A Justiça do Rio negou, nesta segunda-feira (16), os pedidos para revogar as prisões de Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, de Landerson Lucas dos Santos — ambos foragidos — e do policial militar Reuel de Almeida Silva Fernandes, que está preso. Eles foram alvos da operação Contenção Red Legacy, deflagrada no dia 11 deste mês pela Polícia Civil contra o Comando Vermelho.
As defesas solicitaram que os investigados fossem incluídos na decisão liminar que beneficiou o vereador Salvino Oliveira (PSD), preso na ação. O parlamentar teve a prisão temporária revogada no último dia 13.
O pedido, no entanto, foi rejeitado pelo desembargador Marcus Basílio, da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ).
Na decisão, o magistrado afirmou que a análise feita no caso do vereador levou em conta circunstâncias específicas e não pode ser automaticamente aplicada aos demais indiciados. Segundo ele, a extensão do benefício exige que haja identidade entre as situações fáticas e jurídicas dos envolvidos.
“O que é fato é que a extensão do benefício requerido reclama identidade de situações fático-jurídicas entre os envolvidos, estando a decisão que se pretende estender escorada em circunstâncias fáticas relativas exclusivamente ao paciente”, diz o trecho da decisão.
O desembargador ressaltou ainda que a concessão da liminar a Salvino considerou exclusivamente os elementos presentes no processo relacionado ao parlamentar. De acordo com a decisão, os indícios de participação do vereador na organização criminosa foram considerados frágeis, baseados apenas na menção a uma conversa entre terceiros ocorrida há mais de um ano.
Márcia, Landerson e o policial militar Reuel foram indiciados pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD) por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho.
Ela é mulher de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado pelas autoridades como um dos líderes da facção. Os dois são pais do trapper Mauro Davi Nepomuceno dos Santos, o Oruam, que também é considerado foragido por outro processo criminal. Já Landerson é sobrinho do criminoso.
Entenda a operação
Segundo os investigadores, Márcia teria papel ativo na estrutura da facção fora das prisões. As apurações apontam que ela atuaria na intermediação de interesses do grupo criminoso, participando da circulação de informações entre integrantes da organização e de articulações com operadores da facção e agentes externos.
Atualmente, ela tem mais de meio milhão de seguidores nas redes sociais e não estava em um dos endereços que eram alvo de mandados durante a operação. Desde então, passou a ser considerada foragida.
Já Landerson Nepomuceno é apontado como um elo importante entre lideranças da facção, integrantes que atuam em comunidades dominadas pelo grupo e pessoas envolvidas em atividades econômicas exploradas pela organização criminosa, como serviços, imóveis e outros negócios utilizados para geração de recursos.
De acordo com os investigadores, a presença de familiares no funcionamento da organização reforça o modelo de governança interna e a estrutura hierárquica do Comando Vermelho, mesmo com seus principais líderes presos há décadas.
Influência mesmo preso
Considerado um dos chefes históricos da facção, Marcinho VP cumpre pena no sistema penitenciário federal. Ainda assim, segundo a polícia, ele segue exercendo influência sobre decisões e estratégias do grupo criminoso.
A atuação de familiares e aliados próximos seria justamente uma forma de manter ativa a rede de comunicação e articulação da organização fora das unidades prisionais.
Filho também é alvo da Justiça
Desde julho de 2025, Mauro Davi Nepomuceno dos Santos, o Oruam, é acusado de tentativa de homicídio contra o delegado Moysés Santana Gomes e o oficial de cartório Alexandre Alves Ferraz.
Segundo as investigações, o cantor e o amigo Willyam Matheus Vianna Rodrigues Vieira teriam atacado os agentes com pedras durante uma ação policial no dia 22 de julho, na casa do trapper, no bairro do Joá, Zona Oeste do Rio.
Os policiais estavam no local para cumprir um mandado de apreensão contra um adolescente.
Oruam chegou a ficar preso por dois meses e foi solto em setembro de 2025, passando a responder em liberdade com monitoramento por tornozeleira eletrônica.
Segundo autoridades, ele teria violado o equipamento quase 70 vezes. Desde o dia 2 de fevereiro, a tornozeleira está desligada, o que levou a Justiça a decretar novamente sua prisão preventiva. O trapper não foi encontrado nos endereços informados à Justiça e também é considerado foragido.
A defesa do artista afirma que ele poderia sofrer agravamento de seu quadro mental em ambiente prisional, argumento apresentado para justificar o fato de ele ainda não ter se apresentado às autoridades.
Após a repercussão do caso, Oruam lançou uma música em que afirma se sentir perseguido, definindo-se como ‘gângster’ e ‘sujeito homem’.
A reportagem tenta localizar a defesa de Márcia e Landerson, o espaço segue aberto para eventuais manifestações.
Vereador preso
Salvino Oliveira (PSD), vereador do Rio, foi preso durante a ação. Segundo as investigações, o parlamentar teria contado com o apoio de integrantes do CV para fazer campanha na comunidade da Gardênia Azul durante as eleições de 2024. Salvino foi eleito com mais de 27 mil votos.
A Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro informou que o vereador teria procurado o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca e apontado como uma das principais lideranças da facção, para conseguir autorização para fazer campanha na região.
Em contrapartida, de acordo com os investigadores, Salvino teria atuado para viabilizar vantagens ao grupo criminoso, apresentadas publicamente como iniciativas voltadas aos moradores, entre elas a instalação de quiosques na comunidade.






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