Leo Lins transforma piadas racistas em trunfo comercial e desafia Justiça em show lotado em São Paulo

Condenado por discurso discriminatório, humorista usa ataques a negros e indígenas para reforçar narrativa de censura

Reportagem de O Globo publicada nesta quarta-feira (25) mostra que o humorista Leo Lins intensificou os ataques a minorias, em especial a negros, indígenas e pessoas com deficiência, em seu novo espetáculo “Enterrado vivo”, apresentado dias após sua condenação a mais de oito anos de prisão por incitação ao discurso de ódio. O show, apresentado no Teatro Gazeta, em São Paulo, lotou as 720 cadeiras da casa e foi tratado pelo artista como um palco de resistência contra o que ele chama de “censura judicial”.

A performance transformou a sentença em marketing. A sinopse do espetáculo divulga abertamente que o humorista foi proibido de se apresentar em mais de 50 cidades por fazer “piadas provocadoras” que desafiam o politicamente correto. A estratégia parece surtir efeito: o público cresceu após a condenação.

Mas o que o espetáculo entrega vai além da provocação. Ao longo de mais de uma hora de show, Lins reforça piadas de cunho claramente racista. A plateia ri enquanto ele ironiza o ativismo negro, a escravidão, o genocídio indígena e até a deficiência física, criando personagens e situações baseadas em estereótipos.

Logo no início do espetáculo, o humorista simula uma piada que resume a linha que seguirá: “Vou começar com um tema leve: escravidão”, anuncia, arrancando risos. Em seguida, emenda: “Escravidão é um tema que, segundo a mídia, algumas pessoas são contra e outras são brancas”. A fala é seguida de outra provocação: “Quero uma índia negra e obesa. Meu filho vai ser o rei das minorias. Aí deixo ele cair de cabeça para ficar deficiente também. Coloco um boné do MST e vira um deus”.

As declarações se aproximam de uma sátira da interseccionalidade — conceito que relaciona desigualdades múltiplas —, mas, longe de promover reflexão, utilizam os marcadores sociais como ferramentas de escárnio. O ataque se amplia quando Lins parodia o consumo de produtos por negros e indígenas, referindo-se ao supermercado Carrefour como “CarreFührer” — trocadilho com “Führer”, título de Adolf Hitler —, ao mesmo tempo em que faz a saudação nazista.

As referências ao racismo seguem em outra piada: “Você pode adotar um bebê preto. Cidadania sai na hora, já tem o black card. E tem que ser da África, porque rico gosta de coisa exótica, né? Quero um bebê da Eritreia”, diz, em referência a um país com altos índices de HIV, para então ironizar: “Isso aí é para calar a boca dos preconceituosos que acham que só gay passa aids. Os negros também”.

A estratégia do humorista se ancora na persona do “perseguido político”. Ao abordar a própria condenação por discurso de ódio, ele a transforma em escada cômica: “Se você comete um homicídio sendo réu primário, consegue pegar seis anos. Eu peguei oito. A mensagem da Justiça é: ‘Se você é preconceituoso, não faça piada, mate!’”.

A Justiça, no entanto, vê o caso com gravidade. A sentença da 3ª Vara Criminal Federal de São Paulo afirma que as piadas “ultrapassam a liberdade de expressão ao fomentar preconceitos estruturais e reproduzir estigmas violentos contra grupos historicamente discriminados”. Segundo o Ministério Público Federal, o vídeo que originou o processo, publicado em 2022, atingiu mais de 3 milhões de visualizações e espalhou conteúdo racista, homofóbico, capacitista e antissemita. O vídeo foi removido do YouTube por violação de diretrizes em agosto de 2023.

Apesar da gravidade das acusações, Leo Lins segue apostando na transgressão. Em sua visão, quanto mais polêmico, mais público atrai. Ao fim do espetáculo, reafirma: “A intenção de toda piada é fazer rir. Quanto mais tentam me calar, mais ouvido eu sou. Até surdo já me escuta”.

A adesão do público, que esgota ingressos e se mobiliza em defesa do humorista, revela um desafio crescente para o sistema de Justiça e para a sociedade civil: a transformação do discurso discriminatório em espetáculo e de sua rejeição judicial em ferramenta de marketing.

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