleições ocorreram, segundo a Justiça, de maneira legal, então vira-se a chave para olhar o futuro do país.”
Apoio permanece entre parte dos aliados
Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, também criticou reservadamente a postura do grupo. Segundo informação publicada pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, o pastor chamou os “filhos de Bolsonaro” de “jumentos” após a divulgação da carta.
Publicamente, contudo, Malafaia defendeu a saída de Flávio do Brasil, classificando-o como um “perseguido político”.
O deputado e pastor Eli Borges (Republicanos-TO), ex-presidente da bancada evangélica, igualmente apoiou a saída do senador, mas afirmou não ter lido a carta. José Wellington Jr., presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus, não se manifestou sobre a mensagem.
Para Borges, a declaração de Macedo expressa uma preocupação de “teor teológico”.
“Vejo ele (Macedo) como um teólogo querendo colocar as palavras de forma hierárquica, mas sem negar a essência do lema usado pelo bolsonarismo.”
Apesar das divergências, Flávio recebeu apoio no culto do Ministério Celeiro, nos Estados Unidos, ao lado de Eduardo Bolsonaro e das respectivas esposas. Sem mencionar diretamente a eleição, o pastor José Maurício dirigiu uma mensagem ao senador.
“Com Jesus você não perde. E, se perder, você está ganhando”, disse no culto.







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